Crônicas - RATO DE BRASÍLIA, O

RATO DE BRASÍLIA, O

 

http://fernandod.com.br/images/textos/RATO DE BRASILIA.jpgNo início do ano da graça de 1995, a Assembléia Legislativa do Distrito Federal - leia-se deputados estaduais de Brasília, para melhor entendimento dos possíveis desentendidos - estava mergulhada em mais uma de suas polêmicas e apaixonantes discussões, que versava justamente sobre a escolha do animal-símbolo da capital da república. As preferências dos nobres parlamentares estavam divididas entre dois espécimes da abundante fauna silvestre brasileira, de um lado o lobo-guará, representando os animais terrestres, e de outro o peixe pirá, simbolizando os aquáticos.

 

Como acontece normalmente em nossos debates políticos - e esse nossos aí tem um sentido genérico, quer dizer, de todos nós, brasileiros - o disse-me-disse sobre a matéria decorria em ambiente calmo, polido e educado, com o grupo de cá acusando os mamíferos canídeos de pouco viris, enquanto o grupo de lá soltava os cachorros em cima do pequeno vertebrado fluvial, taxando-o de hermafrodita. No fundo, no fundo, até que os dois blocos se entendiam no aparente desentendimento, porque os dois animais discutidos, na verdade, estavam mesmo eram sendo chamados de homossexuais, ou, em linguagem vulgar, de bichas, mas no bom sentido, é claro.

 

Eduardo Conzi, um biólogo possivelmente entendedor desses assuntos relacionados com a frescuragem animal, foi consultado a respeito e tratou de botar lenha na fogueira afirmando do alto de seus conhecimentos ictiológicos que o peixe pirá é tão ou mais macho que o lobo-guará. Ele tem, segundo o esclarecido doutor na matéria, sexo definido e responsabilidade familiar, ao contrário do seu concorrente, que só cruza uma vez por ano, e olhe lá, não tem compromissos com a fêmea e muito menos com os filhotes, e ainda por cima não passa de um covarde.

 

Após a fala do biólogo, o deputado César Ladeira solidarizou-se imediatamente com a raça lobal, e rebateu dizendo que não era nada daquilo, não, pois ele, deputado, havia investigado cuidadosamente a vida pregressa do peixe e verificado que o mesmo era, na realidade, um andrógino, e por isso sua coroação como animal-símbolo brasiliense poderia repercutir de forma negativa para a capital federal, possibilitando o surgimento de epítetos desagradáveis, como, por exemplo, “Brasília, terra dos bichosos”, ou coisas semelhantes e com o mesmo gosto duvidoso. Por isso, garantiu o parlamentar, seu voto seria pelo imediato arquivamento da indicação feita por Wasny de Rouse, deputado estadual, mas na época secretário da Fazenda do governo Cristovam Buarque.

 

Considerando que seus colegas legisladores não conseguiam chegar a um acordo, o que é perfeitamente normal em se tratando de discussões onde estejam envolvidos representantes do povo, o deputado Tadeu Fillipelli propôs um concurso público em escolas de primeiro e segundo graus da capital federal, mas o jornal “Correio Brasiliense”, enxerido como ele só, antecipou-se à medida e promoveu uma pesquisa junto a seus leitores, que apontaram a seriema e o rato do cerrado, cientificamente chamado de “juscelynomis candango”, como os escolhidos.

 

Daí para frente eu não sei mais o que foi que aconteceu, já que o assunto foi colocado em banho-maria e acabou sumindo do mapa. Mas o meu compadre João, que tomou conhecimentos dos fatos e como não é homem de deixar as coisas passarem em brancas nuvens, telefonou-me uma noite dessas, logo após o Jornal Nacional, dizendo rápido e rasteiro: “você sabe, compadre, aquele negócio do animal-símbolo de Brasília? Eu fico com o rato!”. E desligou o telefone.

 

 

16/07/1996

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