Invenções - FÓRCEPS
Na espécie humana o parto ocorre espontaneamente quando o produto da concepção progrediu em seu desenvolvimento a ponto de poder viver fora do organismo materno. Todavia, a parturiente quase sempre é assistida por um médico obstetra, ou então por uma parteira, porque sempre existe a possibilidade de ocorrerem complicações nesse momento delicado.
O parto normal ocorre mecanicamente, ou seja, o nascituro é expulso do ventre da mãe sob a influência da força de contrações uterinas, mas em condições anormais, sejam elas devido à posição em que a criança vem vindo, ou então a algum distúrbio sofrido pela mulher, esse processo pode não ser concluído espontaneamente, e nesse caso deve ser favorecido por manobras manuais ou com instrumentais cirúrgicos, dos quais existem vários aparelhos destinados a cada uma das urgências médicas. Um deles é o fórceps, semelhante a uma colher e utilizado em parto via vaginal (parto normal), quando é colocado no canal genital da mulher e ajustado aos lados da cabeça do bebê para ajudar o obstetra a retirá-lo em casos de emergência ou sofrimento fetal. Normalmente o especialista se vale dele quando o parto já está no final, poupando assim maiores desgastes não só à mãe, como também ao bebê.
Existem indícios de que a invenção desse instrumento se deva a Pierre Franc (1500-1580) um cirurgião francês que exerceu sua profissão em Lausanne, mas ocupou-se também de estudos anatômicos. Ao que parece, por volta de 1576 ele usou um aparelho semelhante ao fórceps para a extração de crianças do útero. Operador afamado, Franc foi o primeiro cirurgião a praticar a extração de cálculos da bexiga e a operação da hérnia estrangulada, tendo deixado aos seus sucessores dois livros muito importantes para a época: o Pequeno Tratado de Cirurgia, de 1561, e o Grande Tratado de Cirurgia, de 1571.
Mas a fama decorrente da descoberta do fórceps ficou mesmo foi com o doutor Pierre Chamberlain (1560-1631). Sobre esse francês, sabe-se que em 1569, ao se transferir para a Inglaterra, ele se tornou um importante médico-parteiro naquele país, ganhando a confiança, inclusive, de muitas mulheres da alta realeza britânica. A história registra a informação de que por volta de 1630 ele passou a ser conhecido como o inventor do fórceps, instrumento que segundo avaliação da época permitia puxar pela cabeça o bebê em vias de nascer, o que facilitava sobremaneira o trabalho de médicos atendendo situações de parto complicadas.
Apesar de convidado pelos membros da classe medica inglesa a divulgar os pormenores do invento, Pierre, que pertencia a uma família de cirurgiões, não os atendeu, preferindo reservar os lucros da descoberta para si e seus descendentes, ao mesmo tempo em que se vangloriava dos privilégios dessa tecnologia. Durante muito tempo sua família manteve em segredo os conhecimentos relativos ao manuseio do instrumento, até que setenta anos após a fabricação do primeiro modelo um sobrinho de Pierre, o também médico Hugh Chamberlain, na época enfrentando sérias dificuldades financeiras, dispôs-se a vendê-lo, e para tanto o ofereceu a François Mauriceau (1637-1709), o obstetra francês que se tornou conhecido, entre outras coisas, por ter introduzido em seu país o sistema de parto horizontal (em que a mulher fica deitada) demonstrando que essa posição facilitava as intervenções médicas, como o próprio uso do fórceps, por exemplo.
Mas a negociação entre os dois colegas foi interrompida porque Hugh não conseguiu concluir com êxito a demonstração que fora instado a fazer. Apesar do fracasso o sobrinho de Pierre Chamberlain persistiu na busca de um interessado pelo instrumento, e assim, pouco tempo depois ele se dirigiu primeiramente à Escócia, onde não chegou a nenhum resultado prático, e em seguida à Holanda, onde finalmente convenceu um obstetra holandês a adquiri-lo, o que deu origem a uma série de dúvidas e interrogações sobre como teria sido realmente efetivado o negócio: teria o comprador - Roger van Roonhuysen era o seu nome - recebido o aparelho completo, ou somente metade dele, sendo por isso obrigado a usar uma das mãos nas ocasiões em que seu emprego se tornava necessário?
Mais adiante, em 1723, Johann Palfyn, anatomista e médico belga considerado o criador da Anatomia Cirúrgica, apresentou à Academia das Ciências de Paris um novo modelo de fórceps, ao qual deu o nome de mãos de ferro. Aperfeiçoamentos posteriores resultaram no surgimento de diversos instrumentos similares, que por sua vez conduziram à massificação de seu uso, o que às vezes era feito em desacordo com as indicações e cuidados recomendados. Essa é a razão pela qual se acredita que muitos óbitos ocorreram em decorrência dessas falhas humanas.
Embora tais fatos tenham atribuindo certa má fama às mãos de ferro, é fora de dúvida que a importância do fórceps como instrumento obstétrico é algo inquestionável, desde, é claro, que sejam respeitadas as suas indicações de uso. Afinal de contas, trata-se de uma tecnologia com quase 500 anos de existência, mas ainda benéfica nos dias atuais.





