Artrópodes - LACRAIA

As lacraias, também chamadas centopéias, são artrópodes peçonhentos, típicos de regiões climáticas temperadas e tropicais. Vivendo em todo o território brasileiro, desde o nível do mar até as altas elevações, elas podem ser encontradas normalmente ao ar livre, abrigadas solitariamente em lugares úmidos como troncos apodrecidos, debaixo de pedras, no lixo, em hortas, entulhos ou outros locais semelhantes. Nos ambientes fechados, como residências, escritórios e lojas comerciais, procuram preferentemente os banheiros úmidos, o interior de armários, arquivos, depósitos, porões e também vasos e xaxins com plantas, montes de tijolos ou qualquer canto e reentrância que não receba diretamente a luz solar. Seus esconderijos, portanto, proporcionam-lhe proteção não apenas contra possíveis predadores, mas também contra a desidratação.

 

Esses artrópodes se alimentam de moscas, minhocas, grilos, aranhas, baratas e vermes, entre outros invertebrados, que caçam e capturam usando as pinças muito fortes localizadas em seu último par de patas. Dominando dessa forma as suas vítimas, cravam nelas, em seguida, o aparelho inoculador de veneno que possuem (denominado forcípula e situado junto a boca), injetando-lhes, através desses ferrões que funcionam como pinças, uma solução que as imobiliza e às vezes mata. Embora o veneno da lacraia não seja mortal para o homem, pode lhe provocar dores fortes, cuja intensidade será maior ou menor dependendo da capacidade de resistência imunológica de cada ofendido. Assim, no caso de alguém ser picado por uma lacraia, o mais provável que possa lhe acontecer, além da dor, será o inchaço no local da picada, a elevação de sua temperatura (febre), calafrios, tremores, suores e uma pequena ferida. Quanto ao líquido de que elas precisam para sobreviver, a quase totalidade vem da digestão das presas por elas capturadas.

 

No Brasil existem cerca de 200 espécies de lacraias, todas extremamente ágeis, cujo colorido diversificado varia da tonalidade clara de vermelho ao amarelo e azul, ou vinho e verde escuro, apresentando, às vezes, faixas e marcas de tonalidade mais escura. Seu corpo achatado, com tamanho que vai de 1,5 a 26 centímetros, lhes permite penetrar em frestas onde se escondem durante o dia inteiro, de lá saindo apenas quando anoitece, em busca de alimento. Ele é formado pela cabeça seguida por uma série de segmentos iguais e articulados que não apresentam distinção entre o tórax e o abdômen.  Esses segmentos (que se superpõem uns aos outros e lhe permitem enrolar-se) têm, cada um deles, um par de patas pontiagudas que se diferenciam umas das outras apenas pelo fato de que as posteriores são maiores que as anteriores.

 

As lacraias apresentam na cabeça um par de antenas articuladas, localizadas na margem frontal, e um par de forcípulas, onde estão contidas as glândulas de veneno e estruturas terminais inoculadoras dessa substância. O corpo é dotado de um par de pernas em cada um de seus segmentos, sendo esta uma importante característica para diferenciá-las dos piolhos de cobra ou gôngolos, que possuem dois pares de pernas nos segmentos do tronco. O número de pernas nas lacraias pode variar de 15 a 23 pares. No último segmento estão contidos os aparelhos genital feminino e masculino, além de um par de apêndices chamados pernas anais. Este último par de patas não lhes serve para a locomoção, e sim como órgão sensorial e de captura de alimentos. Quando esse órgão pressente ou toca em uma presa, a segura com força, e então todo o corpo da lacraia se dobra para trás. Nesse momento ela injeta o veneno que paralisará ou matará a presa, ingerindo-a depois, aos pedaços. 

 

As lacraias são animais de sexos separados (machos e fêmeas), e por isso sua reprodução é sexuada. A fecundação é interna, e ocorre quando o macho deposita suas células sexuais no corpo da fêmea, que as absorve. Na época da postura, a fêmea costuma abrir um buraco no chão para depositar os ovos, que ali permanecem até a eclosão, sem receber maiores cuidados por parte da mãe.

 

É relativamente comum o fato das lacraias penetrarem em casas cujas condições de higiene não sejam adequadas, o que pode propiciar a ocorrência de acidentes. Que podem ser evitados desde que sejam tomadas algumas medidas preventivas, como as listadas abaixo, recomendadas pelo Instituto Butantan:

 

• Manter jardins e quintais limpos.

• Evitar o acúmulo de entulhos, folhas secas, lixo doméstico e material de construção nas proximidades das casas.

• Evitar folhagens densas (plantas ornamentais, trepadeiras, arbusto, bananeiras e outras) junto a paredes e muros das casas, e manter a grama sempre bem aparada.

• Limpar periodicamente os terrenos baldios vizinhos obedecendo uma faixa de pelo menos 1 a 2 metros da moradia.

• Vistoriar roupas e calçados antes de vesti-los.

• Não colocar as mãos desprotegidas em buracos, sob pedras e troncos podres.

• O uso de calçados e luvas de raspa de couro ajuda a evitar acidentes.

• Vedar as soleiras das portas e janelas ao escurecer.

• Vedar frestas e buracos em paredes e assoalho, consertar rodapés despregados, colocar telas nas janelas e saquinhos de areia nas soleiras das portas.

• Usar telas em ralos, pias e tanques.

• Afastar as camas das paredes, evitar o contado de roupas de cama e mosquiteiro com o chão.

• Combater a proliferação de insetos, principalmente baratas.

• Acondicionar o lixo domiciliar em sacos plásticos ou em recipientes que possam ser mantidos fechados.

• Preservar os inimigos naturais de escorpiões.

 

Em caso de acidente, procurar atendimento médico e não realizar procedimentos de uso caseiro. Tomando-se esses cuidados, a ocorrência de lacraias diminui muito. Mas, em caso de acidente, mantenha o local da picada o mais limpo possível e procure orientação médica  no menor espaço de tempo possível.

 

 

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