Olegário Alfredo (Mestre Gaio) - VIDA DE ALEIJADINHO, A

À Senhora do Rosário / Padroeira do Congado / Ilumine minha mente / Me deixe capacitado / A contar a história / De um homem iluminado / Grande gênio da escultura / Em Minas ele nasceu / O apelido Aleijadinho / Dos humanos recebeu / Sua vida transcorrida / Ao leitor, já escrevo eu.

 

Mil setecentos e trinta, / Ocorre o ano do arrebento. / De nome Antônio Francisco / Batizaram no momento / A vinte e nove de agosto / Selaram o nascimento / Gerado por uma escrava / Com um mestre português / Na mistura destes sangues / Forte assim que Deus o fez / Mas o destino da vida / Bem quis, mas não o desfez.

 

A cidade de Ouro Preto / Vila Rica se chamava / Aleijadinho ainda boy / O cinzel já manejava / Esculpindo qualquer peça / O povo todo admirava / Quando jovem era alegre / Mulherengo e extrovertido / Nas festanças da cidade / Era sempre bem querido / Muitos da sociedade / De inveja não dava sentido.

 

Talvez, quem sabe, seja isto / A causa de sua doença. / Homem bom e inteligente, / Dotado de muita crença / Por ser preto, os invejosos / Não lhe tinham bem querença / Caso não fosse seu pai / Ser português de dinheiro / Aleijadinho na certa / Seria bom escravo obreiro / Foi seu pai que o alforriou / Do sofrimento negreiro.

 

Aleijadinho era contra / O sistema escravocrata / Falava mal dos senhores / Adorava uma mulata / Quando entrava na bebida / Era duro na bravata / Muito trabalho entalhava / Garantindo o dia a dia / Seu pagamento era em ouro / Numa boa então vivia / Se dinheiro lhe sobrasse / Com os pobres dividia.

 

Uma lei logo criaram / Dom João V foi o autor / Se pegar negro usando ouro / No degredo irá depor / Dentro da lei Aleijadinho / Ouro no braço não usou / Na Igreja de São Francisco / Trabalhando ele estava / Uma dor sentiu na mão / O cinzel pro chão voava / A moléstia deu sinal / Sua vida logo mudava.

 

Uma doença maldita / Em seu corpo veio morar / Vivaldina a curandeira / Fez de tudo pra sarar / A morféia persistindo / No seu corpo a molestar / De nascença já era feio / Com a doença piorou / Tanta dor ele sentia / Que o desespero chegou / Foi lá num dado momento / O seu dedo decepou.

 

Aleijadinho na luta / Em suas genialidades / Entalhava as portadas / Nas igrejas das cidades / Ouro Preto e Sabará / E em outras localidades / Os brancos zombavam dele / Da feiúra que levava / A vingança vinha logo / Da maneira que encontrava / Deformando uma escultura / Que no cinzel entalhava.

 

Um caso triste e engraçado / Vou narrar neste momento / Como forma de vingança / Presa no pensamento / A escultura de São Jorge / Com cara de sofrimento / Bernardo José Lorena / Governador afamado / Da Comarca das Gerais / Estava entusiasmado / Em chamar Aleijadinho / A lhe fazer um tratado.

 

Sem humor e sem vontade / Ele foi ao Governador / O Assistente do Governo / Quis atender o escultor / Pra zombar de sua feiúra / Por desrespeito e rancor / Aleijadinho foi entrando / O Assistentes exclamou: / - Nunca vi coisa tão feia / Foi o tinhoso que entrou! / Aleijadinho calado / Em vingar, logo pensou.

 

Uma imagem de São Jorge / Que queria o Governador / Desfilar em procissão / Pela cidade em andor / - Agora é a minha vez / Vingo do Governador / O Assistente do Governo / Zé Romão que se chamava / A figura de São Jorge /  Aleijadinho pensava / Com cara de Zé Romão / O santeiro já entalhava.

 

Na festa de Corpus Christi / O São Jorge desfilava / O povo na zombaria / Pela ladeira exclamava: / - O São Jorge é Zé Romão / A cidade delirava / Nos Profetas de Congonhas / Se olharmos com atenção / A marca de sua história / Foi deixada em cada mão / Os dedos sem simetria / De propósito lá estão.

 

Por ser um homem barroco / Ao Senhor ele temia / As escultura do Cristo / Sem defeito ele fazia / Tinha medo do pecado / Rezava na sacristia / Com o dinheiro da labuta / Três escravos possuía / Ajudando a trabalhar / Nas artes que construía / O Maurício e Januário / No trabalho lhe assistia.

 

Em suas mãos as ferramentas / O Justino quem amarrava / Era assim desta maneira / Que Antônia Lisboa entalhava / Em várias cidades ao mês / Aleijadinho lá estava / O Templo de Chico Rei / Aleijadinho enfeitou / Tiradentes seu amigo / Muito ao mestre elogiou / A morte de Tiradentes / Em baixo astral o deixou.

 

Turistas que não conhecem / A arquitetura mineira / Perdem o trem da história / Desta vida corriqueira / Pois as obras de Aleijadinho / São belezas de primeira / São João del Rei e Congonhas / Ouro Preto e Sabará / Tiradentes e Mariana / Sobre o púlpito do altar / A arte de Aleijadinho / Impregnada lá está.

 

Todos os nossos pecados / Lavrados em pedra sabão, / E a ânsia de alcançar o céu / E pecar aqui no chão, / Fizeram do aleijadinho / Homem barroco e turrão. / Tanto enxovalho sofreu, / Tantos anjos esculpiu / Era um bom Aleijadinho / Que para o céu já subiu / Não tinha dedo nem mão / Tinha um coração gentil.

 

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Comentários:

  1.   Olegário  ([email protected]) diz:

    Bom dia Fernando Kitzinger Dannemann\r\nVi o Blog, sou autor do cordel do Aleijadinho, grato pela postagem.ãbços Olegário Alfredo