N a Q - PERDER AS ESTRIBEIRAS
PERDER AS ESTRIBEIRAS
Estribo, ou estribeira, é um dos componentes usados na montaria pelo cavaleiro ou amazona. Trata-se de uma peça feita geralmente de metal, que pende de cada lado da sela por meio de uma tira de couro denominado loro, na qual o cavaleiro apóia e firma seus pés durante a cavalgada, equilibrando o corpo.
A história registra que os primeiros guerreiros montados enfrentavam dificuldades quando se lançavam contra o inimigo. Sentados em suas selas eles tinham que se equilibrar com os joelhos apertados nas costelas das respectivas montarias, podendo ser facilmente derrubados. Para diminuir esse perigo os cavaleiros disparavam seus dardos de certa distância; para em seguida aproximarem-se do inimigo, desmontarem e então lutarem a pé.
No século 4 a.C. o povo cita formava uma malha de tribos nômades de pastores eqüestres que invadiram muitas áreas nas estepes da Eurásia, incluindo as hoje pertencentes ao Cazaquistão, Azerbaijão, sul da Ucrânia e da Rússia. Seus guerreiros tinham duas paixões: o arco que podia atirar setas a até 500 metros de distância. e uma espada reta de dois gumes, cuja lâmina possuía setenta centímetros de comprimento. Ao lutar, montavam cavalos velozes e eram ferozes combatentes. Foram suas forças de combate as primeiras a usar estribos, que eram pouco mais que laçadas de couro em que os cavaleiros se apoiavam para montar.
Por volta de 477 a.C. o estribo começou a ser usado como auxiliar dos cavaleiros. Com os pés encaixados em estribos de metal, guerreiros chineses e os das estepes da Ásia verificaram que conseguiam ficar bem sentados na sela mesmo lutando a curta distância, ou até mantendo-se de pé sobre os estribos enquanto arremessavam as lanças.
Só mais tarde, no século 6 da nossa era, os Avaros - povo nômade da Eurásia que migrou para a Europa Central e Oriental -, trouxeram o estribo para a Europa Ocidental. Os seus exércitos incluíam arqueiros montados que os usavam para conseguir manter a estabilidade quando lançavam as suas setas contra os inimigos.
Foi graças a eles que os Francos, tribo germânica que nessa época dominava a Gália (onde hoje é a França e a Bélgica), se aperceberam da importância do estribo e o adotaram, passando a usá-lo como arma de ataque em sua cavalaria. E com grande êxito, tanto que um manual militar bizantino daquela época, comentava: “É tão temível a carga da cavalaria franca com a sua espada curta, lança e escudo, que é preferível adiar uma batalha a cavalo com os francos, até ter todas as probabilidades de vitória do nosso lado”
Vem de longe, portanto, a importância dos estribos, ou estribeiras, para os cavaleiros de qualquer gênero, pois se tornou público e notório que quando os mesmos perdiam o contato com tais acessórios já não tinham como firmar-se na montaria.
Essa situação nada conveniente deu origem à expressão Perder as estribeiras, definida por Luis da Câmara Cascudo como sendo “desequilibrar-se, tonteando na sela”.
A esse respeito o historiador, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro enriqueceu seu esclarecimento informando que durante os séculos 15 a 17, nas antigas corridas de Argolinhas (torneios em que os cavaleiros a galope precisavam atingir com a ponta de uma lança as argolas penduradas em fios), a perda de contato com os estribos desclassificava o cavaleiro do páreo. “Nas velhas corridas de cavalo, quem perdesse os estribos e ficasse bambeando, atrapalhado, temendo a queda, pagava multa de bebidas aos companheiros, em pleno alarido zombeteiro”
Mas o sentido primitivo da expressão perder as estribeiras, cuja relação direta é com o apoio para os pés que firmam e equilibram o cavaleiro no lombo de sua montaria, alterou-se paulatinamente com o correr do tempo. Ela agora passou a ter, também, o significado de perda de controle (quando a pessoa fica momentaneamente desatinada), de direção; desnorteada em suas palavras, atos e ações; excedendo-se na descortesia e violência ao responder a terceiros.
O que, infelizmente, se tornou coisa corriqueira e não poucas vezes mortal no confuso e violento mundo da atualidade.





