Olegário Alfredo (Mestre Gaio) - E ASSIM OS BICHOS FALARAM
E ASSIM OS BICHOS FALARAM
(O JOGO)
O mundo da bicharada / Já foi muito diferente / Todos bichos conversavam / Melhor do que muita gente / Cada qual tratava o outro / De modo honestamente.
Muito depois do dilúvio, / O da barca de Noé / O homem calou o bicho / Dando nele um pontapé / O bicho logo passou / Caminhar de quatro pé.
O homem tomou pros bichos / Seu maior depredador. / A caça indiscriminada / Traça o mundo de horror / A extinção nada existia / No mundo do Criador.
Mas depois de tanto tempo / Os bichos tomaram jeito / São Francisco no comando / Foi logo estufando o peito / - Tô com os bichos e não abro / Meu viver é deste jeito.
Sendo assim desta maneira / O bicho pôs-se a falar / - Bicho do jogo-de-bicho / É quem pode comandar / E os vinte e cinco bichos / começaram a julgar.
1 – A avestruz rapidamente / A cabeça desenterra / Grita alto para os homens: / - Já estou em pé de guerra / Se vier comer minha carne / Veja logo se me erra.
2 – A águia sempre foi / A ave da formosura / Ela sendo professora / De quem voa pela altura / Gritou alto para a terra: / - Quero minha formatura.
3 – O burro teve importância / Na vida do Iluminado / É ele quem levou Jesus / Para um lugar sossegado / Dei de tudo aqui na terra / Quero o homem processado.
4 – A borboleta encantada / Diz num tom silencioso / - Tive mais sorte na vida / Pois meu viver é ditoso / Eu nasci para agradar / De quem vive desgostoso.
5 – O cachorro é o mais sabido / Animal de criação / Tomando fiel do homem / não cai na sofreguidão / Vive sempre a dizer / - Meu dono é o meu patrão.
6 – A cabra por natureza / Não gosta de cabroada / Ela não é cabra-macho / Ela é fêmea sossegada / O seu berro nunca pôde / Assustar a criançada
7 – O carneiro muito manso / Se zangou nesta manhã / - Ninguém mais ira fazer / Paletó de minha lã / Quem me desobedecer / Jogo a praga de Satã.
8 – O camelo para o homem / É o carro do deserto / Ninguém pode maltratar / Esse bicho tão esperto. / O camelo não resmunga / Pra ele tudo está certo.
9 – A cobra quando caminha / Deixa o rastro pelo chão, / A cobra não deu moleza / Nem pra Eva nem pra Adão / A cobra zomba do homem / Lhe mordendo o seu dedão.
10 - Neste mato tem coelho / Diz o homem caçador / O coelho respondendo / - Sai pra lá seu predador / A nossa defesa agora / É de bicho vingador.
11 - O cavalo para o homem / Outro dia assim falou / - Sou o mais belo animal / Que nesta terra passou / Ser humano, quero respeito / A quem você não respeitou.
12 - O elefante se cai doente / Caminha para o seu fim / O elefante não incomoda / Nem a pulga no capim / A gtanância do bicho homem / É só pelo seu marfim;
13 - E se o galo ficar mudo / Dentro do seu galinheiro / O homem não mais terá / O nascer no seu terreiro / O homem desta maneira / Ficará sem o dinheiro.
14 - Nós gatos é que sabemos / Sermos gatos de verdade / Nós gostamos mais de casa / Esta é nossa realidade / Nossos donos que se danem / Vivemos de liberdade.
15 - Todos sabem que a lagoa / É o lugar do jacaré / Jacaré disse bem alto / - Vê se larga do meu pé / O meu couro não será / Chinelo do Zé Mané.
16 - O leão é conhecido / Como Rei da Criação / Mas na mão do bicho homem / Ele não tem escapação / O leão com a macacada / Já marcou uma reunião.
17 - Decidir com os macacos / O rumo da bicharada / Vamos montar um sindicato / Foi a conversa acertada / A notícia se espalhou / A data ficou marcada.
18 - O poco comandaria / Toda aquela reunião / Do porco se come tudo / Do rabinho ao coração / Por isto ele não é / Animal de estimação.
19 - O pavão misterioso / Bem vaidoso ele é / Só pensa na sua plumagem / Se esquecendo do seu pé / O pavão disse na gíria / - Só não vou usar boné.
20 - O peru só é lembrado / Na chegada do Natal / Passa os anos engordando / Lá no fundo do quintal / O peru não foi feliz / Ao nascer um animal.
21 - O touro se diz do bicho / Ser tão bravo quanto manso / O que o touro anda pedindo / É um pouquinho de descanso / - Por que não fui nasceu eu / Na lagoa feito o ganso?
22 - O tigre ganhou na mata / O título de esperteza / Nenhum bicho ganha dele / Em matéria de destreza / Sua pele colorida / Para o homem é uma beleza.
23 - O urso do Polo Norte / Gosta de viver no gêlo / Ao homem dono da Terra / Vem pedir o seu apelo / Você fica no seu canto / Não vem c´pa tirar meu pêlo.
24 - O veado é o mais falado / Animal da região / Por ser ele delicado / E de grande coração / - Acabar com mnha raça? / O veado disse não.
25 - Será que sou uma vaca? / Suspirou a vaca no mato / De tudo dou para o homem / E me tratam como um rato / Vou virar a vaca louca / E cair dentro do prato.
Esta é a história dos bichos / Que resolveram falar / Esses vinte e cinco bichos / Estão no jogo de jogar / Preservando a sua espécie / Você na sorte vai ganhar.
Já acabou a reunião / Vamos agora festejar / Não dê mole para o homem / Ele pode te matar / Essa vida é traiçoeira / Cada qual no seu lugar.
Olegário Alfredo, que também assina Mestre Gaio, é mineiro de Teófilo Otoni. Além de pesquisador das tradições populares brasileiras, é membro da Academia Brasileira de Literatura de Cordel, e mestre de capoeira. Possui mais de cem títulos de folhetos de cordéis publicados sobre vários temas. De sua autoria a Crisálida publicou as antologias “Folclore em Cordel” e “Capoeira em Cordel”.





