Invenções - GARFO
O garfo é um utensílio culinário que a civilização ocidental moderna utiliza em suas refeições para levar alimentos rígidos à boca. Normalmente produzido em metal, ele é composto por uma parte mais larga dividida em dentes - geralmente quatro - e uma pega. Os registros históricos revelam que os homens vêm usando esse pequeno artefato há bem mais tempo do que se possa imaginar, pois cerca de 600 antes de Cristo nossos antepassados já conheciam um pequeno instrumento com dois dentes de pontas afiadas, com o qual muitos deles se serviam da comida que os alimentava.
O costume generalizado, porém, era o de se usar as próprias mãos na hora das refeições, ou então cada um se servir dos alimentos usando as facas pontudas e afiadas que carregavam consigo, tanto que no século 9 o garfo era uma peça considerada profana pelos padres venezianos, que justificavam tal condenação com a advertência de que se Deus havia dado os dedos das mãos aos homens, estes deveriam usá-los em todos os momentos possíveis, principalmente na hora de comer. Essa situação perdurou durante tempo relativamente prolongado, mas acredita-se que a partir do século 11, quando famílias italianas principiaram a usar garfos para comer as frutas que poderiam lhes manchar os dedos, e com eles, as roupas, o antigo hábito começou a dar sinais de que finalmente poderia ser mudado. Foi somente no final da década de 1450 que os garfos, na hora das refeições, passaram a substituir as facas de forma lenta e gradual, porque o refinamento dos hábitos e maneiras que o Renascimento introduziu na Europa da Idade Média produziu uma acentuada alteração no comportamento das famílias nobres ou abastadas.
Nesse período, certamente muitos questionaram sobre a diferença entre espetar a carne com a ponta da faca, ou com o garfo de dois dentes. Realmente não havia nenhuma, tanto que os garfos de dois dentes ainda hoje são utilizados coletivamente para espetar e levar da travessa para o prato os pedaços de carne de que cada um se serve. Mas acontece que na França do rei Henrique III (1551-1589), o filho de Catarina de Médicis que escandalizava tanto católicos como protestantes do seu país com a vida desregrada que levava, os garfos, que antes eram usados coletivamente pelos homens e mulheres que se sentavam a uma mesma mesa, passaram a ser de uso individual, o que contribuiu para que um número cada vez maior de pessoas se animasse a usá-los. Isso acabou por levar o utensílio às mãos do povo, e por volta de 1500 ele finalmente passou a ser utilizado na maioria das mesas européias. Em outras palavras, a moda pegou.
Entre os séculos 15 e 18, os utensílios de cozinha foram sendo progressivamente melhorados, surgindo daí o interesse na criação de peças e vasilhas domésticas que permitissem a melhor preparação dos alimentos. Esse período é pródigo em informações curiosas, como a que atribui a Leonardo da Vinci (1452-1519), famoso pintor e escultor italiano, a invenção do garfo de três dentes, segundo alguns, para facilitar o ato de comer macarrão, prato tradicional da culinária italiana, e segundo outros, para aumentar a higiene durante as refeições, porque naqueles tempos a peste ameaçava a todos. Mas foi somente no início do século 19 que os garfos de três dentes aposentaram os de dois dentes e se tornaram de uso corrente, ficando assim até 1880, quando então surgiram os de quatro dentes que usamos até hoje.
Curiosidade: um garfo com um cronômetro para medir o intervalo ideal entre cada mastigada é uma das invenções de um adolescente romeno premiado no recente Salão Internacional de Invenções, Técnicas e Produtos Novos de Genebra (Suíça). Constantin Ovidiu Cocieru, aluno do Colégio Nacional Estevão, o Grande em Suceava (nordeste da Romênia), obteve a medalha de bronze por conceber um dispositivo que assinala o tempo exato de mastigação para assegurar uma boa digestão. O garfo indica mediante um sinal luminoso quando pode ser dada a próxima garfada sem castigar o estômago.
No Oriente os garfos são substituídos pelos pauzinhos aos quais seus inventores, os chineses, dão o nome de kuai-tzu, ou pauzinhos para comer, criados para evitar que as pessoas fizessem algum esforço à mesa, o que era considerado grande falta de respeito. Mas no Japão eles têm o nome de hashi, os pauzinhos japoneses, dos quais existem diferentes tipos usados para comer, cozinhar ou somente para apanhar comida. O principal material usado na sua fabricação é a madeira, mas também são encontrados os de marfim, ossos, dentes de elefante, bambu ou metal, podendo ser ainda pintados ou decorados com os mais diversos motivos, mas quase sempre laqueados. Hashis de plástico também são usados em situações mais formais e em casa, pois são escorregadios e um pouco mais difíceis de manipular.
Segundo a etiqueta japonesa, o uso adequado do hashi deve obedecer a determinadas regras. Por exemplo: a maneira correta de pegá-lo é sempre do meio para cima, nunca na parte inferior, pois dificulta o movimento; chupar a sua ponta também é falta de educação; evite apontá-lo para as pessoas ou gesticular com ele na mão; não os cruze, pois eles devem ser mantidos sempre paralelos; apóie-o sempre no suporte próprio, e de preferência paralelo ao corpo, pois será mais fácil de pegá-lo depois; o ideal é que fique o mais escondido possível e que não aponte para as outras pessoas. No caso de não haver apoiador, faça um dobrando a sua própria embalagem.





