A a D - DAR COM A LÍNGUA NOS DENTES
A expressão dar com a língua nos dentes pode ser definida como “comentar um segredo”, “revelar confidências”, “falar demais”, “delatar”, “falar o que não devia”, “abrir o bico”, “entregar o ouro” e outras mais. E é usada para indicar o verdadeiro sentido da ação de quem, propositadamente ou não, passou adiante alguma informação de caráter sigiloso, confidencial ou particular. Exemplo: Eu disse que não podíamos confiar naquele sujeito! Ele deu com a língua nos dentes e contou a outras pessoas o nosso plano.
A escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977), nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, dizia que todos nós conhecemos alguém que fala além da conta. E revelou em um de seus textos que tinha uma vizinha assim: “Toda vez que ela nos visitava algo mágico ocorria: As palavras saíam de sua boca num fluxo constante e contínuo, por minutos e minutos”.
Acontece que se alguém fala demais, ou pelos cotovelos, tal como a vizinha da escritora, isso é uma coisa. Porém, caso ele (ou ela) tenha o hábito costumeiro de segredar o que não deve em ouvido de terceiros, e sempre sobre fatos e assuntos que não lhe dizem respeito, a situação é outra. Daí a pergunta: o que leva alguém a falar o que não deve? Que motivo o faz sentir essa necessidade de contar tudo que sabe, ou acredita saber, mesmo que isso signifique magoar a vítima de sua falação, de seu fuxico?
As explicações sobre esse tipo de comportamento vêm de diversas fontes, cada uma pretendendo explicar à sua maneira a existência desse impulso que leva muitos homens e mulheres a revelar fatos e falar mal de tudo e de todos com prazer insaciável. Dizem, por exemplo, que quando alguém age dessa forma está, na verdade, extravasando os seus próprios sentimentos. São os seus medos, suas angústias, seus anseios, sua inveja, suas frustrações que estão sendo aflorados naquele comentário. Que, por sinal, nunca termina ali, naquele momento, pois se amplia e chega a ganhar dimensões capazes de produzir conseqüências imprevisíveis.
Pelo que se sabe, a arte maldosa de dar com a língua nos dentes vem de tempos antigos. A Bíblia, por exemplo, nos conta sobre as viúvas moças habituadas a andar de casa em casa, não somente ociosas, mas também tagarelas e intrigantes, falando o que não devem (Timóteo 5:13). Ou então que os homens estão cheios de toda espécie de malícia, engano e perversidade, são difamadores e maldizentes (Romanos 1:29/30). Ou seja, nos tempos bíblicos a ânsia de dizer isso e aquilo sobre a vida dos outros já atormentava os linguarudos e mexeriqueiros daquelas paróquias.
Um exemplo do dar com a língua nos dentes é a delação premiada, um benefício legal concedido ao criminoso que aceite colaborar com as autoridades ou entregar seus companheiros, e que pode beneficiá-lo com diminuição da pena a lhe ser aplicada, ou até mesmo o perdão judicial.
Dar com a língua nos dentes e fofocar são ações que muitas vezes se confundem, embora sejam, na essência, diferentes uma da outra. Judas, por exemplo, não fofocava quando entregou Jesus aos romanos. Tampouco Joaquim Silvério dos Reis, aquele que fez com que Tiradentes fosse esquartejado, contribuindo dessa forma para abortar um dos processos de nossa independência. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, virou herói; Silvério dos Reis, um pesadelo histórico. Vê-se, por aí, que o delator, embora se torne famoso, não nos serve de exemplo porque estará sempre inserido numa lógica de declínio da liberdade, da justiça e da solidariedade, valores humanos que mais consagramos.
Sobre a fofoca, já foi dito que ela é quase uma arte, pois garante eleição, garante desquite, bota gente no hospital, provoca união, desmancha amizades, delata incompetências, demonstra fraqueza, põe fim a confiança, intriga confidentes e aquece ou esfria bolsa de valores e mercados de capitais. Ou seja: hoje, basta uma fofoca de um lado do mundo para que o outro entre em crise, nem que seja para acompanhar a onda. Por isso se diz que a fofoca, enquanto informação, não é de todo má, só passa a sê-lo quando é suja ou proposital.
Os escritores também se manifestam sobre esse tema tão controvertido. Herbet Lago Castelo Branco ([email protected]), natural de Chapadinha, Maranhão, ao falar sobre a origem da fofoca sustenta que ela “goza hoje de reputação indiscutível sendo, inclusive, incentivada em vários setores da sociedade moderna. Muitos a praticam com zelo e competência invejáveis. A sua origem remonta a épocas imemoriais, perdendo-se na noite misteriosa dos tempos”.





