Autores de Cordel - CORDEL - Apolonio Alves dos Santos - DISCUSSÃO DO CARIOCA COM O PAU-DE-ARARA

DISCUSSÃO DO CARIOCA COM O PAU-DE-ARARA

Apolônio Alves dos Santos

 

http://fernandod.com.br/images/textos/DISCUSSAO DO CARIOCA COM O PAU DE ARARA.jpgJá que sou simples poeta / poesia é meu escudo / com ela é que me defendo / já que não tive outro estudo. / Vou mostrar para o leitor / que o poeta escritor / vive pesquisando tudo.

 

Certo dia feriado / sendo o primeiro do mês / fui tomar uma cerveja / no bar de um português. / Lá assisti uma cena / agora pego na pena / para contar pra vocês.

 

Quando eu estava sentado / chegou nessa ocasião / um velho pernambucano / daqueles lá do sertão. / Com a maior ligeireza / foi se sentando à mesa / e pediu uma refeição.

 

O português logo trouxe / um prato grande sortido / o nortista vendo aquilo / ficou logo enfurecido / com um gesto carrancudo / começou mexendo tudo depois falou constrangido.

 

Patrício não leve a mal / nem me queira achar ruim / toda espécie de comida / que você tem é assim? / Desculpe minha expressão / mas a sua refeição / não vai servir para mim

 

Nesta hora o português / ficou zangado também / lhe respondeu ora bola / donde é que você vem? / Difamando deste jeito / me diga qual o defeito / que esta comida tem.

 

O nortista disse eu sofro / um ataque intestinal / a carne está quase podre / o arroz tem muito sal / o feijão está azedo / de comer eu tenho medo / que pode me fazer mal

 

O meu estômago não dá / pra receber este entulho / prefiro morrer de fome / mas não como este basculho / pois comendo sei que morro / lá no norte nem cachorro / não come todo bagulho

 

O português respondeu / você é péssimo freguês / vá embora e faz favor / não vir aqui outra vez / mas antes tem que pagar / não posso lhe perdoar / a desfeita que me fez.

 

O nortista disse eu pago / que isto não me embaraça / para você não pensar / que eu vim comer de graça / mas o nortista de nome / embora morra de fome / mas não come esta desgraça.

 

Acontece que ali / se achava um carioca / disse ele só conhece / farinha de mandioca / todo nortista poeira / só gosta de macacheira / girimum e tapioca.

 

Disse o nortista é por isso / que o nordestino é forçoso / porque no meu velho norte / se come pirão gostoso / com farinha de mandioca / aqui só dá carioca / doente tuberculoso.

 

C - Respondeu o carioca / não queira tanto agravar / seu nordeste é muito bom / mas lá ninguém quer ficar / deixou lá seu pé de serra / e veio pra minha terra / para poder escapar.

 

N - Aqui também me pertence / o nortista respondeu / eu sou nato brasileiro / o Brasil é todo meu / o homem precisa andar / para poder desfrutar / do país onde nasceu.

C - O carioca rompeu / nordestino é curioso / além de ter olho grande / é demais ambicioso / chega aqui se amaloca / na terra do carioca / doente tuberculoso.

 

N - Disse o nortista é porque / nosso Rio de Janeiro / precisa do nordestino / pois é um povo ordeiro / pra quem derrama suor / aqui no Rio é melhor / para se ganhar dinheiro.

 

C - Mas no Rio de Janeiro / tem operário de sobra / não precisa nordestino / vir aqui fazer manobra / nordestino é atrevido / aqui já é conhecido / por camundongo de obra

 

N - Você me diz isso tudo / pra me desclassificar / mas aqui as companhias / preferem mais empregar / os nordestinos que vem / pois carioca não tem / coragem de trabalhar

 

C.-  É porque o carioca / gosta da civilidade / não é defeito ninguém / viver da facilidade / pois ninguém não é cavalo / pra viver criando calo / sem haver necessidade

 

N.- O carioca só gosta / de viver da malandragem / do jogo e da bebedeira / do vício e da vadiagem / por isso o país da gente / não pode ir para a frente / por causa da pilantragem

 

C.- O carioca está certo / pensando assim pensa bem / o carioca não gosta / de ser sujeito a ninguém / nem dá valor a operário / que só vive do salário / luta muito e nada tem

 

N.- Já eu penso diferente / você precisa entender / que nosso mundo é composto / de tudo precisa ter / se não fosse o operário / o rico milionário / como podia viver?

 

C - Mas o nortista trabalha / porque é muito usurário / tem alguém que vem praqui / mas lá é proprietário / pois devido a ambição / enfrenta até fundação / com os olhos no salário

 

N.- É porque o nordestino / é um homem acostumado / a só viver do trabalho / não ignora o pesado / não é como o carioca / que só vive da fofoca / da malandragem e do fado

 

C.- Tinha graça o carioca / se misturar com cimento / como faz o nordestino / que chega ficar cinzento / carioca só procura / um emprego que figura / moral e comportamento

 

N.- Não é todo carioca / que tem a capacidade / de assumir um emprego / de alta dignidade / precisa de estudar / para assumir um lugar / de responsabilidade

 

C.- Você aí está certo / o estudo está na frente / porque o mundo ficou / para o mais inteligente / assim diz quem for ativo / o operário é cativo / num país independente

 

N.- Pois eu gosto do trabalho / e vivo sempre disposto / pois o homem que trabalha / a Jesus dá grande gosto / porque Deus disse a Adão / hás de ganhar o teu pão / com o suor do teu rosto

 

C.- Então você é Adão / que veio do paraíso / faça lá o que quiser / que de você não preciso / nem vou na sua maloca / porque sou um carioca / que honro o chão onde piso

 

N.- Nem de você eu preciso / que você é fracassado / pelos traços já se vê / que você é pé rapado / e quem fala deste jeito / só pode ser um sujeito / ignorante atrasado

 

C.- Disse o carioca eu vivo / com minha alma tristonha / vou embora para onde / o nordestino nem sonha / vou esconder minha cara / para este pau-de-arara / não me matar de vergonha

 

 

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