La Fontaine - CARVALHO E A CANA, O
O pé de cana tinha crescido ao lado de um carvalho com quase trinta metros de altura. Extremamente vaidoso do porte magnífico e robustez extraordinária que apresentava, qualidades de que nenhum outro vegetal da região conseguia aproximar-se, ele um dia examinou com mais atenção a esguia e frágil cana que vivia a seu lado, e não contendo a soberba comentou com desdém:
- Tenho pena de ti, pobre coitada, pois és tão delicada que até mesmo um pássaro pequeno pousando em tuas folhas, fará com que te curves. Isso para não falar da brisa que passa por aqui, pois enquanto ela apenas encrespa as águas do regato aí ao lado, logo te enverga a ponto de quase quebrar tua espinha, obrigando-te a um grande esforço para resistir ao seu sopro. Mas eu ergo minha fronte com orgulho porque nem os raios do sol conseguem passar por mim para alcançar ao chão abaixo da minha copa, e por isso te digo que se tivesses nascido sob minha ramagem, que encara qualquer vento como se ele fosse o zéfiro suave das bandas ocidentais, estarias a salvo das correntes de ar que por amenas que sejam, mais te parecem verdadeiros vendavais.
E o pé de cana respondeu:
- Percebo por tuas palavras que tens um bom coração, mas digo que a preocupação que demonstras ter comigo não é necessária porque, como diz o ditado, eu apenas envergo, mas não quebro. Foi assim que a natureza me criou. Por isso, nobre carvalho, perdoa meu atrevimento se ouso chamar tua atenção para o fato de que até aqui tens resistido muito bem aos ventos mais fortes que vêm do norte, mas não te esqueças de que atrás do tempo, tempo vem.
Não demorou muito para que o deus Bóreas, em dia de furor, despejasse sua ira sobre a terra, e então o vento norte soprou com tamanha intensidade que o orgulhoso carvalho não resistiu à sua força e tombou vencido, deixando à mostra as raízes que antes mergulhavam solo à dentro. Mas com a frágil cana nada aconteceu porque quanto mais o furacão soprava descontrolado, destruindo tudo o que lhe oferecia resistência, mais ela se dobrava para permitir a sua passagem.
Moral da história: Não se machuca quem se abaixa quando a onda investe sobre ele.
Baseado em uma fábula de La Fontaine





