Língua Portuguesa - OXÍMOROS
Em sentido restrito, a retórica é a arte do orador, a capacidade que ele tem de dizer as coisas com eloquência e convencimento. Embora quase sempre o discurso de gente desse tipo seja brilhante na forma, mas vazio de idéias, é graças a ele que determinados cavalheiros conseguem persuadir e influenciar pessoas em todos os segmentos culturais ou áreas de atividade humana. Contado assim parece mentira, mas é verdade, tanto que na história antiga e moderna são encontrados muitos e muitos exemplos de homens que se valeram do chamado dom da palavra para liderar multidões de insensatos, fazendo-os seguí-lo até o ponto sem volta (na ilustração, o poeta português Luís de Camões).
Frutos da retórica são as figuras de linguagem, recursos que procuram dar maior expressividade às mensagens, entre os quais encontramos a onomatopéia, o eufemismo, a prosopopéia, a perífrase e outros mais. Entre eles os oxímoros, que são combinações de palavras contraditórias, ou incongruentes, porque uma implica na negação da outra. É o caso, por exemplo, de ilustre desconhecido, pois se ilustre identifica alguém que se distingue por suas qualidades dignas de louvor, claro está que ele não poderá ser desconhecido. Ou então um bem brasileiro, a famosa Comissão de Ética do Senado, citado por quantos tratem desse tema, onde a ética, propriamente dita, que reúne a série de princípios morais pelos quais o indivíduo deve guiar sua conduta no ofício ou profissão que exerce, não combina de forma alguma com o que se ouve dizer a respeito do que está sendo praticado rotineiramente por grande número dos que têm assento naquela casa. O que nos leva a perguntar, sem segundas intenções: aquilo lá é casa de quê?
A palavra oximoro vem do grego: oxus, que quer dizer agudo, penetrante, e outros adjetivos com sentido semelhante; e moros, indicativo de tolo, idiota, pateta, e mais alguns insultos nesse mesmo calão presumidamente civilizado. E denomina a figura de linguagem que reúne dois conceitos opostos numa só expressão, formando assim um terceiro conceito paradoxal cuja interpretação dependerá de quem o ouve, ou lê. Como acontece, por exemplo, em boato fidedigno, silêncio eloqüente, crescimento negativo, é proibido proibir, lúcida loucura, conseguir o impossível, foi sem querer, querendo, reparar o irreparável, grito do silêncio, obscura claridade, gentileza cruel, espontaneidade calculada, e tantos outros mais. Ou, ainda, como dizia Benedito Valadares, interventor em Minas Gerais na época da ditadura Vargas: “eu não sou contra nem a favor, muito pelo contrário”.
Um oxímero se confunde muitas vezes com a contradição (que é a incoerência entre duas afirmações, ou entre as palavras e os fatos), princípio que é explicado por Aristóteles (384-322 a.C.), um dos maiores filósofos gregos, da seguinte forma: “o mesmo atributo não pode, ao mesmo tempo, convir e não convir ao mesmo sujeito, considerado no mesmo ponto de vista e sob as mesmas relações”. Aproveitando o exemplo do penúltimo parágrafo, se dissermos que “todos os senadores são desonestos”, e logo depois afirmarmos que “o senador tal é um homem correto”, estaremos nos contradizendo porque uma das proposições apresentadas exclui a outra.
Os oxímeros estão presentes na literatura de todos os países. Deles, o professor Cláudio Moreno nos dá dois exemplos em resposta a uma de suas consulentes, o primeiro de autoria do poeta português Fernando Pessoa (1888-1935), que nos ensina que “o mito é o nada que é tudo”, e o outro do escritor brasileiro Euclides da Cunha (1866-1909), ao comparar o sertanejo nordestino brasileiro a um “Hércules-Quasimodo” (Hércules, na mitologia grega, era um semi-deus de força descomunal, enquanto Quasimodo é uma criatura disforme, personagem do romance Notre-Dame, de Victor Hugo, editado em 1831).
Porém, o mais conhecido de todos os exemplos, porque mencionado por quantos se refiram aos oxímeros, está em um soneto do poeta português Luis de Camões (1524-1580), cujos versos dizem:
Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Do mesmo autor ainda podem ser citados:
"(...)e queima o fogo aquela neve
Que queima corações e pensamentos."
(Camões, Lírica, "O fogo que na branda cera ardia")
e
"ela ouviu as palavras condenadas
Que puderam tornar o fogo frio"
(Camões, Lírica, "Aquela triste e leda madrugada")





