Hans Christian Andersen - SALTADORES, OS

Um dia, sabe-se lá por que razão, os bichos da floresta começaram a discutir sobre quem pulava mais alto: se a pulga, se o gafanhoto ou o grilo. Também não se conhece o motivo pelo qual esse desencontro de opiniões foi indo num crescendo, crescendo, crescendo, a tal ponto que a certa altura o macaco e o tamanduá tencionaram resolver suas divergências no tapa. O fato é que depois disso o leão, como rei que era, decidiu intervir para apaziguar os ânimos, já que não lhe convinha a continuidade daquele espírito belicoso entre os seus súditos. E decretou, então, que a resposta para a dúvida geral se tornaria conhecida em concurso de saltos promovido pela toca real, cujo vencedor receberia como prêmio a mão da princesa leonina. E explicou: “Darei minha filha em casamento a quem saltar mais alto, porque toda competição precisa oferecer alguma coisa ao ganhador. Se não for desse jeito, jamais conseguiremos despertar o interesse de qualquer candidato!”

 

Ficou decidido, então, que dali a dois dias, tão logo o sol surgisse no horizonte, a prova seria realizada na clareira da floresta, com entrada franca para quem quisesse assisti-la. E foi o que aconteceu.

 

No dia previsto, tão logo o tucano vigia gritou do último galho da árvore mais alta que o sol estava botando o nariz para fora do horizonte, o pulgo, marido da pulga, foi o primeiro disputante a ser anunciado. Dono das boas maneiras aprendidas com sua finada mãe - que passara a maior parte da vida entre as criaturas humanas -, ele cumprimentou com elegância o público presente, e em seguida acomodou-se no lugar que lhe fora previamente determinado. Depois, foi a vez do gafanhoto, coberto de alto a baixo por um impecável uniforme verde. Bem mais desinibido em seu porte e fala, este se apresentou como descendente de uma antiga família do Egito faraônico, tendo, portanto, linhagem nobre, mas foi logo interrompido pelo apresentador, o tatu, que tratou de levá-lo imediatamente para o seu canto. Por fim anunciaram o grilo, mas quando todos esperavam do mesmo alguma frase ou atitude marcante, ele passou calado diante da platéia, o olhar fixo num ponto qualquer do arvoredo, posicionando-se no lugar que o tatu havia lhe indicado com um discreto virar de olhos.

 

Com todos os competidores em seus respectivos lugares, o leão autorizou o início das provas. O pulgo foi o primeiro a pular, e saltou tão alto que ninguém, a bem da verdade, conseguiu ver qual a marca do cipó medidor que ele havia alcançado. Por causa disso uma enorme discussão explodiu entre os assistentes, a maioria dizendo que o “chupador de sangue” sequer havia saído do chão, embora alguns poucos garantissem que ele tinha ido muito além do ponto que qualquer um poderia imaginar. Mas que ponto era esse? – foi a pergunta quase unânime. Ninguém sabia dizer, nem muito menos sugerir, e por causa dessa ignorância irremediável ele foi sumariamente desclassificado pelo rei.

 

O gafanhoto foi o seguinte. Ele não subiu muito, não, mas como o seu salto pendeu para o lado, meio descontrolado, isso o fez pousar na testa do leão. Surpreendido pelo impacto, sua majestade deu uma patada tão forte no local da descida inesperada que ele próprio ficou atordoado, mas recuperando-se rapidamente olhou em volta, e quando percebeu que o gafanhoto havia escapado ileso daquela perigosa aterragem, tratou também de eliminá-lo do concurso. Afinal de contas, a imagem real não pode ser transformada em motivo de chacota por parte do populacho. Ela precisa ser preservada a qualquer custo.

 

O derradeiro concorrente foi o grilo. Seu salto não teve nada de espetacular, não chamou a atenção de ninguém, não provocou qualquer tipo de controvérsia, mas acontece que ele desceu exatamente entre as duas mãos peludas da filha do rei. A leoazinha encontrava-se confortavelmente instalada sobre as almofadas de relva macia que as damas da corte haviam preparado para ela, e quando o grilo ajeitou o corpo após a descida, e a encarou confiante, ambos sorriram satisfeitos um para o outro. O rei, que a tudo presenciara, aproveitou a deixa e declarou incontinenti:

 

- O salto do grilo foi o vencedor, porque o fato dele ter acertado a minha filha significa um delicado cumprimento feito pelo competidor à casa real. Só quem tem cabeça, e a usa para pensar, pode imaginar algo tão importante, tão decisivo, e é por isso que eu o declaro vencedor da competição, entregando-lhe, ao mesmo tempo, o prêmio a que faz jus. Tenho dito! 

 

A respeito desse caso, conta-se ainda que o pulgo mudou-se com a família para os Estados Unidos, em busca de melhores oportunidades de emprego, ou outra coisa qualquer; que o gafanhoto se mantém inconformado com a perca da grande oportunidade surgida em sua vida, razão pela qual até hoje continua cantando suas mágoas, escondido em meio à vegetação. Quanto ao grilo e a filha do leão... , eles vão bem, obrigado, embora tenha gente que continua batendo o pé de teimosia, garantindo que a história dos dois jamais poderia ter acontecido. Como eu não quero discussão...

 

 Moral da história: A cabeça não foi feita só para usar chapéu. Portanto, ponha-a para funcionar, e ela lhe será muito útil.

 

Baseado em uma fábula de Hans Christian Andersen 

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