Meus contos - COMPLEXO DE ÉDIPO

COMPLEXO DE ÉDIPO


 

http://fernandod.com.br/images/textos/COMPLEXO DE EDIPO.jpgEram quase nove horas da manhã de uma sexta-feira de céu radiante e belo, quando o radialista Rodolfo Foquento, misto de vibrante repórter e atilado comentarista político da PRK-25, a mais ouvida estação de rádio de Periquitinho Verde, já estava a postos na saleta de locução da emissora, pronto para iniciar uma nova apresentação de seu badalado programa Quem não está por dentro, está por fora. A seu lado, atendendo ao convite que lhe fora feito pelo produtor da atração radiofônica que ia ter início naquele momento, o professor Sebastião Qualé, titular da cadeira de História Antiga no curso de licenciatura do mesmo nome ministrado pela Fepeve - Fundação Educacional de Periquitinho Verde.

 

A presença do mestre tinha ligação com o fato de que na semana anterior o titular do mencionado programa recebera correspondência remetida por uma certa Maria Madalena dos Anzóis Pereira, moradora no bairro Alto do Morro, pedindo que lhe fosse explicado o significado de um tal complexo de Édipo, de que ela vinha ouvindo falar já havia algum tempo. Como seu filho mais velho usava o mesmo nome, devidamente registrado no livro competente do cartório de registro de nascimentos da comarca, a missivista acabara ficando encucada por não saber que história era aquela, e por isso resolvera encaminhar a carta ao repórter Rodolfo, na certeza de que seria atendida em sua solicitação.

 

Sabedor do que a ouvinte desejava, Rodolfo Foquento, como bom jornalista que era, aproveitou a oportunidade de uma rápida viagem que precisou fazer à capital do estado e procurou por lá a psicanalista Takakuka Piradona, brilhante conferencista que já havia realizado em Periquitinho Verde, não havia muito tempo, uma concorrida palestra sobre o tema “O efeito maléfico do limão no sistema nervoso dos apreciadores de caipirinha”.

 

Durante esse encontro, a doutora Takakuka, quando perguntada, explicou pacientemente que psicanálise é a parte da ciência médica que estuda a mente, mas logo em seguida, procurando falar de forma mais simples para o jornalista, um leigo no assunto, disse que sua especialidade englobava um sistema de psicologia e método de tratamento das desordens nervosas e mentais, criado e desenvolvido pelo psicólogo austríaco Sigmund Freud, cuja característica principal era uma visão dinâmica de todos os aspectos da vida mental, conscientes e inconscientes, mas salientando o papel destes últimos.

 

Aí o radialista quis saber onde esse Freud poderia ser encontrado, e a médica, surpresa, respondeu que certamente em algum cemitério da terra dele, já que o coitado havia morrido em 1939. Diante dessa informação, quem ficou boquiaberto foi o próprio Rodolfo Foquento, mas por alguns segundos, apenas, porque logo em seguida, e fazendo jus à sua fama de repórter investigativo, ele voltou ao normal e sapecou na hora, em cima de sua entrevistada, a indagação que lhe havia crescido na boca como se fosse uma batata quente que a gente não tem onde cuspir.

 

- Pelo que a senhora está me dizendo, a teoria do doutor Freud já tem uns cem anos? Certo?

 

- Exatamente. Daí para fora.


 

- Isso quer dizer que a psicanálise vem se valendo de um método terapêutico já centenário, como se cem anos fossem alguma coisa parecida com cem semanas? A senhora não acha que as coisas podem mudar bastante durante o transcorrer de um século?

 

- Não é bem assim.

 

- Então como é que é?

 

- O senhor é médico?

 

- Não.

 

- Entende de psicologia?

 

- Também não.

 

- Nesse caso, meu amigo, como o senhor desconhece o assunto, não há como discuti-lo consigo. Posso lhe ser útil em mais alguma coisa?

 

Percebendo que acabara de receber um delicado, mas incisivo passar bem, Rodolfo Foquento ainda encontrou alento para uma última pergunta:

 

- E esse Édipo, quem foi ele?

 

- Quanto a isso, o melhor que o senhor tem a fazer e pesquisar na mitologia grega.

 

- Onde?

 

- Mitologia grega, meu amigo, que é a história dos deuses e heróis da Grécia Antiga.

 

- Puxa! Mas faz tanto tempo assim?

 

- Para o senhor ver como são as coisas...

 

- Falou e disse. De qualquer forma, fico agradecido pela sua atenção, doutora.

 

- Não há de quê, senhor repórter. Precisando outra vez, estou às suas ordens.

 

Assim, de posse das informações fornecidas pela doutora Takakuka Piradona, o passo seguinte do radialista, tão logo retornou a Periquitinho Verde, foi telefonar para o professor universitário e convidá-lo a participar de seu programa na PRK25, a fim de esclarecer as dúvidas da ouvinte Maria Madalena dos Anzóis Pereira.

 

 

Como Sebastião Qualé, além de mestre catedrático, também era um idealista interessado em popularizar os muitos conhecimentos que guardava na cabeça, ele não se fez de rogado e aceitou o convite sem qualquer hesitação, razão pela qual ali estava sentado na acanhada saleta de locução da rádio e aguardando o início do programa ao lado de seu apresentador, enquanto lá fora o céu permanecia radiante e belo, glorificando aquela manhã de sexta-feira.

 

Quando Rodolfo Foquento recebeu da técnica o sinal de som, ele tratou inicialmente das apresentações necessárias, esclarecendo depois que não só as dúvidas da ouvinte Maria Madalena seriam convenientemente esclarecidas, mas que ela própria também poderia participar diretamente do programa, por via telefônica, tecendo comentários ou solicitando maiores e melhores informações sobre o assunto em pauta. E foi dessa forma que tudo começou.

 

Bastou o repórter Rodolfo explicar de forma rápida e rasteira que a psicanálise cuidava das atividades conscientes e inconscientes do indivíduo, e que entre estas últimas estava incluído o amor sexual recalcado do filho pela própria mãe, batizado pelo criador da terapia com o nome de Complexo de Édipo, para a ouvinte Maria Madalena reagir na hora, perguntando indignada que raio de conversa mais sem graça era aquela de amor enrustido, ou coisa parecida, porque seu menino era pobre, mas honrado, e dele ninguém podia falar um ai que fosse, nem muito menos acusá-lo da sem-vergonhice suprema que é o filho espichar para a mãe um olhar diferente do que é perfeitamente natural.

 

O radialista pediu calma à senhora e tentou justificar-se dizendo que não lhe passara pela cabeça a idéia de ofender o filho dela, pois sua intenção fora apenas a de informar aos ouvintes quem realmente tinha sido esse outro cidadão cujo nome fora usado pelo doutor Freud, e do qual, por capricho do destino, seu filho era xará.

 

- Ah, bom!... - retrucou dona Maria. - Mas não custa nada deixar bem claro que meu filho gosta de mulher, sim senhor, mas só das solteiras que estão a pé, caçando tesoureiro para patrocinar a latinha de cerveja no barzinho do momento, ou até mesmo das donas com dono, isso se elas estiverem com coceira onde não devem, porque aí, meu jovem, é aquela velha história de água de morro abaixo e fogo de morro acima, entendeu bem o que estou querendo dizer?...

 

- Compreendi perfeitamente, dona Maria, a senhora foi bem clara em sua explanação, quanto a isso não há a menor dúvida. Mas agora, por favor, deixe-me terminar o que estou tentando dizer ao pessoal que está nos escutando, porque senão vou acabar perdendo a ponta da meada.

 

- Então vá em frente, moço.

 

E Rodolfo aproveitou a oportunidade para revelar que o tal Édipo de que ele falava era personagem da mitologia grega, mas como a intrigada mãe não tinha a menor idéia do que vinha a ser aquilo, tanto que fez questão de confessar que estava completamente por fora do assunto, o professor Sebastião Qualé recebeu do radialista a incumbência de liquidar de uma vez por todas com aquela ignorância.

 

- Bem, minha senhora, a mitologia tanto se refere ao conjunto de divindades e lendas de uma nação, como à ciência dos mitos, propriamente dita, isto é, à pesquisa e análise crítica de sua origem, seu desenvolvimento e sua significação. Entendeu?


- Até agora, meu filho, não pesquei bulhufas dessa história...

 

- Então preste atenção no que vou dizer, dona Maria: existem numerosas teorias que procuram explicar a origem dos mitos, e os gregos antigos já se preocupavam de tal forma com esse problema, que quatrocentos anos antes de Cristo um filósofo da terra deles, chamado Evêmero, afirmou que todas aquelas lendas nada mais eram que relatos fantásticos de fatos históricos, e que os deuses e outras figuras míticas, por sua vez, não passavam de reis e heróis divinizados após a morte.

 

- E o que é que o meu Édipo tem a ver com isso?

 

- Que eu saiba, nada, minha senhora. Acontece que esse homônimo do seu filho está incluído nas lendas das quais acabei de falar.

 

- E o que foi que ele aprontou? Só pode ter sido coisa de doido, porque senão os doutores da cabeça não teriam escolhido o nome dele para batizar a doença de quem não está com os miolos no lugar...

 

- Vou contar essa história da forma mais simples que puder, dona Maria. Naqueles tempos de não sei quando existia em Tebas, na Grécia, um rei chamado Laio, cuja esposa Jocasta estava esperando um filho. Antes de o menino nascer, a mãe procurou o oráculo mais próximo...

 

- O que é isso?

 

- Oráculo eram os profetas ou videntes da época.

 

- Iguais a essas ciganas que mexem com cartas, com búzios, astrologia, leitura de mão e não sei mais o quê?

 

- Mais ou menos, dona Maria, mais ou menos.

 

- No meu modo de ver, seu Qualé, esse pessoal não passa de um bando de enganadores...

 

- Problema deles, não é, dona Maria? O que nos interessa é que o oráculo garantiu a Jocasta que seu filho a desposaria, depois de assassinar o pai.

 

- Virgem Maria!...

 

- Por favor, minha senhora, não me interrompa novamente!... Porque se o programa continuar do jeito que vai indo, eu acabo misturando as bolas e aí vai complicar o meio de campo, não é mesmo? E aí? Posso ir em frente?  Então vamos lá: a coitada da Jocasta ouviu a profecia terrível, ficou apavorada, contou ao marido, e este lhe recomendou que ficasse calma, pois ele resolveria o problema a seu modo. Assim, quando a criança nasceu Laio mandou um servo abandoná-la em lugar distante, com os pés feridos - daí a razão do nome Édipo, que quer dizer pés inchados -, acreditando que os lobos a devorariam porque certamente ninguém se interessaria em recolher uma criança tão machucada.

 

- Que pai bandido!


 - Dona Maria, dona Maria, a senhora prometeu!... Mas como eu dizia, o negócio não ficou como Laio desejava, já que a criança foi salva por pastores e entregue a Políbio, rei de Corinto, e este a criou como se fosse seu próprio filho. Tanto que Édipo o tinha realmente como pai. Porém, quando chegou à idade adulta, o rapaz enfiou na cabeça a idéia de que deveria procurar um oráculo, e foi nessa hora que sua sorte virou azar, pois ele acabou tomando conhecimento do destino que lhe tinha sido reservado. Tentando evitá-lo, o moço fugiu da cidade onde fora criado, mas no caminho para outro lugar discutiu com um viajante desconhecido que encontrara por acaso, e no calor do desentendimento surgido entre ambos, acabou matando-o, sem saber que o mesmo era Laio, seu pai verdadeiro.

 

 - Que desgraça!...

 

- Põe desgraça nisso, dona Maria!...  Feita a arte, Édipo tratou de seguir seu caminho, até que chegando em Tebas ele deu de cara com a Esfinge, que dizem ter sido um monstro muito feio, com corpo de cão, ou leão, e cabeça humana, cujo divertimento predileto era propor enigmas aos caminhantes que passavam por lá, e devorar todos os que não conseguissem decifrá-los. Donde, até então, não havia sobrado nenhum para contar a história. Quando o jovem foi chegando perto da sua toca, a fera gulosa saiu do buraco e dirigiu-se ao seu encontro assim como quem não quer nada, num passinho manso de quem só vai pegar a janta, e perguntou-lhe suavemente:

 

- Qual é o ente que, dotado de uma só voz, é o único a ter sucessivamente quatro, dois e três pés, e cuja força é tanto maior quanto menor o número de pés?

 

- Eta, ferro! Aí o bicho pegou...

 

- Pegou não, dona Maria, já que Édipo respondeu em cima da bucha que esse ente era homem, pois na infância ele arrasta-se de quatro, anda ereto na idade adulta, e quando velho, apóia-se em um bastão.

 

- Esse cara devia ir ao programa do Sílvio Santos!

 

- Também acho, minha senhora. Acontece que a Esfinge não gostou nem um pouco do acontecido, ficou tremendamente desapontada, provavelmente andou dando uns faniquitos, perdeu o rebolado e por isso acabou suicidando-se ali mesmo, na hora, ou foi morta por nosso herói, ninguém até hoje sabe dizer com certeza o que foi que aconteceu realmente. Como prêmio pela façanha extraordinária, o valente matador de monstros recebeu Jocasta em casamento, sem saber que ela era a sua mãe.

 

- Aí azarou tudo.

 

- E como azarou, dona Maria!... Porque os deuses não ficaram nada satisfeitos com a união incestuosa, a verdade finalmente foi revelada, Jocasta não suportou o desespero e enforcou-se, enquanto Édipo, para punir a si mesmo, arrancou os próprios olhos e abandonou a cidade a toque de caixa, indo terminar os seus dias em um bosque sagrado, onde morreu sozinho e abandonado.

 

- Que tragédia, professor.

 

- Realmente, dona Maria, a história é triste.

 

- Concordo com o senhor, professor Qualé. Mas mesmo assim, vou repetir a pergunta que lhe fiz há pouco: o que é que o meu Édipo tem a ver com essa história?

 

- Nada.

 

- Pois então me diga uma coisa: com que direito esse pessoal de roupa branca está botando o nome do meu filho em uma doença que só dá em quem ficou com algum parafuso solto na cabeça, e isso sem qualquer autorização de nossa parte?

 

- Essa autorização não é necessária, dona Maria, primeiramente porque o Édipo da doença não é o seu, é um outro que talvez nem mesmo tenha existido; e depois, porque nome de gente é nome de gente, não é propriedade particular de quem quer que seja.

 

- Nesse caso, as coisas pioram ainda mais, professor, já que se for mesmo verdade que esse outro não existiu, se o que se fala a respeito dele não passa de invenção, de pura conversa fiada dos doutores, aí então é que o tal Freud não poderia levantar uma calúnia desse tamanho, porque como eu já disse, o meu filho sempre foi muito respeitador, muito educado. E nome de gente viva é coisa séria, fique o senhor sabendo, qualquer manchinha atrapalha, tanto que o dono da padaria aqui do bairro garantiu que por causa dessa confusão nós podemos até processar o homem por calúnia, por difamação, por danos morais e não sei mais o quê. Pensando bem, eu também já estou achando que o melhor caminho é esse mesmo, porque só assim vou poder acabar com a falação desse povo que não sabe fazer outra coisa senão colocar maldade nas coisas.

 

- O Édipo de que eles falam não é o seu, dona Maria, é o da mitologia grega.

 

- E por acaso eles explicam que esse negócio de complexo só tem a ver com o tal grego de não sei quando, e com mais ninguém? Não senhor! Eles dão o nome, e nessa altura do campeonato, todos os Édipos do planeta são jogados dentro de um mesmo saco. Aí, como a ruindade solta no mundo é demais, lá vem a conversa fiada de que lhe falei.

 

Nesse momento o Rodolfo Foquento resolveu intervir:

 

- Mas que falação é essa a que a senhora está se referindo?

 

- Como o senhor não mora aqui no bairro, vai lhe ser difícil entender como são as coisas nesse lado de cá. O que posso dizer é que toda vez em que se toca nesse assunto de complexo, tem certas donas de nariz empinado, dessas sirigaitas emperiquitadas que se acham o máximo e por isso mesmo vivem balançando o traseiro pra lá e pra cá, só para dar a entender que se porventura elas quisessem tomariam na hora o lugar de qualquer sambista famosa, que começam a olhar de banda para o meu menino, como se ele não prestasse, fosse um trem à toa, uma coisa ruim.

 

- Tudo isso por causa do nome?

 

- Sim, senhor! Quando um nome fica desmoralizado, vira um problema.

 

- A senhora acha?

 

- Claro que acho! Ou o senhor conhece alguém batizado com o nome de Caim? Ou de Judas? Ou de Pôncio Pilatos, Hitler e Lampião? Não conhece? E por que é assim? Porque esses são nomes de mau agouro, e como eu não quero que isso aconteça com meu filho, então vou processar o doutor Freud.

 

- Mas ele já morreu, dona Maria.

 

- Então processo a mulher dele.

 

- Ela também já se foi.

 

- Aí eu dou em cima dos herdeiros.

 

- Mas eles não têm nada a ver com o peixe.

 

- Não quero saber! Alguém da família desse Freud tem que pagar pelo malfeito que ele aprontou, meu Deus do céu! Os herdeiros do homem não estão ganhando dinheiro com isso? Pois então!

 

- O problema que a senhora está levantando não vai ser resolvido dessa maneira, dona Maria.

 

- Se não vai, então como é que nós ficamos, moço? Qual é o recurso que me resta? Ou na nossa terra não tem justiça para proteger o pobre?

 

- O melhor que a senhora pode fazer é olhar o lado positivo das coisas.

 

- E essa história por acaso tem lado positivo? Primeiro eles inventam um zunzum esquisito sobre o Édipo taradão, mas não explicam quem é ou quem foi o sujeito. A conseqüência é que agora, vira e mexe, todo mundo fica falando de um tal de complexo de Édipo, e que eu saiba, aqui em Periquitinho Verde só existe uma pessoa como esse nome, que é justamente o meu filho. Se a gente somar dois e dois, quanto é que vai achar, “seu” Rodolfo?

 

- As coisas mão são bem assim, dona Maria - interveio o professor Sebastião Qualé. - O Édipo grego não era nenhum taradão com a senhora está supondo...

 

- Não era? Qual é “seu” Qualé? O que é que o senhor acha que a gente pode dizer do sujeito que está de olho na própria mãe? Que ele é um cara sério e dos mais ajeitados? Conta outra, professor, porque essa não desce.

 

- Mas é verdade, senhora, o pobre do Édipo não sabia que a Jocasta era sua mãe, ele só se casou com ela porque a recebeu como prêmio por ter matado a Esfinge.

 

Só por causa disso. E ainda por cima, nós não podemos deixar de lado o fato de que assim que tomou conhecimento da verdade, o rapaz arrancou os próprios olhos, numa demonstração clara de que estava punindo a si mesmo pela barbaridade que havia cometido, achando que estava numa boa.

 

- Olha, professor, nosso caso está tão enrolado que eu já nem sei mais quem está certo ou errado nessa confusão toda que o senhor aprontou. Mas uma coisa eu posso garantir: como não é o seu filho que está metido no rolo, mesmo não tendo um pingo de culpa no cartório, fica muito fácil encontrar uma explicação para o que não pode ser explicado...

 

- Eu não aprontei confusão nenhuma, minha senhora. Apenas lhe relatei uma passagem da mitologia grega.

 

- Mas eu não quero saber dessa tal mitologia, “seu” Qualé! O que me interessa de verdade é o meu filho que está sendo difamado aí nas ruas por gente que nunca o viu mais gordo.

 

- Vamos com calma, dona Maria - voltou a falar o radialista. - Vamos pensar no caso. Imagine, só por um instante, que o nome com que seu filho foi batizado é mais importante do que a senhora pensa, tão importante que a medicina resolveu usá-lo para identificar um dos muitos problemas mentais que vira e mexe estão perturbando a vida das pessoas. Não é qualquer doençazinha merereque que tem nome de gente, minha amiga!... Isso não é coisa para qualquer um!... Ou por acaso existe alguma enfermidade que seja conhecida como complexo do Rodolfo? Ou síndrome de dona Maria? Se existe, confesso que não conheço.

 

- Acho que não.

 

- Está vendo?...Só por aí é possível entender que se para os médicos da cabeça o nome de seu filho tem melhor cotação que o meu, certamente é porque o dele é mais importante, não é mesmo? O conhecimento dessa particularidade tem um valor danado, dona Maria, porque todos nós sabemos que a medicina é uma ciência excessivamente exigente em estudo e observação. Em razão disso, a gente pode acreditar no que a senhora falou agora mesmo, de que tem nome que não presta, pois dá azar. Mas em compensação, o outro lado da moeda é que também tem nome valendo uma nota preta pela sorte que traz consigo. E sendo assim, o melhor que pode ser feito é o seguinte: mesmo que algumas dessas vizinhas de que a senhora está se queixando, resolva se meter a besta e perguntar o que foi que o Édipo original fez, responda que isso é assunto da medicina especializada e, portanto, fora da capacidade de compreensão dos que não têm título de doutor em medicina.

 

- E se elas insistirem?

 

 

- Então explique que isso não vem ao caso, porque o mundo está cheio de caras que ficaram com o nome gravado na história sem que a gente saiba o que foi que eles fizeram de bom para merecer a homenagem póstuma. Aqui em Periquitinho Verde, por exemplo, está assim de rua batizada com o nome de homens e mulheres dos quais quase ninguém tem a menor idéia de quem tenham sido.  Mas com relação aos problemas de saúde, que é o que interessa no momento, quem me dera que existisse um treco qualquer batizado com o meu nome, dona Maria, podia ser uma coisinha de nada, um trocinho à toa, até mesmo uma dessas gripes mixurucas que não merecem nem meio doril, mas garanto que isso ia me empurrar para frente e para cima, dona Maria. Já pensou? O povo perguntando: “- O senhor é que é o Rodolfo?”. “- Eu mesmo!” “- O da síndrome?”. “- Quem me dera, amigo...“ “- Bem, pelo menos tem o mesmo nome, o que já é alguma coisa”. Viu só? Ia ser o máximo!

 

- É... Pensando desse jeito, até que o senhor não deixa de ter uma dose de razão.

 

- Mas é claro que tenho, dona Maria. Quem sabe se daqui para frente a senhora não rebate o falatório das inconformadas dizendo que o nome do seu filho é o preferido dos médicos porque transmite energia positiva, e isso é fundamental para as pessoas que sofrem de algum problema de saúde, principalmente na cuca. E para completar o serviço, naquela base de barba, cabelo e bigode, pergunte às suas vizinhas se o nome de algum dos filhos delas foi escolhido para ajudar a medicina em qualquer coisa. Pois eu posso garantir que todas elas vão calar a boca e nunca mais tocarão nesse assunto, de vez que nenhuma das madames de quem falamos vai querer reconhecer que seu filho Édipo é xará de um cara famoso, enquanto os delas...

 

- Gente, e eu que não havia pensado nesse pormenor! Por aqui, “seu” Rodolfo, o que dá mais é gente conhecida como Zé Lombriga, Tião Biscoito, Juca Barbicha, Tonho das Éguas, Mané Bunda Mole e outros apelidos desse tipo.

 

- Está vendo só? Então não custa nada experimentar a receita que estou lhe dando, a senhora não acha?

 

- Ainda não sei, “seu” Rodolfo...

 

- Mas o que é isso, dona Maria? Problema é coisa que as pessoas inteligentes não permitem que cresça, senão ele acaba ficando maior que o dono. E aí, já era. Eu estou lhe recomendando um remédio que é tiro-e-queda para esse tipo de disse-me-disse, e sua atitude, portanto, só pode ser a matar a cobra e mostrar o pau. Caso aja dessa forma, dona Maria, não vai sobrar uma só invejosa para contar a história. Ou a senhora está disposta a deixar que essa lengalenga continue crescendo, crescendo, até chegar a um ponto em que não vai dar mais para consertar?

 

- Não pode, não é?

 

- É claro que não pode!

 

- Nisso o senhor está certo.

 

- Não é mesmo?

 

- É verdade.

 

- Então, como ficamos? A senhora vai fazer o que estou sugerindo?

 

- Acho que vou.

 

- A senhora acha?

 

- Quer saber de uma coisa, “seu” Rodolfo? Eu vou seguir seu conselho porque pior do que está não pode ficar.

 

- Assim é que se fala, dona Maria. Minha mãe dizia que se a gente procurar com cuidado, vai acabar encontrando uma explicação convincente para tudo aquilo que a princípio pode nos parecer complicado e misterioso. Como nesse seu caso: bastou saber como os fatos são na realidade, e pufff..., suas dúvidas terminaram, foram embora, sumiram.

 

- Puxa, “seu” Rodolfo, agora que me decidi, que já sei o que fazer, o senhor nem calcula o peso que parece ter saído de cima de mim. Estou sentindo que a partir de agora vou dormir sossegada no meu canto, ciente de que se não fosse o nome do meu filho, os médicos da cabeça estariam perdidos, sem saber o que dizer sobre esse complexo. Bendita a hora em que me deu aquele tchan nos miolos e eu escolhi o nome de Édipo para o meu menino. E obrigado ao senhor, também, pois foi graças à sua ajuda que descobri como é bom ter um filho com nome tão importante. Deus lhe pague por essa informação que trouxe paz ao meu espírito e colocou tanta alegria em meu coração.

 

- Amém, dona Maria, amém.

 

- E tem mais uma coisa, “seu” Rodolfo: a partir de hoje, vou rezar fervorosamente todas as noites, pedindo a Deus a graça de ver o senhor atacado por uma doença nova e braba, dessas bem esquisitas, que não tem escapula, só para que os médicos possam batizá-la com seu nome e torná-lo famoso em todo o mundo. Está bem?

 

- Pelo amor de Deus, dona Maria, vira essa boca pra lá! Vá rogar praga assim nos quintos do inferno!...


 

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