Autores de Cordel - CORDEL - Apolonio Alves dos Santos - ANTONIO CONSELHEIRO E A GUERRA DOS CANUDOS
ANTONIO CONSELHEIRO E A GUERRA DOS CANUDOS
Apolonio Alves dos Santos
Vamos ouvir a história / De Antônio Conselheiro / Que apesar de beato / Temente a Deus verdadeiro / Em defesa de Canudos / Se tornou um guerrilheiro / O seu nome verdadeiro / Era Antônio Maciel / Que se fez um penitente / Dum sofrimento cruel / Mas apesar de sofrido / Era uma alma fiel
Vamos saber como foi / Que ele foi convertido / Em beato peregrino / Triste e arrependido / Por dois monstruosos crimes / Ter ele então cometido / Porque ele se casou / Com uma linda deidade / Bonita como uma santa / Do altar da divindade / A qual foi vítima inocente / Duma cruel falsidade.
Porque a mãe de Antônio / Com a nora não se dava / Para o filho abandoná-la / Sempre o aconselhava / Mas suas falsas calúnias / Ele não acreditava. / Mas ela vendo que o filho / Não queria acreditar / Em suas falsas calúnias / Resolveu a levantar / Um falso a sua nora / E que pudesse provar
A velha disse: Meu filho / Toda vez que você vai / Viajar de madrugada / A sua esposa lhe trai / O macho dela já sabe / A hora que você sai / Se quiser ter a certeza / Escute o que vou falar / Diga a sua mulher / Que hoje vai viajar / E fique perto da casa / Para se certificar
Verá um homem chegar / Aproveitando o escuro / E ficar atrás da casa / Com o seu plano s / guro / Esperando que ela venha / Abrir o portão do muro / E assim Antônio fez / Disse pra sua senhora: / Hoje eu vou viajar / Procurar trabalho fora / Não sei se voltarei logo / Ou tenha uma demora
Então a velha maldita / Que estava prevenida / Para confirmar a trama / Com idéia pervertida / Trajou-se em roupa de homem / E caminhou decidida / De lá Antônio saiu / No horário acostumado / Resolveu se ocultar / Num recanto do cercado / Nisto viu chegar um vulto / Em um capote embrulhado
Antônio que estava armado / Com um revólver munido / Mandou pipoca no vulto / Ouviu-se grande estampido / A mulher abriu a porta / Pra ver o que tinha sido / Ele avistando a esposa / Também foi mandando brasa / A mulher soltou um grito / Igual a quem se arrasa / E mortalmente ferida / Caiu pra dentro de casa.
E Antônio Maciel / Bastante enfurecido / Correu para examinar / Aquele vulto caído / Para ver se conhecia / Quem ele havia abatido. / Quando ele descobriu / O rosto da genitora / Gritou: Valha-me Jesus / E Maria protetora / Assassinei minha mãe / Sendo ela a causadora.
Naquele momento ele / Compreendeu a cilada / Disse: Também atirei / Na minha esposa estimada / Se ela também morreu / Não tive culpa de nada / Correu para ver sua esposa / No momento extravagante / Ela ainda estava viva / Porém muito agonizante / E ele ainda contou-lhe / A história horripilante.
Ela disse: Meu esposo / Eu vou morrer inocente / E tu também me matastes / Sem prova e inconsciente / Mas por ti peço perdão / Ao nosso Onipotente. / Antônio depois que viu / A sua esposa querida / Morrer apertando a mão / Do seu esposo homicida / Naquela hora perdeu / Todos prazeres da vida.
E sem mais perca de tempo / Foi entregar-se à prisão / Então depois de cumprir / A sua condenação / Saiu como peregrino / Em espinhosa missão / Dizia mesmo consigo: / Hei de viver como incréu / Pois mediante o que fiz / Ainda sou triste réu / Paguei a pena da lei / E não a pena do céu
E saindo mundo afora / Com gesto de tresloucado / Barbas e cabelos grandes / Sujo e esm / lambado / E conduzindo no ombro / Grande cruzeiro pesado / Naquele tempo Canudos / Era um pequeno arraial / Antônio chegou ali / Permanecendo afinal / Dedicou-se a conselheiro / Teve o apoio em geral
Havia no arraial / Uma igrejinha indigente / E ele como beato / Pregador e penitente / Tomou a pobre igrejinha / Por seu abrigo dolente / Daí veio o apelido / De Antônio Conselheiro / Logo espalhou-se a notícia / Naquele sertão inteiro / Todo mundo tinha fé / No beato milagreiro
Logo nasceu um despeito / Dum tal padre Ibiapina / Porque viu o conselheiro / Também usando batina / E conquistando os fiéis / Pregando a santa doutrina / Finalmente Conselheiro / Era dali mandatário / Propondo ali no local / Plano revolucionário / Desfazendo da comarca / Como rebelde contrário
Porém todo povo em massa / Gostava do Conselheiro / Porque ele conquistava / Aquele sertão inteiro / Muito embora atribuído / Como ente desordeiro / Pois Antônio Conselheiro / Apesar de pregador / Falava contra a República / Não queria dar valor / Por isso os republicanos / Lhe tinham ódio e rancor
Na cidade Bom Conselho / No estado da Bahia / O governador mandou / Para o juiz certo dia / Uma ordem de expulsar / Antônio da freguesia / Nesse tempo o Conselheiro / Começou a construção / De uma igreja em Canudos / Sem ter autorização / Com isto mais se agravou / A sua perseguição
E acontece que ele / Teve muita precisão / Dumas peças de madeiras / Para fazer armação / Mandou pedir ao juiz / Daquela jurisdição / Então mandou um jagunço / Seguir como encarregado / À cidade Bom Conselho / Comandando um grupo armado / Incumbido de levar / Ao juiz o [seu] recado
Na cidade Bom Conselho / Foi chegado o cangaceiro / Ao prefeito e juiz / Dera como mensageiro / O recado que mandava / O Antônio Conselheiro / O juiz lhe respondeu: / Pode voltar desde já / E diga ao Conselheiro / Que ele conseguirá / O que está pretendendo / Se ele mesmo vir cá
Logo o jagunço fitou / Para o juiz de direito / Disse: Eu dou o seu recado / Porque não tenho outro jeito / Mas sei que o Conselheiro / Não vai ficar satisfeito / Quando o jagunço voltou / Disse: Senhor Conselheiro / O juiz lhe mandou um / Recado muito grosseiro / Me parece que ele está / Com intento traiçoeiro
Disse que o senhor mesmo / Fosse imediatamente / Disse que pretende vê-lo / Com ele de frente a frente / Pois deseja conhecer / O senhor pessoalmente / O Conselheiro pensou / E disse desta maneira: / Vamos todos reunir-nos / Numa missão prazenteira / E vamos a Bom Conselho / Buscar a dita madeira
Na manhã do outro dia / Reuniu um batalhão / De centenas de fanáticos / Como peregrinação / E seguiram a Bom Conselho / Em rigorosa missão / Porém alguns iam armados / De rifles e carabina / Embora por precaução / Pelos reveses da sina / Sem intenção de fazerem / Nenhuma carnificina.
Acontece que de lá / O juiz organizou / Um batalhão de soldados / E para o qual convocou / Um tenente como chefe / E a Canudos mandou / Deu-se entre duas serras / O encontro inesperado / E Antônio Conselheiro / Quando se viu atacado / Mandou que abrisse fogo / Foi o combate travado
Então naquele combate / Muita gente pereceu / Do povo do Conselheiro / Quase a metade morreu / E da polícia escapou / O tenente que correu / O Conselheiro ficou / Sem alegria e sem glória / E o tenente voltou / Para contar a história / E lá as autoridades / Planejaram uma vitória
Foi em novembro do ano / Dezoito e noventa e seis, / Do outro século passado / Que pela primeira vez / Canudos foi atacado / No dia 7 do mês / Num ataque comandado / Por Damasceno Gouveia / Marechal forte e valente / De sangue quente na veia / Esse morreu no combate / Duma morte horrenda e feia
Então ali os fanáticos / De Antônio Conselheiro / Ficaram mais prevenidos / Juntou-se mais dum guerreiro / Com as armas que tomaram / Daquele ataque primeiro / Bem reunidos cavaram / Trincheiras para defesa / E construíram de pedras / Mais de uma fortaleza / Prontos para rebaterem / Os ataques de surpresa
Ficaram bem preparados / Arranjaram munição / Todos se exercitaram / Para na ocasião / Pois até mesmo as mulheres / Pegaram no mosquetão / O segundo ataque foi / Na grande serra Combaia / No pé tinha uma lagoa / Que ficaram de atalaia / Onde muitos se banhavam / Como se fosse uma praia
Essa dita se chamava / A lagoa do Cipó / Aonde ali se banhavam / Os jagunços numa mó / Nisso os policiais / Mandaram bala sem dó / Então a dita lagoa / Ficara denominada / Como lagoa Vermelha / Desde a cena passada / Pois sua água ficou / Como sangue avermelhada
Dizem que ainda hoje / Quem passar lá em Canudos / Verá o grande cenário / Demonstrando conteúdos / Daquelas cenas dramáticas / Nos servindo de estudos / O padre Cícero Romão / Que vivia em Juazeiro / Mandou fazer um pedido / A Antônio Conselheiro / Para ele desistir / Da idéia de guerreiro
E fosse às autoridades / Para que reinasse a paz / Ele mandou a resposta / Que não seria capaz / Aquilo estava previsto / Não ia voltar atrás / Muito embora custasse / O sangue da humanidade / Mas ele tinha uma dívida / A pagar na eternidade / Só pagaria com sangue / Por espontânea vontade
Assim demais aumentou / A grande perseguição / Contra Antônio Conselheiro / Com ódio e repercussão / E ele sempre enfrentando / A grande revolução / Deu-se o segundo combate / Dia 12 de janeiro / Do outro ano seguinte / Que vou contar prazenteiro / Dezoito e noventa e sete / Ano infeliz agoureiro
Coronel Moreira César / Comandou o batalhão / Com 1.200 soldados / Seguindo em expedição / E esperando trazer / Sua vitória na mão / Caminharam vários dias / Por aqueles Cariris / Ouvindo nas terras secas / Os gritos dos bem-te-vis / Sofrendo sede e cansaços / Num sofrimento infeliz
Certa noite
se acamparam / Sobre o alto da favela / Serra feia e tenebrosa / De Canudos paralela / Ali a tropa cansada / Dormiu com muita cautela / Então o Moreira César / Na manhã do outro dia / Com um binóculo de alcance / Que consigo conduzia / Do arraial de Canudos / Todo movimento via
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Tomou todas precauções / Com astúcia e esperteza / Foram chegando pra perto / Para atacar de surpresa / Porém os ditos jagunços / Estavam na fortaleza / Durou quase duas horas / Esse grande tiroteio / Do batalhão de soldados / Via-se um quadro feio / Formou-se um lago de sangue / E todos mortos no meio
Depois que cessou o fogo / Já no final da questão / Uma mulher traiçoeira / Agarrou um mosquetão / Fez pontaria certeira / No chefe do batalhão / Coronel Moreira César / Que a tropa comandava / Também morreu no combate / Quando já se retirava / Porém foi morto à traição / Quando menos esperava
Então o governador / Tomou uma decisão / Vendo que estava séria / Aquela revolução / Para o Ministro da Guerra / Apelou a solução / Veio o Ministro da Guerra / O Prudente de Morais / Com as forças do Exército / Homens de gênios brutais / Foram cinco mil soldados / E dois bravos generais
Levaram tanques de guerra / Canhão e metralhadora / Granadas e dinamites / As armas arrasadoras / E foram arrasar Canudos / Com ordens superioras / Mas Antônio Conselheiro / De mais a mais se aprontava / Jagunços pra lhe ajudar / Todos os dias chegavam / E ele bem prevenido / Por outro ataque esperava
Pelo grande batalhão / Canudos foi atacado / Fizeram uma circular / Conforme foi planejado / Com meia hora depois / Deixarem tudo arrasado / A igreja que estava / Em fase de construção / As paredes desabaram / Com os tiros de canhão / As casas pegaram fogo / Só se ouvia explosão
Desta vez também morreu / O Antônio Conselheiro / Que viveu com seus jagunços / Implantando o desespero / Findou-se aquele flagelo / Do Nordeste brasileiro / A TV Globo mostrou / Esta cena do passado / E eu em casa assisti / O fato dramatizado / E apresento também / No meu verso improvisado
Atualmente se vê / Onde foi o arraial / As águas de um açude / Cobrindo aquele local / Onde há anos se deu / Aquela cena fatal / Agora peço desculpas / Aos meus caros ouvintes / Levem este meu livreto /Vejam meus versos seguintes / Espero que os leitores / Sejam meus contribuintes





