La Fontaine - VISTA DE QUEM É DONO, A

Os cães de caça descobriram o veado - apesar dele ter se escondido o melhor que pode - e imediatamente começaram a persegui-lo. Correram daqui, correram dali, subiram morro, desceram morro, até que o apavorado fugitivo chegou ao curral de uma fazenda onde alguns bois se encontravam fechados. Sentindo-se exausto em virtude do esforço que fora obrigado a fazer, o veado pensou em ficar ali mesmo para se proteger do perigo que o ameaçava, mas um dos bois, em nome dos demais, lhe mandou seguir o seu caminho, em busca de outro abrigo. O veado retrucou pedindo que tivessem dó dele, pois alguns cachorros que o procuravam pelas redondezas o matariam caso o encontrassem, e em troca prometeu lhes mostrar um lugar aonde a pastagem era viçosa e abundante. Diante disso os bois se calaram.

 

Logo depois alguns empregados da fazenda vieram colocar feno nos cochos; os rapazes entraram e saíram do curral sem notarem a presença do hóspede, e este, julgando-se finalmente livre de qualquer risco, pôs-se então a comer da ração volumosa que havia sido servida pelos moços. Mas um dos bois achou por bem alertar o veado sobre o perigo que corria, dizendo que como o homem dos cem olhos ainda não havia vindo naquele dia, quando ele chegasse certamente o descobriria, e aí então... pobre de ti!,... foram as suas palavras.

 

Nem bem o boi acabou de falar e o dono da fazenda chegou ao curral com os seus ajudantes, para ver os animais que ali estavam confinados.  Examinando com atenção tudo o que via, o fazendeiro foi criticando acerbamente o que não julgava certo - a canga no chão, a ferramenta fora de lugar, e outras coisas mais -, até que ao chegar ao cocho ele comentou:

 

- O cocho está com pouco feno. Mas espera... Aqui há uma outra boca!

 

E olhando em volta avistou a um canto, por detrás dos bois que ali se haviam amontoado, os galhos de chifres do infeliz acuado, que dessa forma procurava passar despercebido. O fazendeiro não hesitou: enquanto resmungava “- Então é você que esta roubando a comida dos meus bois! Espera aí!”, ele pegou um forcado, e com esse instrumento matou  o malfadado veado.

 

Moral da história:  Para enxergar bem não há nada como o olhar do próprio dono.

 

Baseado numa fábula de La Fontaine

 

 

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