Período imperial - 1874 - REVOLTA DOS MUCKERS, A

Em 1874, a cidade de Sapiranga, então pertencendo ao município de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, foi palco de um conflito registrado pela história como A Revolta dos Muckers, um triste episódio de fanatismo religioso que redundou na morte de um grande número de pessoas. Tudo começou quando imigrantes alemães vindos de terras arrasadas por Napoleão Bonaparte, e instalados na colônia agrícola de Padre Eterno, mostraram-se insatisfeitos com a precariedade da assistência médica e educacional que recebiam das autoridades governamentais. Esses colonos eram liderados por João Maurer, um curandeiro a quem todos eles recorriam para cuidar dos seus problemas de saúde, ao mesmo tempo em que sua esposa, Jacobina Mentz Maurer (ilustração), valendo-se da ausência de padres ou pastores na região, organizava e dirigia as sessões religiosas das quais os seus vizinhos participavam, lendo e interpretando para eles os textos bíblicos.

           

Desde pequena Jacobina demonstrava sua inclinação messiânica, chegando, mais tarde, a apresentar-se não só como a própria encarnação de Cristo (qualificando-se como o Cristo feminino), mas também prometendo aos seus seguidores o estabelecimento da cidade de Deus. Com isso ela passou a desfrutar de grande credibilidade entre os que a ouviam, sentimento que se tornava mais forte na medida em que se espalhava a versão de que os ataques epiléticos que a senhora Maurer sofria ocorriam durante os encontros que mantinha com Deus. Foi dessa forma - cuidando do corpo e do espírito - que o casal conseguiu exercer forte e firme liderança sobre os muckers (falso santo, em português), enquanto estes, obedecendo a princípios morais rígidos e restritos, avançaram cada vez mais pelo perigoso terreno do fanatismo, não tardando a entrar em choque com os demais moradores da localidade. Essa situação se agravou quando eles retiraram suas crianças das escolas comunitárias que frequentavam, o que provocou junto aos outros pais atritos tão sérios que estes acabaram provocando a prisão dos membros mais importantes do grupo, libertados logo em seguida mediante a intervenção do próprio presidente da província.

 

Na seqüência desses acontecimentos, os seguidores de Jacobina, que já eram cerca de duzentos, começaram a atacar os que se opunham ao seu movimento religioso: a primeira vítima foi Martinho Kassel, dissidente cuja esposa e filhos morreram quando sua casa foi incendiada; depois, consumou-se o assassinato dos filhos do comerciante Carlos Brenner; e em seguida, a execução de um tio de João Maurer, que criticava e hostilizava abertamente a nova seita. Com o agravamento do conflito, o presidente da província gaúcha, Dr. João Pedro Carvalho de Moraes, determinou que o exército colocasse ponto final naquela desordem, razão pela qual o coronel Genuíno Olímpio de Sampaio, herói da Guerra do Paraguai, se dirigiu ao local comandando um contingente de 500 homens.

 

No cair da noite do dia 23 de junho de 1874, o militar ordenou a invasão da casa dos Maurer, mas os muckers, convictos de que quem acreditasse em Jacobina seria imune à morte, resistiram ferozmente, provocando 39 baixas às forças legais, e sofrendo apenas 6. Diante de tal reação o coronel Genuíno ordenou a retirada de suas forças, indo acampar a cerca de 10 quilômetros de distância, no local hoje conhecido como Campo Bom. Dias depois, em 19 de julho, após ter recebido reforços militares e a adesão de 150 colonos alemães voluntários, o comandante da tropa ordenou nova investida contra o reduto dos fanáticos. O assalto foi feito, e dessa vez com sucesso. Cerca de 12 homens e 8 mulheres muckers morreram durante o confronto, 6 homens e 36 mulheres foram presos após a invasão da casa, mas um bom número deles conseguiu escapar, inclusive Jacobina Maurer. Achando que a vitória estava assegurada o coronel Genuíno retornou ao acampamento legalista, mas no alvorecer do dia seguinte, 20 de julho, este foi alvo de tiros disparados do mato próximo. Durante o cerrado tiroteio que se seguiu, o coronel, atingido na coxa por uma bala, teve uma artéria seccionada, vindo a falecer em virtude da hemorragia provocada pelo ferimento; o triste desfecho não pôde ser evitado porque o socorro médico havia se deslocado para São Leopoldo, com os feridos.

           

Os muckers sobreviventes, inclusive a senhora Jacobina, esconderam-se no morro Ferrabrás, mas foram denunciados por Carlos Luppa, que havia se desligado do grupo após perder sua família. Assim orientados, os soldados do governo, comandados pelo capitão Francisco Clementino Santiago Dantas, atacaram esse último reduto dos fanáticos e mataram a maioria deles, inclusive sua líder espiritual. Dos sobreviventes, alguns acabaram presos, mas os que escaparam mudaram-se para a Terra dos Bastos, em Lageado, onde, no Natal de 1898, foram atacados e linchados por colonos locais que acreditavam terem sido eles os assassinos de uma certa senhora Shoreder, na verdade eliminada por seu próprio marido, que queria casar-se com outra.

 

Sobre esse episódio, diversas obras foram escritas. O resumo de uma delas - Videiras de Cristal, de Luis Antônio de Assis Brasil - diz em parte que “a obra trata da imigração alemã no RS. O autor parte de um acontecimento político - o episódio dos Muckers. A personagem principal é a própria Jacobina, que comandou a insurreição contra a ordem constituída, em nome dos princípios religiosos”. Outros livros sobre o assunto são “Os Muckers”, de Ambrósio Schupp; “O Episódio de Ferrabraz”, de Leopoldo Petry; e “A Nova Face dos Muckers”, de Moacyr Domingues, além dos filmes “Os Mucker”, de Bodansky e Gauer (na ilustração acima, cartaz do filme), e “A Paixão de Jacobina”, de Lucy e Fábio Barreto.

 

 

 

 

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