Patativa do Assaré - DESGOSTO DO MEDÊRO
DESGOSTO DO MEDÊRO
Antônio Gonçalves da Silva – Patativa do Assaré
Ô Joana este mundo tem / sujeito com tanta faia, / que quanto mais qué sê bom / mais no êrro se escangaia, / istuda mais não prospera, / e pra sê burro de vera / só farta levá cangaia.
Ô Joana, tu já deu fé, / tu já prestou atenção, / que tanta gente que tinha / com nós boa relação, / anda agora deferente, / sem querê sabê da gente / pru causa das inleição?
Óia Joana, o Benedito / que era camarada meu, / anda agora todo duro / sem querê falá com eu, / na maió intipatia / pruquê vota em Malaquia / e eu vou votá no Romeu.
Se ele vota em Malaquia / e eu no Romeu vou votá, / cada quá tem seu partido / isto é munto naturá. / .Disarmonia não traz, / e este motivo não faz / nossa relação cortá.
O Zé Lolo que me vendo / brincava e dizia trova, / anda todo infarruscado / com certa manêra nova. / Sem morá e ingnorante, / com a cara do istudante / que não passou pela prova.
Ô meu Deus, nunca pensei / de vê o que agora tô vendo, / Joana, basta que eu diga / que até mesmo o Zé Rozendo / anda falando grossêro / não fala mais no dinhêro / que ele ficou me devendo.
Pra que tanta deferença, / Pra que tanta cara estranha? / O mundo intêro conhece / que quando chega a campanha / tudo alegre pega fogo, / inleição é como o jogo, / quem tem mais ponto é quem ganha.
Ô meu Deus como é que eu vivo / sem tê comunicação? / Ô Joana, só dá vontade / de sumi num sucavão, / pra ninguém me aborrecê / e somente aparecê / quando passá as inleição
- Medêro, não seja tolo, / pruquê você se aperreia? / Tudo isto é gente inconstante / que sempre fez ação feia. /,É gente que continua / na mesma fase da lua, / crescente, minguante e cheia.
- Medêro, não entristeça / você não vai ficá só. / O que fez o Benidito / Zé Rozendo e Zé Loló, / eu sei que foi munto ruim, / porém se os home é assim / as muié são mais pió.
- Medêro, tanta muié / que dizia a todo istante /:como é que tu vai Joaninha? / Toda fofa e elegante / pruquê voto no Romeu, / agora passa pru eu / com a tromba de elefante..
Eu onte vi a Francisca, / a Ginuveva e a Sofia / dizendo até palavrão, / com Filismina e Maria, / no maió ispaiafato, / pru causa dos candidato / o Romeu e o Malaquia.
Tu não vê a Zefa Peba, / que é até colegiá? / Nunca mais andou aqui. / E agora vou lhe contá / o que ela já fez comigo, / que até merece castigo / mas eu vou lhe perdoar;
A Zefa Peba chegou, / reparou e não vendo eu, / subiu na nossa carçada / si ístícou, gunzou, se ergueu / com os óio de cabra morta, / e tirou da nossa porta / o retrato do Romeu.
Eu tava escondida vendo, / e achei aquilo bem chato. / Será que ela tá pensando / que rasgando este retrato / o Romeu fica pequeno / e tem um voto a meno / para o nosso candidato?
Eu vi tudo que ela fez / porém não quis arengá, / Mas no momento que vi / a Peba se retirá, / provando que eu sou muié / agarrei outro papé / preguei no mesmo lugá.
Por isso você Medêro / não se importe com pagode / se lembre deste ditado / e com nada se incomode, / Tudo é farta de respeito, / "Quem é bom já nasce feito, / Quem qué se fazê não pode".





