Outros - DEFESA DE INTERESSES

Os bichos estavam reunidos, e quando discutiam sobre povos antigos e cheios de fama e gloria, três deles passaram a defender e dar razão aos da preferência de cada um.

 

Muito expedito, o gato declarou que de todas as civilizações conhecidas a que merecia a láurea maior era certamente a dos egípcios. E finalizou sua fala afirmando que o Egito fora, sem dúvida, o povo mais nobre, instruído, amante dos seus deuses, das leis e honra da terra...

 

- E o grego? - perguntou dissonante o mocho na paz, sábio como outros jamais conseguiram sê-lo. Quem diz Atenas, diz talento, coragem e sabedoria.pavoroso. Seu povo foi heróico na guerra, artista

 

- Coisas, coisas pequenas, enganos de cegueira ou de amnésia – interrompeu o ganso irado. – Onde querem vocês que eu ponha a Roma eterna que foi, com justiça, o orgulho das nações?

 

Mas o macaco, que ouvira tudo, falou sorrindo: - Senhores, eu posso ajudá-los com algumas informações complementares: O Egito venerava o gato santarrão; na Grécia o mocho era cultuado, e Roma dava casa e comida ao ganso despertador.  

 

E nada mais disse. Mas foi o suficiente para que todos os animais ali reunidos – dos de quintal às feras mais temidas - percebessem que os três discutidores – gato, mocho e ganso – só tinham colocado em evidência o que era do interesse de cada um deles... em outras eras. E certamente teriam feito muito mais, concluíram, se tivessem examinado negócios do presente ou então do dia de amanhã, que é o que nos interessa.

 

Baseado em fábula de Balthazar Pereira, publicada na edição do Anuário do Brasil, Rio, 1925. Ilustração de Correa Dias.

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