R a U - UMA PRAGA DO PADRE CÍCERO
A cidade de Taperoá (na ilustração), que na língua tupi significa o “habitante das taperas ou ruínas”, está situada na microrregião do Cariri paraibano, denominação essa que identifica a caatinga de vegetação menos rude. Ela é a sede de um município com área de 640 km2 e população de 14.938 habitantes (8.941 na cidade, e 5.997 na zona rural, segundo o Censo/2010), distante 216 quilômetros de João Pessoa, capital estadual.
O Cariri Notícias, jornal online taperoaense que faz por onde merecer a atenção dos leitores que o visitam diariamente, tem entre seus colaboradores a jornalista Beth Diniz, autora de um texto intitulado Uma Praga do Padre Cícero, no qual ela relata uma das muitas passagens que tornaram lendária a figura do Padre Cícero Romão Batista, carinhosamente chamado de Padim Ciço pelos moradores de Juazeiro do Norte, no Ceará, e romeiros de incontáveis regiões que para lá acorriam em busca da cura dos seus males físicos e espirituais. Esse texto diz o seguinte:
Lá pelos idos anos de mil novecentos e doze, havia em Taperoá um grande comerciante, um dos homens mais ricos do Cariri paraibano. Certo dia, uma caravana que ia a Juazeiro do Norte, em romaria a pedir a bênção do Padim Ciço, parou em frente do comércio daquele rico homem para abastecer-se de mantimentos para a viagem. O grande comerciante, conhecendo um dos romeiros, disse a ele: “Seu Pedro, eu quero que faça um pedido ao padre Cícero por mim; diga a ele que me mande dois tostões de raparigas”.
Seu Pedro, nervoso, disse: “Vá lá e diga você mesmo a ele, porque não vou dar esse recado malcriado ao meu Padim não”. A viagem da caravana prosseguiu até seu intento, e enfim chegou ao que mais se esperava: havia uma fila imensa de fiéis para conversar com o padre, mas os taperoaenses não se incomodaram e entraram nela... Quando chegou a vez do Seu Pedro falar com o Padim Ciço, ele, todo feliz, pediu bênçãos e milagres, e foi atendido de bom grado. No fim da bênção, o Padre Cícero disse a ele: “Agora me fale do recado lá de Taperoá”.
Seu Pedro, gaguejando, disse que não daria um recado malcriado como aquele. Padre Cícero disse: “Então o senhor leve a ele o meu recado. Diga ao grande comerciante que dois tostões de raparigas é muito; mandarei dois vinténs, e uma das raparigas vai na frente, mas que ele não vai usar. E diga também que a fortuna dele vai se acabar”.
Uma semana depois daquele recado santo, grande infortúnio caiu sobre o povo taperoaense: a cidade foi invadida por mais de quatrocentos cangaceiros, liderados por um deles, chamado Santa Cruz. E os cangaceiros fizeram maldade com os ricos de Taperoá: todos os comerciantes, inclusive o do recado, tiveram suas riquezas assaltadas e jogadas ao meio da rua.
Santa Cruz disse ao povo: “Diga ao povo pobre do Bairro do Alto que venha pegar todas essas mercadorias, e que nenhum rico depois tente pegar de volta, porque, se eu sonhar que isso aconteceu, eu volto aqui e dou fim a toda a família dele.” Os ricos fazendeiros também tiveram seus bois saqueados, mortos e distribuídos ao povo pobre; e assim, por toda a região taperoaense, naquele dia, houve grande destruição e sofrimento.
O grande comerciante, o do recado ao padrinho, ficou na miséria, perdeu tudo que tinha; mais uma semana e o pobre coitado teve uma isquemia cerebral que o deixou paralítico...
O final da história? O comerciante, aleijado, terminou seus dias pedindo esmolas.





