Curiosidades - ENGANANDO OS PREDADORES
Mimetismo é a qualidade ou propriedade que alguns animais têm de tomar a cor ou a configuração dos objetos do meio em que vivem (ou de qualquer ser pertencente a esse meio), e se constitui em um procedimento vantajoso para a espécie que a possui porque a torna menos suscetível ao ataque de inimigos. Existem diversas teorias sobre o mimetismo, sendo freqüente a explicação de que essa defesa natural se tenha fixado em determinadas espécies graças à seleção natural. A camuflagem empregada com tanta freqüência nas guerras modernas parece ser uma imitação direta do mimetismo animal.
O recurso de evitar predadores fingindo ser uma coisa perigosa é conhecido como mimetismo de Bates, um padrão de comportamento descoberto por Henry Bates (1825-1892), entomólogo e naturalista inglês que durante os onze anos em que se dedicou a pesquisas no Brasil enviou para o seu país cerca de 14.712 exemplares diferentes de insetos, sendo 8.000 deles de espécies até então desconhecidas. A primeira vez em que este pesquisador se deu conta de que alguns animais agiam dessa forma aconteceu quando estudava as borboletas. Mas ele não precisava ir tão longe para constatar tal fato, porque certas moscas européias imitam tão bem a abelha mamangava que é difícil perceber a diferença entre os dois insetos.
No mundo animal, o pássaro picado por uma abelha fica traumatizado com a dolorida experiência e evita chegar perto de outra – ou mesmo de qualquer inseto que se pareça com ela. Por ser muito parecida com essas pequenas produtoras de cera e mel, a mosca-zangão, também conhecida como mutuca, ou motuca - cujas fêmeas hematófagas incomodam homens e animais com suas picadas dolorosas - consegue enganar quase todos os passarinhos. E se fica no quase, é porque os papa-moscas, aves pertencentes a uma família distribuída em várias espécies, as comem sem qualquer preocupação, como fazem normalmente com qualquer abelha (na ilustração acima, um pássaro quase não é percebido entre os galhos).
Alguns animais aprendem não apenas a se parecer com determinadas espécies perigosas, mas também a agir da mesma forma que elas O besouro-vespa, por exemplo, integrante de uma família que possui 300 mil espécies diferentes espalhadas pelo mundo (no Brasil são registradas cerca de 30.000 espécies de besouros distribuídas em 109 famílias), além de ter as cores alarmantes de uma vespa, imita o seu padrão de vôo zumbindo vigorosamente pelas folhas. Diversas mariposas reproduzem da mesma forma sua aparência e comportamento, zumbindo, também, enquanto voam. Um tipo de grilo da América do Sul vai ainda mais longe, pois além de adotar a coloração amarela e preta como disfarce, caminha em cinco patas enquanto estica a sexta atrás do abdome, para que ela possa dar a impressão de que é o tubo de ovos da vespa. Alguns bichos-pau usam técnica semelhante – arqueiam o abdome para parecerem escorpiões agressivos.
Muitas cobras da América Central e do Sul têm listras em preto, vermelho e branco. Algumas delas, como a cobra coral (ilustração ao lado), são altamente venenosas, mas as conhecidas como falsa coral têm uma picada que apesar de dolorosa, não é letal. Cientistas acreditam que as corais mortíferas imitam as cores das não-mortíferas, porque quando um predador (como uma ave de rapina) é picado por esta última, aprende a evitar cobras que tenham a mesma coloração. É bem pouco provável, portanto, que a imitação se dê no outro sentido (a falsa imitando a verdadeira), já que a mortífera, quando atacada, ou mata, ou morre.
Impostores são encontrados por toda parte, até nas áreas mais profundas do oceano. Peixes inofensivos às vezes se fantasiam de vizinhos venenosos, como os inofensivos cangulos (entre os quais estão incluídos o peroá, ou piruá, muito apreciado no Espírito Santo, e o peixe porco), que vivem nos locais rochosos situados em águas tropicais. Alguns deles passeiam em meio aos corais em relativa segurança depois de adotarem a coloração de certos peixes venenosos. Em determinados casos, a única diferença aparente entre eles é a nadadeira dorsal: enquanto nos venenosos ela é curta e grossa na parte inferior das costas, a dos cangulos é transparente e percorre quase toda a espinha. Acontece que os cangulos são desprovidos do veneno que torna mortais esses vizinhos tanto para humanos como para os outros peixes, mas como os predadores não sabem disso, tratam de manter distância dos cangulos, cujo mimetismo só é eficaz quando eles estão em menor número que os outros a que imitam. Quando um predador encontra imitadores demais, dificilmente é enganado por eles.
Segundo o biólogo Atila Iamarino, o fenômeno do mimetismo batesiano “ocorre quando uma presa inofensiva imita uma presa perigosa tirando proveito da 'fama' entre os predadores. O caso mais estudado é o mimetismo entre borboletas, como a da borboleta monarca. Dona de um gosto (sabor) muito amargo, ela é evitada por diversas aves, e tem o seu padrão de cores e desenho imitados por outras borboletas que não são venenosas”.
Esclarecendo melhor essa sua definição, ensina o referido bacharel em Ciências Biológicas que dois fatores contribuem para que o predador seja enganado mais facilmente: enquanto o homem tem tempo e calma para examinar e analisar uma foto, por exemplo, esse nem sempre é o caso do predador, que não dispõe dessas facilidades para decidir o que fazer de imediato. E colocando o ser humano nessa situação, o biólogo argumenta: “Basta pensar numa mosca com um disfarce bem ruim, mas com as cores preta e amarela, vindo em sua direção. Mesmo não tendo certeza de que é uma vespa, te garanto que você vai evitá-la”.
Concluindo o raciocínio, Átila Iamarino sustenta que “em conseqüência do problema acima, e de forma a evitar o gasto de energia, muitos predadores utilizam a categorização”, afirmativa que significa simplesmente o seguinte: toda presa cujo formato ou cor lhe traga a sensação de insegurança, ou perigo, deve ser evitada.
Fonte: Segredos do Mundo Animal





