Leonardo da Vinci - RAPOSA E O ESQUILO, A

Certo dia, uma ventania forte corria pela floresta derrubando galhos, folhas e arbustos mais fracos, sem encontrar pela frente um obstáculo que lhe refreasse o ímpeto. Em certo trecho dessa mata fechada uma raposa e um esquilo procuravam se abrigar da tormenta bem perto um do outro, ela deitada por trás de algumas pedras amontoadas ao pé da árvore em que ele se mantinha com esforço nos galhos mais altos, agarrado aos mesmos em um abraço tão forte que parecia até não poder mais ser desapertado. Em meio às seguidas lufadas do vento, dizia a raposa:

 

- Desconfio que você aí, no cocuruto da árvore, está preparando o caixão em que o seu corpo certamente vai acabar repousando. Vejo, também, que sua cauda procura lhe proteger o rosto, mas de que adianta isso se a borrasca o atinge em cheio, se o raio é o vizinho incômodo que a qualquer momento pode lhe fazer uma visita indesejada, se não existe nas alturas aonde meu pobre companheiro pretensamente tenta se esconder, algum lugar seguro que o deixe a salvo dos golpes com que a mãe natureza procura atingi-lo sem dó nem piedade. Foi você quem quis viver aí em cima, não foi mesmo? Pois se deu mal, meu caro! Enquanto eu, resguardado por essas benditas pedras, posso esperar sossegado que o tempo ruim se canse e vá embora para outras paragens, aproveitando essa folga para saborear as duas galinhas que peguei naquela fazenda que fica aqui pertinho, o que, aliás, vou começar a fazer agora mesmo.

 

E começou, realmente, a devorá-las. Nesse entremeio a tempestade chegou ao fim, a bonança retornou àquelas paragens, do que se aproveitou o fazendeiro para sair à caça da raposa que lhe visitara a propriedade e de lá roubara duas galinhas. E tendo descoberto o seu rastro logo lançou os seis sabujos que possuía em perseguição à predadora, mas esta, pressentindo o perigo que a rondava, se pôs em fuga desabalada, procurando colocar-se a salvo dos inimigos que a buscavam.

 

Do alto da árvore, o esquilo a tudo assistia. E muito embora pudesse divertir-se com aquela mudança de situação, ou até mesmo sentir-se reconfortada pela agonia que certamente passara a oprimir o peito da raposa, não conseguiu fazê-lo, uma vez que não lhe saía da mente o grande susto pelo qual havia passado alguns momentos antes.

 

Moral da história: Não deseje aos outros aquilo que você não deseja para si mesmo.

 

Baseado em uma fábula de Leonardo da Vinci


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