Dança - XAXADO
O cangaço foi um fenômeno que ocorreu no nordeste brasileiro de meados do século 19 ao início do século 20, originado por questões sociais e caracterizado por ações violentas de grupos que, sem residência fixa, perambulavam pelo sertão. E como seus integrantes conheciam bem o território transformado por eles em esconderijo, principalmente onde encontrar as fontes de água, os locais com alimento, rotas de fuga e lugares de difícil acesso, dificilmente eram apanhados pelas autoridades.
O mais famoso de todos eles foi Virgulino Ferreira da Silva, conhecido como Lampião, que atuou durante as décadas de 1920 e 1930 em praticamente todos os estados nordestinos. Para as autoridades ele era o símbolo da brutalidade e do mal, embora encarnasse para uma parte da população do sertão, valores como a bravura, o heroísmo e o senso da honra. Essa situação só chegou ao fim quando o presidente Getúlio Vargas decidiu extinguir os focos de desordem no território nacional, e em conseqüência, no dia 28 de Julho de 1938, na localidade de Angicos, em Sergipe, o rei do cangaço foi finalmente apanhado e morto em uma emboscada das autoridades, juntamente com sua mulher, Maria Bonita, e mais nove cangaceiros. Com a repercussão do acontecido, os componentes de outros bandos existentes no nordeste brasileiro entregaram-se às autoridades policiais para não serem mortos.
Como herança dessa época romanesca de mocinho e bandido, chegou até nós o xaxado, uma dança popular originada nas regiões do agreste e sertão do estado de Pernambuco. Criada em Vila Bela, atual Serra Talhada, no início da década de 1920, pelos homens que integravam o bando de Lampião, ela se tornou popular entre os cangaceiros que percorriam os sertões nordestinos.
No início a dança era exclusivamente masculina porque na época as mulheres ainda não engrossavam os grupos de homens dedicados à prática rotineira de assaltos, seqüestros e assassinatos, seguidos de fuga das forças policiais que os perseguiam. Por essa razão, quando em momentos de descanso e relaxamento os cangaceiros dançavam para comemorar suas conquistas ou sucesso nos confrontos armados, faziam da carabina a sua dama, o seu par nas brincadeiras dançantes. Dispostos em fila indiana, o que ia à frente entoava os versos que ora dirigiam insultos aos inimigos, ora enalteciam as aventuras e façanhas guerreiras por eles realizadas, ou então lamentavam a morte de companheiros, enquanto os demais respondiam em coro. Considerada uma dança de guerra, sua coreografia original era bem simples: os dançarinos avançavam o pé direito em três ou quatro movimentos laterais, para em seguida puxar o pé esquerdo, completando uma animação assemelhada a um rápido e deslizado sapateado.
Apesar de alguns folcloristas sustentarem que o nome da dança é decorrente do som que as sandálias dos dançarinos produziam (xá, xá, xá) quando arrastadas no chão acompanhando a cadência da melodia, outros alegam que tal versão somente seria aceitável caso os cangaceiros tivessem tido como palco de suas brincadeiras um áspero piso de cimento, o que, na verdade, não aconteceu porque o chão em que eles pisavam era o da terra batida dos terreiros das casas ou de algum descampado perdido no meio da caatinga, e nesses lugares o som produzido é fofo e arrastado.
Existe controvérsia também quanto à origem desse tipo de dança, pois se de um lado se afirma que ela nasceu no sertão de Pernambuco, de outro se diz que foram os portugueses os seus introdutores em terras da então colônia; ou que os colonizadores recém-chegados a aprenderam com os indígenas; e até mesmo que ela nada mais é que uma variação do baião, definido como dança popular nordestina de estilo rápido, e vivaz, sapateada e acompanhada por um conjunto musical composto de zabumba, dois pífaros e uma caixa (sertões do Ceará, Paraíba e Pernambuco). Em Alagoas e Sergipe é denominado terno de zabumba, terno de música ou esquenta-mulher.
Segundo divulgação feita pelo Grupo de Xaxado Cabras de Lampião, de Serra Talhada, registrado como Fundação Cultural e que se apresentou publicamente pela primeira vez em 20 de março de 1995, “mesmo com a entrada da mulher no cangaço o xaxado manteve seu lugar de honra no mundo do chapéu de couro e aço, de fogo e ferro, da mesma forma como vinha acontecendo desde os primeiros momentos”. Informação que é complementada com a afirmativa de que “Evidentemente já bastante modificado, com mais manejo de corpo, sempre com a pancada no coice da arma com os anéis, tocando ritmicamente na argola da bandoleira do fuzil ou batendo palma”.
Os dirigentes do Grupo esclarecem que a autenticidade das roupas e dos adereços sempre mereceu atenção especial, e que a sincronização dos passos (mais de vinte variantes) com as músicas “é também um espetáculo de beleza que, somando-se a tudo, transporta os que o assistem ao mundo místico do cangaço e ao universo mágico do sertão”.
O Encontro Nordestino do Xaxado, evento realizado anualmente, desde 2002, em Serra Talhada, Pernambuco, reúne grupos dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Pernambuco. Entre eles os seguintes:
Associação Pauloafonsina de Teatro e Danças - Paulo Afonso - BA.
Grupo Bando de Lampião - Touros - RN.
Grupo Cangaceiras de Lampião - Solidão - PE.
Grupo de Danças Folclóricas Tenente Lucena/SESC - João Pessoa - PB.
Grupo de Xaxado Bandoleiros de Solidão - Solidão - PE.
Grupo de Xaxado Cabras de Lampião - Serra Talhada - PE.
Grupo de Xaxado Cangaceiros de Vila Bella - Serra Talhada - PE.
Grupo de Xaxado Manoel Martins - Serra Talhada - PE.
Grupo de Xaxado Maria Bonita - Serra Talhada - PE.
Grupo de Xaxado Raízes do Cangaço - Serra Talhada - PE.
Grupo Filhos do Sertão - Patos - PB.
Grupo Maria Bonita - Umarí - CE.
Grupo Mulheres no Cangaço - João Pessoa - PB.
Grupo Parafolclórico Terra da Luz - Fortaleza - CE.
Grupo Raízes Nordestinas - Fortaleza - CE.
Grupo Rastro de Lampião - Olho D'Água do Casado - AL.
Lampião, O Rei do Cangaço - Propriá - SE.





