Período republicano - 1889 - ENCILHAMENTO
Encilhamento foi o período compreendido entre 1890/1892, durante o qual, no Rio de Janeiro, houve movimento incomum e desenfreado da Bolsa, além de grandes movimentações de capital, fundando-se bancos e companhias e fazendo-se e desfazendo-se consideráveis fortunas no espaço de alguns dias.
Com o término do Segundo Reinado instituiu-se no Brasil o Governo Provisório (de 1889 a 1891) sob o comando do marechal Deodoro da Fonseca, que nomeou o primeiro ministério da história da República. Ao assumir a pasta da Fazenda, Rui Barbosa (ilustração) deparou-se com um crescimento comercial e industrial desordenado e fortemente inibido pela falta de crédito e de dinheiro em mãos dos consumidores, além do câmbio baixo que barateava os produtos estrangeiros em detrimento dos nacionais.
O aumento do número de consumidores no país (população, escravos libertos, imigrantes e moradores das áreas antes marginais) reduzira a disponibilidade de dinheiro per capita. As novas empresas, que aparentemente representavam um enorme progresso, estavam muito aquém das necessidades do país, não sendo suficientes, sequer, para absorver a mão-de-obra disponível. Além disso, a política imperial levara a uma dívida externa de quase 20 milhões de libras, superior, ao câmbio da época, a todo o meio circulante brasileiro. O único aspecto favorável era a tendência das empresas a se multiplicarem, a despeito das restrições econômico-financeiras, parecendo muito claro que se obtivessem crédito fácil e fossem protegidas por uma taxa de câmbio mais elevada, elas se desenvolveriam muito mais. Mas como o governo era provisório e não podia dar garantias para tão vultoso empreendimento, Rui Barbosa optou por colocar em circulação grande quantidade de papel-moeda, para que pudesse ampliar os mercados consumidores que cresciam aceleradamente em virtude da introdução do trabalho assalariado.
Mesmo encontrando resistência do próprio governo, o ministro da Fazenda conseguiu fazer aprovar o decreto de 17/01/1890, criando bancos emissores no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Rio Grande do Sul. Eles iriam emitir dinheiro tendo como lastro apenas títulos da dívida pública. Ao mesmo tempo, o governo, através de um sistema de garantias, se assegurava que o dinheiro fosse aplicado em financiamento de novas empresas e não em empréstimos aos agricultores. Simultaneamente, davam-se grandes facilidades às sociedades anônimas, concitando o público a investir seus capitais na indústria e no comércio.
Exatamente como se esperava e desejava, a perspectiva de emissões levou os bancos a ampliarem o crédito a centenas de novas sociedades. Em menos de três anos o meio circulante cresceu duas vezes e meia, enquanto o capital real das empresas quintuplicava. Com crédito, garantias oficiais e um ambiente psicológico favorável, a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro ganhou uma atividade frenética. As ações em alta rápida e constante faziam a fortuna dos investidores. Toda pessoa que possuía alguma economia via-se tentada a investir, o que fez com que a política econômica de Rui Barbosa ganhasse seu apelido: encilhamento, ou seja, a preparação dos “cavalos” – os incorporadores – que no “hipódromo” da Rua do Ouvidor disputavam a preferência dos “apostadores” – os acionistas – (na ilustração, populares se agitam em frente à Bolsa de Valores do Rio de Janeiro).
Mas, aparentemente, o amadurecimento político nacional fora superestimado. Num clima de favoritismo e compadrio, empresas irrealizáveis, ou mesmo fictícias, iam conseguindo os mesmos favores e garantias que mereciam as sociedades sérias, de planos bem elaborados e rentabilidade segura. No entanto, durante a maior parte do ano de 1890 a situação esteve sob controle, e a política de Rui mantinha suas possibilidades de êxito. Contudo, seus inimigos formavam a corrente mais poderosa da República. De um lado, os cafeicultores agastados com os cortes nos créditos que o Império lhes havia autorizado, e ainda mais pelas tentativas do ministro em tributar-lhes as terras. De outro, os setores vinculados ao comércio internacional, para os quais a baixa do câmbio era uma aflição, e que não tinham nenhum interesse na produção de artigos nacionais.
Assim que a especulação despontou, a oposição usou-a contra a figura do ministro da Fazenda. Apesar disso, representantes de estabelecimento comerciais, bancários e industriais pediram, em memorial datado de 05/11/1890, que Deodoro mantivesse Rui à testa do ministério, mas os interesses contrários falaram mais alto. Em janeiro de 1891, como epílogo de uma crise política, Rui foi compelido a abandonar o Ministério da Fazenda.
Aos poucos, o clima de confiança se dissipou, enquanto a inflação ia restringindo os lucros dos investidores cada vez mais incertos, e aumentando o custo de vida, sem criar a contrapartida dos empregos e produtos. Em fins de 1891, a tendência à baixa das ações já se generalizava e uma crise política (fechamento do Congresso e posterior renúncia de Deodoro) precipitou a queda. Sucederam-se as falências e concordatas, e as ações das empresas mais sólidas sofreram brutal desvalorização. Muitas delas, mesmo as que operavam em regime de franca produção, foram prejudicadas. Encerrava-se de maneira melancólica a tentativa de criar um grande parque industrial e comercial no país. Acabara o encilhamento.
Fonte: Enciclopédia Abril





