Artes - ARTE

Desde os tempos mais recuados do pensamento escrito, o homem vem procurando a expressão que defina a acepção específica do vocábulo Arte, mas apesar disso, todas as definições a respeito, das mais antigas às mais recentes, sempre deixaram algo a desejar. O filósofo grego Platão (428-348 a.C.) afirmou que ela deveria ser a sublimação da verdade, mas sem esclarecer o que entendia por sublimação e por verdade. Para ele a Arte libertava o artista da pressão interna de um sentimento seu que ansiava por ser expresso, definição abandonada quando se verificou que uma carta de amor pode ser obra de arte sem que seu autor tenha deixado de amar. Ou seja, sem que ele tenha ficado livre do sentimento que ansiava por ser expresso (na ilustração, a pintura Mona Lisa, também conhecida como La Gioconda, de Leonardo da Vinci, produzida entre 1503 e 1505).

 

O poeta dramático inglês William Shakespeare (1564-1616) afirmou em algumas passagens de suas comédias que não há obra de Arte fora da Natureza. Mas essa proposição desmorona diante da lembrança de que uma fotografia, mesmo sendo sem gosto e de péssima qualidade, pode representá-la, sem que por isso seja considerada como obra de arte.

 

O escritor francês Emile Zola (1840-1902) aproximou-se de uma definição admissível quando disse que a Arte é a Natureza vista através de um temperamento, já que todo artista de meados do século 19 e começo do século 20 foi precisamente isso: um apresentador da Natureza vista através do próprio temperamento. Daí ser admissível a aceitação de que Zola não ficou muito distante daquilo que ao seu tempo talvez pudesse ser proposto e aceito como uma significação precisa da arte.

 

Por sua vez, Benedito Croce (1866-1952), o pensador italiano que mais se destacou na história da Filosofia moderna, ao estudar a Arte concluiu que ela é expressão – e até certo ponto, Arte é isso, realmente. Porém, se nos ativermos ao cotidiano das pessoas e aí aplicarmos essa definição, chegaremos à conclusão de que ao chorar uma criança estará expressando alguma coisa (dor, raiva, decepção, medo, etc.), realizando com isso, então, uma obra de arte. O que é um absurdo (na ilustração, escultura de Carlos Drummond de Andrade, de autoria de Leo Santana, na Praia de Copacabana-RJ).

 

Antes do século 18 nenhum pensador, mesmo entre os filósofos mais autênticos, tratou de investigar metodicamente as características profundas do fenômeno da produção e do entendimento da obra de arte. Somente no século 20 é que filósofos modernos se entregaram ao estudo da Arte, do Belo, do Sublime, dando a esse setor a denominação de Estética. Criado esse novo setor da Filosofia, dezenas de pensadores se dedicaram a ele com afinco, mas nem mesmo assim se conseguiu chegar a uma definição integral da Arte, e menos ainda, a uma explanação daquilo que deva ser obra de arte, ou fenômeno de criação artística.

 

Sumariamente, pode ser dito que para os antigos, desde os tempos remotos até a Renascença, passando pelo período áureo da Grécia, Arte foi a imitação da Natureza em forma de Pintura, Escultura, Poesia e até mesmo Música, sem exclusão das imitações mais diretas, como a representação teatral, a Dança e a Literatura de ordem meramente descritiva. Modernamente, verifica-se que nas obras de arte daquele tempo o artista pôs algo mais do que aquilo que apenas via na Natureza. Ele acrescentou o que sentia, o que o emocionava e inspirava ao contemplá-la, algo não encontrado nela em si mesma, mas sim na intimidade profunda da sensibilidade do artista.

 

Mais modernamente, e com base nos achados que pouco a pouco a Estética, como parte da Filosofia dedicada à Arte, veio realizando, chegou-se a um afrouxamento extremo dessa verificação, passando-se a admitir que o artista pode prescindir da Natureza, afastar-se das chamadas formas naturais, tornar-se independente dos contornos sugeridos pela realidade objetiva, concebendo, por exemplo, uma árvore, uma mulher ou uma casa, sem qualquer dos predicados (quando materialmente existente) mostrado por elas a quem as analisa sem pretender fazer arte (na ilustração, Companhia Russa Moscow City Ballet).

 

Está claro que uma concepção do que é Arte, enquadrada nesta ordem de considerações e alimentada por este anseio de independência em relação às formas chamadas naturais, abre um campo fecundo à exploração filosófica, deixando ao mesmo tempo uma livre perspectiva livre de ação ao artista.

 

Afigura-se, porém, que é também exato que essa mesma concepção dá margem a exageros na aferição dos valores humanos que se dedicam a produzir arte. Além de encurralar o pensamento num beco sem saída, porque a Natureza só tem duas ordens de linha – que são a reta e a curva. Por mais que alguém pretenda fugir dessas formas naturais, ele nunca conseguirá fazer alguma coisa que deixe de ser reta ou curva, donde se conclui que sempre ficaremos dentro dos limites determinados pela Natureza. Limites esses que se fazem intransponíveis mesmo para as fantasias mais movimentadas, confusas e repletas de agitação.

 

Fonte: Enciclopédia Mérito.

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