Leonardo da Vinci - AMOREIRA, A

Naquele ano a amoreira carregara seus galhos com uma quantidade de frutos como antes jamais conseguira produzir. Isso a deixou muito vaidosa e orgulhosa, mas por pouco tempo, pois assim que as amoras começaram a amadurecer esse sentimento transformou-se em tristeza: quando os melros chegaram em bandos atrás do alimento farto, e iniciaram o seu afã coletivo, eles não só colhiam o que procuravam, mas também derrubavam folhas com os bicos e estragavam os ramos mais delicados com as patas.

 

Inconformada, a amoreira ponderou a um dos pássaros que participavam daquele aparente festival:

 

- Por favor, caro melro, tenha mais cuidado com as minhas pobres folhas. Eu sei que você e seus companheiros apreciam os meus frutos, mas para colhê-los não é necessário que me deixem desfolhada e desprotegida contra os raios de sol. Peço-lhe, também, que tomem mais cuidado com meus ramos mais novos, evitando quebrá-los, pois eles me serão necessários dentro de pouco tempo.

 

Ouvindo essas palavras, o melro interpelado retrucou zombeteiro:

 

 

- Ora, ora!... Feche essa boca, amoreira! Caso você não saiba, aprenda que se a natureza a criou foi apenas para que eu e os da minha espécie pudéssemos nos alimentar. Entendeu? E além do mais, acho que você precisará contar com muita sorte para não ser transformada em lenha no próximo inverno.

 

Magoada, a amoreira chorou em silêncio, enquanto os passarinhos continuavam servindo-se gulosamente dos seus pequenos frutos. Algum tempo depois o melro insolente foi apanhado em uma armadilha, e então o homem que preparara a arapuca colocou-o em uma gaiola cujas barras haviam sido feitas com a madeira que ele retirara da amoreira. Ao vê-lo chegar daquela forma, disse-lhe a árvore:

 

- Ora, ora, meu caro melro falador, pois não é que nos encontramos novamente! Ontem, você vivia solto e me importunava com seus atrevimentos, mas agora são meus galhos que lhe tolhem a liberdade. Sua profecia de que eu seria consumida pelo fogo felizmente não aconteceu, mas agora, para sua infelicidade, estou lhe vendo prisioneiro nessa minúscula gaiola. A vida é mesmo um mistério.  

 

Moral da história: Seja previdente no que faz e no que diz, pois ninguém sabe dizer como será o dia de amanhã.

 

Baseado em uma fábula de Leonardo da Vinci

 

Deixe um comentário:

  

      

  

caracteres restantes.


Comentários:


Nenhum comentário.