Brasileiras - ARCOS DA LAPA - Rio de Janeiro

Em 1565 os moradores da cidade do Rio de Janeiro valiam-se de uma lagoa existente entre a orla marítima e o atual Largo da Carioca para atender suas necessidades de água potável. Como esta não era de boa qualidade, os que dela se serviam achavam que seria melhor aproveitar as de um rio que descia a serra pelos lados do atual Cosme Velho e desaguava na praia junto ao morro hoje chamado de “da Viúva”, próximo ao lugar onde os primeiros exploradores portugueses haviam construído uma casa de pedra batizada pelos índios tamoios de kari oca, a casa de branco.

 

Posteriormente, quando assumiu o governo da capitania em 1602, Martim Corrêa de Sá (1575-1631), filho de Salvador Corrêa de Sá, também concordou com a idéia de que o problema da escassez de água na cidade poderia ser resolvido caso fosse possível fazer chegar até ela as do rio Carioca, que se misturavam às do mar a uma distância relativamente curta das casas onde moravam. Animado, ele encomendou os estudos necessários, mas apesar da boa intenção que o motivava, permaneceu até 1608, final do seu mandato, sem receber qualquer informação ou sugestão a respeito. Renomeado para o posto em 1618, no qual permaneceu até 1632, ano em que morreu, Martim Corrêa de Sá reavivou o projeto e entregou sua execução a um renomado construtor em Portugal, mas este ficou apenas no compromisso assumido.

 

Nos anos seguintes pouca coisa foi feita nesse sentido, até que em 1706 o governador Fernando Martins Mascarenhas Lancastro (1705-1709), decidido a encarar o problema com atenção, deu novo impulso às obras. Mas ainda era pouco. Em 1718, Antônio de Brito Freire de Menezes (1717-1719), iniciou a instalação dos canos de água através da antiga rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga). No ano seguinte, quando o encanamento alcançava o Campo da Ajuda (atual Cinelândia), situado ainda nas cercanias da cidade, Aires de Saldanha de Albuquerque Coutinho Matos e Noronha, o novo administrador (1719-1725), decidiu alterar o projeto original e prolongá-lo até o Campo de Santo Antônio (atual Largo da Carioca), optando pela construção de um aqueduto ligando o morro do Desterro (atual morro de Santa Teresa) ao morro de Santo Antônio. Essa obra ficou pronta em 1723, e por ela as águas boas chegavam ao chafariz da Fonte da Carioca, sendo ali distribuídas à população (na ilustração, pintura sobre tela de Thereza Toscano).

 

Mas apesar das comemorações, os problemas não haviam terminado, já que em 1727 começaram a surgir reclamações contra a falta d’água. Apurou-se então que o problema resultava dos canos quebrados propositadamente por escravos fugitivos que viviam ocultos nas matas (os quilombolas), através dos quais o líquido se perdia no meio do caminho, e por essa razão as autoridades estabeleceram penalidades para os que praticassem quaisquer atos que acarretassem prejuízos ou estragos à obra. Mais adiante, em 1744, o governador Gomes Freire de Andrade (1733-1763) iniciou a remodelação do aqueduto originalmente construído em madeira e por isso mesmo pouco resistente, utilizando para tanto o granito do país. Sua conformação, feita em arcaria de pedras rejuntadas com argamassa de cal, areia e azeite de peixe, é atribuída ao brigadeiro José Fernandes Pinto Alpoim, arquiteto português responsável por várias outras obras importantes no Brasil, como a edificação do Convento de Santa Teresa, do convento da Ajuda, da Casa dos Governadores (Paço Imperial), da Igreja de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte, das casas de Teles de Meneses no Largo do Carmo (incluindo o Arco do Teles, atual Praça XV de Novembro), do claustro do Mosteiro de São Bento e de várias fortificações, entre muitas outras obras. Em Minas Gerais ele desenhou o Palácio dos Governadores de Ouro Preto.

 

A Carta Régia de 2 de maio de 1747 determinou que as águas fossem cobertas por abóbada de tijolos, para evitar o seu desvio mal-intencionado. Inaugurado em 1750, as águas brotaram aos pés do Convento de Santo Antônio, em um chafariz de mármore com 16 bicas de bronze. Mais tarde essa água seria estendida através da Rua do Cano (atual Rua Sete de Setembro), até ao Largo do Paço (atual Praça XV), aonde os navios vinham se abastecer.

 

A estrutura em pedra, em cuja construção foi empregada a mão-de-obra de escravos indígenas e africanos, apresentava originalmente 270 metros de comprimento por 17,6 de altura, com 42 arcos duplos e óculos na parte superior. Ao se tornar obsoleto o aqueduto foi desativado, passando os arcos a servirem, em 1896, como viaduto para o acesso de bondes a Santa Teresa. Para tanto foi feita uma vistoria cujo teste mais importante consistiu em fazer trafegar por ele um carro de 10 toneladas e estacioná-lo no ponto considerado de maior fragilidade. O viaduto resistiu bem e assim foi criada a linha de bondes que por ser a única ainda existente no Rio de Janeiro dá ao bairro aspecto peculiar e histórico.

 

O Aqueduto da Carioca assemelha-se ao das Águas Livres, em Lisboa, e por isso ambos remontam às suas origens romanas. Além do rio Carioca o aqueduto recebia água dos encanamentos das Paineiras, do Silvestre e da Lagoinha, que descendo as encostas dos morros Cosme Velho, Laranjeiras e Santa Teresa, atravessava sobre os arcos o vale entre este e o de Santo Antônio, para finalmente chegar ao seu ponto de distribuição. Sua construção, que tantos benefícios trouxe à população, desenvolveu-se em meio a grandes dificuldades e interrupções, recompensadas pela avaliação de que foram "o mais belo e o mais perfeito monumento na arte da construção existente no velho Rio de 1817".

 

Na segunda metade do século XIX, durante o Império e, posteriormente, diante do advento da República, novas alternativas para o abastecimento de água aos moradores da cidade do Rio de Janeiro, foram sendo utilizadas.

 

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