Extintos - AUROQUE

O auroque, também conhecido como uro, foi extinto em 1627, quando seu último exemplar foi caçado na floresta de Jaktorowka, na Polônia. Ele vivia, em épocas pré-históricas, desde Portugal à Coréia e da Sibéria à Índia, mas com o passar do tempo seu habitat foi sendo paulatinamente restringido a zonas do sul e do centro da Europa.

 

Conhecido pelo homem desde a Pré-História, ele era um animal que chegava aos dois metros de altura, pesava quase uma tonelada e tinha chifres de 1,40m de comprimento, sendo representado em cenas de caçadas nas pinturas rupestres encontradas em cavernas. Supõe-se que linhagens mais dóceis desses animais teriam sido domesticadas dando origem ao boi-europeu (Bos taurus). A causa de sua extinção foi a caça feita pelo homem durante milênios.

 

Depois de surgir na Ásia, o uro começou a migrar para a Europa 320 mil anos atrás, muito antes do início da migração humana para a região. Mas foi somente há 80 mil anos que esse animal criou raízes no continente, atraído pelo solo coberto por estepes e pradarias. Há 8 mil anos, o boi primitivo foi domesticado nas margens do mar Cáspio, no Irã. Ele também se desenvolveria 5 mil anos atrás no norte da África, no vale do rio Nilo, pelas mãos dos egípcios.

 

Fósseis encontrados na Itália, nos sítios arqueológicos de Potenza, Macerata, e Ancona, revelaram a presença do auroque no continente durante o período compreendido entre 7 e 4 mil anos antes de Cristo. Mas esses exemplares já tinham chifres e corpo menores do que o uro primitivo. A passagem do animal pela Europa também está registrada em pinturas rupestres. As cavernas de Lascaux na França e de Altamira na Espanha trazem desenhos que revelam as características físicas do uro. As dimensões e os detalhes do boi primitivo também podem ser observados em objetos de civilizações antigas, como a grega e a etrusca.

 

Os primeiros testemunhos escritos sobre o boi selvagem são de Plinius e Columella, autores de tratados sobre a vida na cidade romana, no primeiro século da era Cristã. Eles faziam referências aos bois como importante força de trabalho local. Em sua narração das guerras gálicas, o líder romano Júlio César descreveu o boi primitivo como "um pouco menor do que um elefante, mas de cor, aparência e formato de um touro". "Sua força e velocidade são extraordinárias", escreveu.

 

Agora, cientistas italianos querem criar um animal semelhante a ele. Os pesquisadores acreditam que por ser muito resistente a condições adversas como frio, calor e pouca oferta de alimento, o auroque pode ser muito útil para a humanidade em tempos de aquecimento global. Para ressuscitá-lo, os cientistas do Consórcio para a Experimentação, Divulgação e Aplicação de Biotecnologia Inovadora de Benevento, no Sul da Itália, pretendem cruzar três raças de bois similares ao auroque até chegar a um exemplar com DNA quase igual ao dele.


As pesquisas com os fósseis do auroque começaram em 1996. Depois de mapearem seu DNA a partir dos ossos, os cientistas identificaram quais raças atuais de bois mais se assemelham ao ancestral primitivo. Os resultados dessa análise levaram a pesquisadora holandesa Henri Kerkdijk, do instituto Stichting Tauros, que também participa do projeto, a propor o cruzamento entre três raças: a italiana Maremmano Primitivo, a escocesa Scottish Highland e a espanhola Pajuna. Os cientistas italianos estão agora contando os dias para o nascimento do primeiro exemplar gerado a partir do cruzamento das três raças. O bezerro está programado para nascer em fevereiro de 2010, na Holanda.

 

"Vamos reconstituir, passo a passo, a combinação genética do boi primitivo. Esse é um primeiro cruzamento de uma série. Esse animal recém-nascido vai nos dar material para usar em futuros cruzamentos", explicou à BBC Brasil, Donato Matassino, diretor do Consórcio que encabeça o projeto. "Vai levar alguns anos para chegar ao animal mais próximo do boi ancestral. Além dos cruzamentos naturais podemos usar também diferentes técnicas, como a inseminação artificial, a produção de embrião in vitro e, eventualmente, a clonagem", disse Matassino.

 

Os cientistas italianos resolveram ressuscitar o auroque devido à sua resistência e a sua capacidade de adaptação. Eles dizem que o boi primitivo pode sobreviver em terrenos com oferta pobre de alimentos. Sua crença se baseia no fato de que o uro superou períodos glaciais e percorreu milhares de quilômetros até se estabelecer na Europa. Hoje, existem raças de gado de criação intensiva que produzem mais leite e carne do que o auroque, mas elas exigem pastagens e cuidados muito mais complexos.

 

Antes dos italianos, os nazistas também tentaram ressuscitar o auroque. Por causa de sua resistência, eles acreditavam que poderiam utilizá-lo para habitar os territórios conquistados no leste europeu.

 

Fonte: Jornal Folha de São Paulo, edição de 01/02/2010.

 

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