A a D - COR DE BURRO QUANDO FOGE
Hoje em dia, a expressão cor de burro quando foge é usada para definir uma coloração que não se sabe precisamente qual seja. Mas a frase é um equívoco porque o burro, animal gerado no cruzamento de jumento com égua, não altera o tom pardacento característico de sua pelagem por maior que seja a sua raiva, o seu medo ou a sua vontade de fugir do que não lhe agrada.
A forma básica de camuflagem de um animal é a de fazer com que sua coloração combine com a do meio ambiente em que vive. Mas como esse meio ambiente pode mudar completamente no decorrer do ano, muitos animais desenvolveram adaptações especiais que lhes permitem alterar sua cor conforme a mudança ocorrida em seu habitat. Que pode estar cheio de verde e marrom durante o verão, ficando, porém, coberto de neve nos períodos de outono e inverno. Nesse caso, enquanto a coloração marrom é perfeita para o meio ambiente amadeirado dos dias de calor, ela pode transformar o animal em alvo fácil quando visto contra um fundo branco. Muitos pássaros e mamíferos lidam com isto produzindo diferentes cores de pêlo ou pena dependendo da época do ano. Na maioria desses casos, tanto a mudança da luz do dia ou a mudança na temperatura desencadeiam no animal uma reação hormonal que causa a produção de diferentes pigmentos biológicos (biocromos) que resultam na impressão de cores. Esses biocromos podem estar em células vivas na superfície da pele ou em níveis mais profundos (cromatóforos), determinando a mudança de coloração em diversos répteis, anfíbios e peixes.
Mas assim como acontece com os cabelos e unhas dos humanos, penas e pêlos são, na verdade, tecido morto. Estão presos ao animal, que nada pode fazer para alterar sua composição. Conseqüentemente, para que pássaros ou mamíferos possam mudar de cor, eles precisam produzir pelagem ou penas completamente novas. A raposa do Ártico é um dos animais que mudam a cor do pêlo: no caso desse pequeno mamífero, ele é escuro durante a primavera e verão, para combinar com a terra marrom do meio ambiente, tornando-se branco no outono e inverno, para confundi-lo com a neve que cobre o seu habitat nessa época do ano.
Várias são as espécies de animais que se transformam quando ameaçadas. O camaleão muda de cor. O polvo solta uma tinta escura que funciona como camuflagem. Mas não é esse o caso do burro. Portanto, a frase, muito usada em todo o Brasil para tratar de uma cor indefinida, não tem explicação no comportamento do bicho. A resposta mais provável para a origem do termo está em um registro feito no começo do século 20 pelo gramático Antônio de Castro Lopes (1827-1901), que documentou o uso popular da construção “corro de burro quando foge”. A repetição provocou uma frase que não faz o menor sentido, e que mesmo assim ficou consagrada.
Homem de inúmeras qualificações profissionais (polígrafo, médico homeopata, professor, gramático, tradutor, dramaturgo, poeta e político), o carioca Antonio de Castro Lopes (ilustração) aparecia como Doutor Castro Lopes em suas obras impressas no século 19. Ministro das Finanças em 1854, e das Relações Exteriores em 1859, ele manifestava abertamente seu inconformismo com o uso de palavras francesas aportuguesadas (galicismo) em nossa língua. E sugeria, por exemplo, que fossem usadas expressões como lucivelo ou lucivéu, runimol, calçada, focale, castelete, cogumelos, entrosagem, convescote, alvissareiro e ludâmbulo, do vocabulário nacional, ao invés de abajur, avalanche, boulevard, cachecol, chalé, champignons, engrenagem, piquenique, repórter e turista.
Dizia ele que sua intenção não era a "de desenterrar palavras mortas e sepultadas", mas sim “de limpar, de expurgar a linguagem vernácula de vozes bárbaras, de construções contrárias à índole daquela, e de criar com bons elementos termos que no idioma português faltem para traduzir os exóticos". E perguntava às mulheres: "Por que empregareis o termo francês peignoir quando esse traje não serve para o fim que o nome indica?", apelando em seguida "Despi, portanto, eu vos suplico, o peignoir francês, e vesti o vosso roupão".
Sobre a expressão “cor de burro quando foge”, a explicação mais aceitável para sua existência é a de que seja, realmente, decorrente do uso simplificado de “corro de burro quando foge”. As frases feitas, assim como acontece com os comportamentos, os gostos e hábitos das pessoas, não se perpetuam ao longo das gerações, podendo algumas, quando já quase esquecidas, serem reinventadas por alguém que delas tomou conhecimento como bem entendeu. Tal como provavelmente aconteceu com a que foi registrada por Castro Lopes para lembrar que o burro, de cor invariável, manso e conformado com o seu destino, pode transformar-se, como qualquer outra criatura, em animal enraivecido, assustado. E nessas horas ele desembesta em fuga desabalada, tornando-se perigoso para quem tenta se aproximar dele.
A expressão original mudou, talvez apenas para simplificar a fala. Nada mais que isso.





