Período colonial - 1728 - MOTIM DO TERÇO VELHO - Salvador (Bahia)
1728 - MOTIM DO TERÇO VELHO
Salvador - Bahia
O Terço era uma organização militar da época colonial, constituída de companhias comandadas por capitães e contando cada uma com cem homens preferentemente brancos. Porém, como os voluntários eram poucos, as autoridades se viam obrigadas a recrutar os pardos, mulatos e mestiços.
Para isso, e sempre que necessário, eles abriam a temporada de “caça aos soldados” transformando desocupados, criminosos, desclassificados e marginalizados em defensores do sossego público. Tal forma de recrutamento, aliada às péssimas condições de vida a que tais homens ficavam sujeitos, acarretava altas taxas de deserção.
Essa situação foi descrita pelo comerciante Thomaz Lindley, primeiro inglês a descrever o Brasil da época. Suas opiniões a respeito foram colocadas em um diário que recebeu o nome de Narrative of a Voyage to Brazi e foi publicado em 1805. Sobre o cotidiano dos militares em questão, Lindley anotou que “Impressiona-me não a miséria, mas como podem sobreviver sustentando-se apenas de bananas e farinha, e comendo dois ou três peixes pequenos de vez em quando, pois o soldo não lhes permite melhor passadio [refeição].”
Uma dessas guarnições foi a do Terço Velho - assim denominada por ser a mais antiga da capital baiana -, aquartelada na fortaleza do Campo da Pólvora. Em 10 de janeiro de 1728 os soldados desse regimento se rebelaram contra o ouvidor geral do crime por este ter mandado encarcerar alguns de seus companheiros. A isso associavam as humilhações sofridas por eles, os baixos soldos pagos irregularmente pela coroa portuguesa, e os constantes deslocamentos da tropa. Reunidos na fortaleza, eles enviaram suas reivindicações ao vice-rei, Vasco Fernandes César de Menezes, 2º Conde de Sabugosa, que uma vez inteirado do que acontecia mandou que um sargento e dez soldados fossem prender os amotinados. E os acompanhou nessa missão, acreditando que sua presença imporia respeito e poria fim à rebeldia.
Ao chegarem ao quartel eles foram recebidos por amotinados que baixaram as armas ao reconhecerem o vice-rei, mas ouvindo deste a afirmativa de que seriam perdoados caso voltassem aos quartéis, enfureceram-se e recusaram-se a dialogar. O conde então retornou ao palácio, acompanhado de dois emissários da tropa rebelada, ouvindo deles que se não fosse concedido aos soldados tudo quanto eles pediam, o levante alcançaria maiores proporções.
A partir desse ponto o motim tornou-se mais violento. À meia-noite do dia imediato chegou a notícia de que soldados pertencentes ao Terço Novo, criado em 1631, tinham sido levados para o Campo da Pólvora, deixando feridos e mortos entre os que não aceitaram aderir à revolução. Ás duas horas da madrugada amotinados percorreram as ruas da cidade gritando frases curtas e apelativas. A essa altura, eles já reuniam em torno de seiscentos homens.
Diante dessa situação o vice-rei achou por bem prometer-lhes o atendimento das reivindicações feitas, inclusive concedendo perdão geral, documento que foi levado à casa do arcebispo para que este também o assinasse. O movimento terminou com os rebelados marchando até a casa do conde de Sanugosa, mantendo suas armas baixas, onde gritaram vivas ao rei. Em seguida rumaram para a capela do Rosário e ali rezaram uma salve rainha em ação de graças.
Outros, porém, eram os planos do conde. Pouco depois desse incidente ele distribuiu os homens do Terço Velho por diversas fortalezas e outros postos de guardas, com o objetivo de enfraquecer o grupo por meio dessas transferências. Depois, mandou desarmar a todos eles, ao mesmo tempo em que os colocava em reclusão até prender os líderes do movimento.
Ao final dessa operação, vinte e três dos revoltosos foram aprisionados. Cerca de dez deles receberam sentenças de morte, enquanto outros tiveram como castigo o degredo para Benguela, no oeste de Angola, na África. onde ficariam até a morte.
Quanto aos avaliados como de pouca culpabilidade, eles foram degredados para Angola e para o presídio do Morro. de Tibau, localizado na hoje cidade (e município) de mesmo nome, no litoral do estado do Rio Grande do Norte..
Com relação ao cabo de esquadra Antonio Pereira, um mulato mais conhecido como Barriga de Areia, e também o soldado Anastácio Pereira, os dois foram responsabilizados como principais cabeças do movimento sedicioso. Por isso foram executados em forcas individuais montadas na entrada da fortaleza do Campo da Pólvora, onde tiveram a cabeça e um quarto do corpo deixado em exposição, enquanto os outros três quartos ficaram pendurados nas Portas de São Bento, do Carmo e do arsenal da Marinha.
Para servir de exemplo a quem mais porventura alimentasse as mesmas idéias que conduziram os infelizes revolucionários ao seu triste destino.





