Esopo - GATO E O PAPAGAIO, O
Um lindo papagaio foi oferecido ao homem que passeava na feira. O vendedor, como era de se esperar, foi pródigo na argumentação com que tentava convencer o comprador em mira, mas dos predicados atribuídos ao pássaro que pretendia passar adiante, dois conseguiram despertar o interesse do cidadão consultado: primeiro, o de que a ave falava muita coisa, talvez até demais; e segundo, o de que ela era caseira, ou melhor dizendo, que não se aventurava em saídas para o exterior mesmo encontrando portas ou janelas abertas, preferindo o conforto e a segurança do confinamento interno.
Negócio fechado, o cidadão levou o papagaio para sua residência, onde o soltou na sala de jantar. A partir daí, e como desfrutava de total, completa e absoluta liberdade, o novo morador cuidou primeiro de inspecionar detidamente o lar que ganhara de mão beijada, e para isso percorreu todos os cômodos, um a um, examinando-os inicialmente com cuidado e atenção, e depois comentando em voz rouca e alta o que achava de cada uma das peças vistoriadas. “Currupaco, esse é legal”; “Currupaco, ganhei na loteria, gente”, e outras frases assemelhadas. E assim o tempo foi passando, e o papagaio não encerrava o seu falatório.
Quando, por fim, ele chegou à cozinha e soltou um “Vamos ver como é esse aqui”, um gato que parecia dormir na cestinha colocada debaixo do guarda-comida, levantou a cabeça e reclamou indignado:
- Quem é você, afinal? Qual foi o bicho que lhe mordeu? Trate de fechar essa boca porque eu já estou cansado de ouvir a sua voz.
- Eu sou o papagaio, devolveu a ave. Cheguei agorinha mesmo, e para falar a verdade, faço todo o barulho que posso.
- Pois então você vai ter que mudar esse sistema, retrucou o gato. Vivo nessa casa desde que nasci, e uma das coisas que minha mãe me ensinou foi que para morar aqui, o melhor é ficar calado. Entendeu?
Ouvindo isso, o papagaio ponderou:
- Pois então fique calado, amigo. Não sei qual é a sua função nesta casa, mas quanto a mim, sei muito bem o que devo fazer. Meu dono me trouxe para cá por causa da minha voz, e por isso eu quero ter certeza absoluta de que ele está me ouvindo.
Moral da história: Quando as pessoas são diferentes, devem ser avaliadas de forma diferente.
Baseado em uma fábula de Esopo.





