José Costa Leite - VINDA DA BESTA FERA
VINDA DA BESTA-FERA, A
José Costa Leite
Leitores prestem atenção / que o tempo está carrancudo. / A guerra arrocha dum lado / e a fome acaba com tudo. / Chora filho e chora pai / do jeito que o tempo vai / chora até quem é chifrudo.
A carestia danou-se / e o povo se desespera / pra falar mesmo a verdade / estamos no fim da era. / A coisa vai piorando / já está se aproximando / a vinda da Besta-Fera.
A besta-fera falada / que o padre Cícero dizia / brevemente vai chegar / pra cumprir-se a profecia. / Aí vai se ver clamores / horrores e mais horrores / toda hora e todo dia.
Talvez até que ela chegue / daqui para o fim do mês / pois não tem dia nem hora. / O padre disse uma vez / que ela é o maldito / e na testa traz escrito / 666. / inferno pegou fogo / o satanás revoltou-se / breve vem o anticristo. / Agora tudo danou-se / a coisa está apertando / de mais a mais piorando / e a besta-fera soltou-se.
O tempo está ruim / de ninguém não suportar / e de agora por diante / inda mais vai piorar. / Vou dizer pela metade / se eu contar toda verdade / muita gente vai chorar. / A besta-fera está solta / e vem fazer confusão. / Vamos pedir o auxílio / do padre Cícero Romão / que a ladeira de oitenta / vai ser pesada e cruenta / afirmou frei Damião.
A besta vai perseguir / moça de cabeça tonta / e mulher que é galheira. / A besta nela se monta / para tirar seu cartaz / pois ela gosta demais / de mulher que bota ponta. / Quem gosta de safadeza / jogo, cachaça e forró / sedução e dona boa / anarquia e catimbó / as moças da corrução / vão se viver em aflição / com a besta no mocotó.
Mocinha quente anarquista / que namora no escuro / a mulher casada que tem / encontro por trás do muro / no abismo tudo cai / e a besta-fera vai / desmantelar seu futuro. / A besta vem agarrar / moça enxerida e vadia / que vive usando bermuda / envolvida na folia. / Cabra que é chifrudo / de medo vai ficar mudo / com a besta em companhia.
Rapaz de cabelo grande / moça que dança forró / sujeito que é chifrudo / e vive no catimbó / nega que passa por moça / a besta lhe pega à força / e morde mesmo no pitó. / A mulher que bota ponta / a besta vai dar-lhe um repuxo / mordendo e dando patadas / pra ela deixar de luxo / depois dela machucada / a besta manifestada / morde bem no pé do bucho.
A besta vai perseguir / moça que raspa o suvaco / seja lá bonita ou feia / com ela é taco por taco / quando a besta pegar ela / morde no suvaco dela / fica somente o buraco. / Moça que usa o vestido / mostrando as coxas de fora / com a saia bem ligada / que fica tora não tora / e quando a besta ver ela / dá tanta dentada nela / que ela se apavora.
A mulher do cabaré, / do vestido escandaloso, / com o biquine de fora / de um modo injurioso / chora que se desespera / nos dentes da besta-fera / nunca mais vai ter repouso. / A besta gosta do cabra / que tem o chifre comprido / e vive no cabaré / dançando com remexido / ela lhe aperta na hora / que a ponta dele tora / mesmo no pé do ouvido.
Ela vai perseguir ladrão / assassino e desordeiro / sedutor e enxerido / malandro e catimbozeiro. / Mocinha mansa e contente / chifrudo e viúva quente / jogador e cachaceiro. / Mas pra falar a verdade / só gosta mais de chifrudo / a besta é arriada / pelo sujeito pontudo / dar nele que deixa mole / e quando se zanga engole / a cabra com chifre e tudo.
A besta-fera está solta / e vai ser grande o pagode / cabra vai se ver com ela / pegado pelo bigode / dar-lhe um surrote danado / e deixa ele castrado / pisotando igual um bode. / A besta-fera vem aí / como um lobo carniceiro / cuidado, muito cuidado / ela vem com desespero / com dois fervendo e um quente / ela vai meter o dente / no que encontrar primeiro.
O padre Cícero Romão / disse que no fim da era / a besta-fera chegava / todo dia se espera / ninguém vai se defender / muita gente vai morrer / nas unhas da besta-fera. / A besta vai perseguir / quem gosta de cabaré / e passa a semana toda / dentro do arrasta-pé / se a besta pegar ele / até o sapato dele / fica trocado no pé.
Moça que gosta de farra / para dizer que é bamba / dança forró e xangô / e quando vai para o samba / já tem alguém de espera / cuidado na besta-fera / que ela lhe esculhamba. / Rapaz que pinta as unhas / e usa farta cabeleira / de calça boca de sino, / bem ligada na traseira, / se encontrar na estrada / a besta fera falada / vai ser sua derradeira.
Viúva namoradeira / chifruda de ponta grossa / moça de saia bem curta / que só quer viver na bossa / cuidado, muito cuidado / porque o tempo é chegado / do povo cair na fossa. / Vê-se mocinha na praia / com um maiô resumido / deitada na beira-mar, / de corpo quase despido / se a besta-fera, com efeito, / pegar ela mesmo a jeito / vai ser grande o remexido
Santo Deus Pai Poderoso / mandai vossa proteção / para o povo pecador / não sofrer tanta aflição / confio em Deus Verdadeiro / no padre do Juazeiro / e também no frei Damião. / A Santa Virgem Maria / com o seu Divino Manto / é quem nos dá proteção / eu digo, provo e garanto. / Nossa Senhora das Dores / aliviai os clamores / do povo que sofre tanto.
Vamos pedir proteção / a Deus Todo Poderoso / para ele nos livrar / do drama calamitoso / vamos rezar com mais fé / pra Jesus, Maria e José / que o tempo está perigoso. / Vamos pedir a Jesus / e ao Padre Cícero Romão / São Francisco do Canindé / para nos dar proteção/ Nossa Senhora das Dores / defendei os pecadores / junto com o Frei Damião.
Portanto, caros leitores, / estamos no fim da era / do jeito que o povo vai / bom tempo não se espera / todos rezem esta oração / com toda dedicação / e cuidado com a besta-fera.





