Língua Portuguesa - GÍRIA
Toda língua é essencialmente dinâmica, isto é, não constitui um sistema cristalizado e definitivo, mas ao contrário, está sempre se modificando, vivendo um processo contínuo de combinação, composição e aperfeiçoamento. É verdade que existe convergência lingüística para a forma considerada superior (a chamada “língua de cultura”), estabelecida principalmente pelas escolas, o que não impede a divergência expressa principalmente pelos falares regionais, pelos dialetos e pela gíria.
Em seu sentido mais estrito, a palavra gíria designa a linguagem oculta, ou seja, um código lingüístico secreto de certos grupos sociais relativamente fechados (fala-se, por exemplo, em gíria de artistas, de soldados, de estudantes, de ladrões, etc.). Essa linguagem funciona, então, como elementos de coesão do grupo, e na medida do possível mantém-se restrita a ele, guardando sempre algum cunho de segredo, de mistério. Não é, portanto, o caso das chamadas línguas especiais de grupos profissionais (médicos, economistas, advogados, etc.), que simplesmente se caracterizam por um vocabulário eminentemente técnico.
No entanto, a gíria pode ser apenas o resultado de um prazer verbal que diverte e intriga tanto o locutor quanto o ouvinte, e que acaba por se incorporar à língua comum graças, sobretudo, aos meios de comunicação, que a difundem e valorizam, tirando conseqüentemente aquilo que ela poderia ter de misterioso. Esse processo de absorção também pode ocorrer com a linguagem própria de alguns grupos sociais, que no início é novidade, mas depois de difundida e valorizada, incorpora-se ao patrimônio lingüístico e perde o sabor de mistério. Nessa fase, é muito difícil traçar os limites entre a gíria e a língua popular.
Do ponto de vista da lingüística, a gíria é um instrumento secundário de comunicação caracterizado pela riqueza, pela espontaneidade, pela força de expressão, atestando as freqüentes mutações sociais, as conquistas tecnológicas e a modificação dos modos de viver da comunidade. Mas ela necessita de renovação constante, porque o uso a desgasta; passa rapidamente ao domínio público e então é incorporada à língua coloquial, à do dia-a-dia. Seu caráter de coisa encoberta, mascarada, conhecida de poucos, exige, em conseqüência, contínuas modificações. Essa fluidez faz com que certos termos fiquem velhos em pouco tempo (quem chamaria de peixão, hoje, a uma mulher muito atraente, ou de balzaqueana a uma outra além dos quarenta anos de idade?), mas não elimina o ressurgimento de muitos deles (bacana parece ainda estar na onda), dependendo do meio em que são utilizados. Costuma-se até medir as gerações pelas gírias que empregam, já que os jovens são mais permeáveis às constantes inovações.
Os tempos dão às palavras significados que mudam. Por exemplo: ficar. Qualquer dicionário de língua portuguesa traz o significado da palavra, que todo mundo sabe qual é. Nos últimos tempos, porém, os jovens deram a essa palavra um novo sentido. Vejamos o que ocorre com ficar na letra da canção A cruz e a espada, gravada por Paulo Ricardo:
... E agora eu ando correndo tanto / procurando aquele novo lugar / e aquela festa, o que me resta / encontrar alguém legal pra ficar / e agora eu vejo, aquele beijo / era mesmo o fim / era o começo e o meu desejo / se perdeu de mim.
O que seria alguém legal pra ficar? A expressão "ficar", com a acepção que tem na canção, quer dizer algo como "ter um leve envolvimento com alguém, sem compromisso". Um rapaz vai a uma festa, conhece uma garota e fica o tempo todo com ela, o que pode incluir beijos e abraços. Será que esse significado permanece por muito tempo?
É impraticável definir traços constantes de gíria, circunscrevê-la ou mesmo atestar sua autenticidade fora do meio restrito em que é usada. Como suas zonas limítrofes são flutuantes, não se pode separá-la nitidamente da linguagem popular, já que a integração entre uma e outra é freqüente, garantindo um processo de constante renovação. Por outro lado, a utilização dos termos de gíria varia de uma categoria social para outra, mas só no aspecto quantitativo – na verdade, qualquer grupo social está disposto a empregá-los em determinadas situações. Agindo em sentido contrário encontra-se a escola, que preocupada quase exclusivamente com a linguagem de cultura escrita, procura cercear o emprego de formas divergentes. Estas, porém (especialmente, a gíria), coexistem sempre com a língua padrão, enriquecendo-a e dinamizando-a.
Seja de que tipo for, atualmente a gíria vem sendo cada vez mais usada pelos meios publicitários e jornalísticos, na música e em outras manifestações artísticas. Sua difusão é velocíssima e muito ampla, o que leva à multiplicação do gosto popular pelo emprego dos neologismos que ela introduz. Com isso, vai sendo incorporada com extrema rapidez à língua comum, falada e escrita, sendo que nesta última é utilizada principalmente para imprimir autenticidade à fala de certos personagens, para manter clima de realismo e humor à volta delas.





