Crônicas - SOMOS UM PAÍS SEM-VERGONHA

SOMOS UM PAÍS SEM-VERGONHA

 

http://fernandod.com.br/images/textos/SOMOS UM PAIS SEM VERGONHA.jpgNum tranqüilo final de tarde de um sábado pachorrento, eu e o compadre João estávamos conversando sobre assuntos amenos e sem grande importância, quando a conversa resvalou por acaso para os escândalos financeiros que são abafados habitualmente pelas “forças ocultas” existentes nos escalões superiores de nosso dadivoso país.

 

Nessa altura do bate-papo eu afirmei que o Brasil era uma nação com vergonha do que está acontecendo, mas o meu compadre, ranheta como sempre, emendou na bucha e disse que não, que muito pelo contrário, que o povo da nossa terra era simplesmente sem-vergonha, pois só isso explicava a continuidade dos fatos que estão acontecendo nas barbas de todo mundo sem que ninguém tome uma providência a respeito.

 

O meu querido amigo sempre levou vantagem sobre os outros mortais porque tem o costume de matar a cobra e mostrar o pau, hábito que deveria ser seguido por tanta gente que vive falando mal dos que lhes atrapalham os planos, sem a menor preocupação em provar o que afirmam com estardalhaço. E o meu velho companheiro foi enumerando as “mutretas” que se tornaram conhecidas, os “golpes” que engordaram as contas bancárias estrangeiras de tanta gente tida e havida como impoluta e de íntegro caráter, sem que, no entanto, nenhum deles tenha devolvido um único centavo aos cofres públicos, ou perdido uma solitária folha de papel com a redação de qualquer tido de explicação endereçada a quem de direito.

 

O compadre falou sobre os donos de bancos que consumiram bilhões de reais arrancados do zé povinho, e que ainda por cima ameaçam os contribuintes com pedidos de indenizações também bilionárias; falou do orçamento manipulado em proveito dos privilegiados “donos” das verbas federais; dos inúmeros precatórios que desapareceram na voragem dos apetites insaciáveis; das falcatruas em todos os níveis e escalões governamentais, acobertadas pelos intocáveis poderosos do poder público; dos salários e aposentadorias indecentes pagos aos bem-aventurados amigos do rei.

 

Ao falar em aposentadoria o compadre parou. Mas concluiu entristecido, após uma pausa relativamente prolongada, que muito mais que sem-vergonha nós somos um povo sem conserto, sem remédio, sem cura para o mal da prevaricação, do mal feito, do “venha a nós o vosso reino”. E isso porque não existe um único benefício permitido em lei que não seja usado pelos políticos em proveito da continuidade de sua permanência no poder, com a agravante de que, hoje em dia, o próprio cidadão comum já busca apoiar-se na desonestidade como se ela fosse uma coisa natural e perfeitamente compreensível.

 

Um exemplo: a bandalheira que está vindo à tona com relação ao Benefício de Prestação Continuada, pago pelo INSS aos portadores de deficiências físicas, ou idosos sem condições de prover o próprio sustento, é para não deixar nenhum brasileiro com qualquer dúvida sobre a moralidade de determinados indivíduos que pretendem ser gestores da coisa pública. Atestados falsos fornecidos por médicos que colocam suas candidaturas a cargos eletivos acima de qualquer princípio de vida digna, não podem ser acobertados por princípios éticos corporativistas, ou protegidos dos rigores legais.

 

A conta desse aproveitamento imoral do dinheiro do governo, por parte dos espertalhões da vida política, é paga pelo segurado que contribuiu durante toda a sua vida pensando em uma aposentadoria decente, mas que verifica, ao final de tantos anos de trabalho, serem muitos os convidados especiais para o banquete preparado às custas das contribuições compulsórias com que ele, e outros iguais a ele, alimentam mensalmente a vaquinha do tesouro que já foi público, mas acabou sendo privatizado pelos quadrilheiros eleitos pelo povo porque este simplesmente não sabe o que faz.

 

17/08/1997.

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