La Fontaine - CAVALO E O LOBO, O

O tempo era de primavera. Sob o sol de meio-dia o cavalo fartava-se com a relva que cobria bom trecho das margens do ribeirão que passava por ali, sem perceber que a certa distância, escondido entre os arbustos que lá se amontoavam, um lobo o observava com interesse. Mal intencionada, a fera resmungava entre os dentes:

 

- Ah, que belo animal! Se fosse um carneiro, um bezerro, ou até mesmo um burro, e certamente já estaria passando pela minha goela. Mas é um cavalo grande, com patas poderosas que eu preciso evitar a qualquer custo, sob pena de me dar muito mal. Por isso vou ter que enganá-lo.

 

E saindo do bosque com o jeito inocente dos que nada devem, ou temem, aproximou-se do cavalo e lhe disse: - Salve, companheiro! Prazer em ver-te neste dia radiante. Como sei que não me conheces, deixe-me dizer-te que os deuses deram a mim o poder da curar os males físicos fazendo-me conhecedor das virtudes das ervas, do alívio que elas são capazes de proporcionar aos que padecem de qualquer enfermidade. Por isso corro o mundo preocupado apenas em socorrer a quem precisa de socorro, e como certamente tens algum problema de saúde, eu me prontifico a curá-lo de graça, pois o dom que me foi concedido pelos deuses precisa ser distribuído aos necessitados sem que receba em troca qualquer tipo de remuneração.

 

O cavalo, que já ouvira falar da malícia do impostor, respondeu: - Que os deuses sejam louvados, doutor, pois estás chegando em hora muito boa. Já faz alguns dias que mal consigo suportar a dor de um tumor nas unhas dos pés, e o pior é que não sei o que fazer para livrar-me desse padecimento.

 

- Pelo que vejo seu caso só vai poder ser resolvido com cirurgia – observou o lobo. - E como nesse ramo eu tenho muita prática, vamos já resolver o seu problema.

 

- Pois não, doutor – concordou o cavalo. – Se é pra ser assim, então vou te dar as costas para que possas examinar meus pés com mais cuidado.

 

- Ótimo, meu caro – murmurou o lobo. E se aproximou do falso enfermo sem maiores cuidados. Mas assim que o fez, este lhe deu dois coices violentos que o atingiram em cheio no focinho, transformando-o de imediato numa bola enorme.

 

Assustado e dolorido o lobo se pôs em fuga o mais depressa que pôde, mas enquanto corria para bem longe, dizia a si mesmo: - Bem feito! Quem me mandou ser tolo? De querer passar pelo que não sou. Resultado: fui buscar lã e saí tosquiado.  

 

Moral da história: Esperteza, quando é demais, acaba sempre dando mal resultado.

 

Baseado em uma fábula de La Fontaine


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