La Fontaine - MÉDICOS, OS

Dois médicos foram chamados para tratar do mesmo paciente. O primeiro a chegar foi o conhecido como Tanto-Pior, que examinou o acamado e concluiu que pouco havia a fazer, já que o coitado vivia seus últimos momentos.

 

Logo em seguida apareceu o outro doutor ao qual se dava o nome de Tanto-Melhor, que entrou no aposento onde jazia o suposto moribundo, observou-lhe o fundo dos olhos, tomou-lhe a temperatura, contou o número de pulsações, auscultou seus pulmões e coração, e por fim asseverou que ao contrário do que dissera seu colega de profissão, o desenganado haveria de se salvar.

 

Daí em diante a situação se complicou porque enquanto o Tanto-Pior receitava a aplicação de calmantes, o Tanto-Melhor prescrevia o uso de excitantes, e como os dois não se entendiam, permaneceram em aceso debate por longos minutos, até que lhes chegou a informação de que o infeliz entregue aos seus cuidados não resistira ao mal que o acometera e acabara falecendo.

 

A funesta notícia provocou nova onda de acusações entre os dois clínicos, pois enquanto o Tanto-Pior alegava que o doente falecera porque não tomara os remédios que ele, doutor, lhe prescrevera, o Tanto-Melhor rebatia garantindo que a não aplicação dos medicamentos indicados por ele é que haviam contribuído de forma decisiva para o óbito.

 

E como nada mais poderia ser para consertar a situação, os médicos se retiraram depois de devidamente pagos pela consulta domiciliar, mas na hora de deixar a residência enlutada o Tanto-Melhor ainda encontrou tempo para segredar à viúva que a causa daquele triste desfecho tinha sido o fato do adoentado ter caído primeiramente nas mãos do Tanto-Pior.

 

Moral da história:  Se tens saúde, agradeça aos céus pela fortuna que guardas em teu corpo.

 

Baseado em uma fábula de La Fontaine.

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