Outras - ILHA DE SOCOTORÁ (iemem)

O pequeno arquipélago de Socotorá, ou Socotra, pertencente ao Iemem, fica no oceano Índico, a 210 km da Península Arábica e em frente ao chamado Chifre da África, território pertencente à Somália. Conhecido dos antigos, ele foi freqüentado por piratas e corsários durante a Idade Média, exceto no período de 1507 a 1511, quando os portugueses o ocuparam. Depois disso, foi dominado por árabes, ingleses e novamente os árabes, até que com a criação da República do Iêmen, em 22 de maio de 1990, passou a pertencer oficialmente a este novo país.

 

O arquipélago de Socotorá é formado por quatro ilhas e alguns afloramentos rochosos: a maior delas, que tem o mesmo nome, área de 3.625km2 e população de 43.000 pessoas (estimada em 2004), e três outras de menor tamanho, conhecidas como ‘Os Irmãos’(Abd Al Kuri e Samha, ocupadas por poucas centenas de socotorinos, e Darsa, desabitada). Acredita-se que o arquipélago seja de origem continental, separado da África durante o Plioceno Médio (na escala de tempo geológico, o Plioceno é a época compreendida entre 5 milhões e 332 mil e 1 milhão e 806 mil anos atrás, aproximadamente). Os naturais do lugar vivem praticamente sem eletricidade, água corrente e estradas pavimentadas, dedicando-se, em sua maioria, ao extrativismo de pérolas, à criação de bovinos e caprinos, à produção de tâmaras, colheita de aloés (gênero de plantas liliáceas à qual pertence a babosa) e coleta do sangue-de-dragão, resina de cor vermelho vivo, solúvel no álcool e empregada como corante de vernizes e lacas, que é extraída de uma árvore de aparência estranha e com forma de guarda-chuva.

 

Segundo uma lenda árabe, um elefante e um dragão lutaram até a morte na ilha, fazendo brotar uma árvore - a Dracaena cinnabari, ou sangue-de-dragão, com seiva vermelha como sangue. Mas a ciência sabe que foi a batalha pela sobrevivência que encheu o lugar de plantas exóticas como essa. Há 10 milhões de anos, Socotorá não era uma ilha. De lá pra cá o nível do mar subiu e ela ficou isolada no Oceano Índico. Enquanto rinocerontes acabaram com a vegetação costeira em terra firme, a flora da ilha sobreviveu às mudanças ambientais. As espécies mais resistentes ao clima semi-árido, com ventos de até 43 quilômetros por hora, transformaram Socotorá em um dos maiores celeiros de espécies endêmicas - aquelas que só crescem em um lugar - em todo o mundo. No tocante aos aloés, conta-se que no século 4 a.C., Alexandre, o Grande, proclamado rei da Ásia e sucessor da dinastia persa, teria conquistado as ilhas de Socotorá porque lá vegetava abundantemente um tipo de babosa da qual eram conhecidos os poderes cicatrizantes, e que ele pretendia usar para curar os ferimentos dos seus soldados, após as batalhas. Sobre a mesma planta, também se diz que seus benefícios na área cosmética são explorados desde a descoberta dos segredos de beleza de Cleópatra, e eles têm sido ampliados dia-a-dia.

 

Historicamente conhecidas por sua vegetação original e espetacular, as ilhas do arquipélago são lugares fascinantes. Das mais de 800 espécies de planta que crescem em seu solo pedregoso, pouco menos da metade não existe em qualquer outro local do mundo. Como a Dracaena cinabari, que aparece na ilustração superior, cuja seiva era buscada na antiguidade para ser usada na medicina ou então no tingimento de roupas. O mesmo acontece em relação à vida animal, já que dos répteis e caracóis encontrados nas ilhas, a grande maioria também não é achada em nenhuma das demais regiões do planeta.  

 

Segundo a revista Superinteressante (edição 103, de 04/1996) o tronco bojudo da figueira Dorstenia gigas, mostra que o endemismo de Socotorá se caracteriza por desenvolver plantas com mais tecido, capazes de armazenar a água da chuva que cai no inverno para sobreviver durante a seca do verão. Apesar do nome, ela não produz figo, mas um fruto assemelhado à abóbora e cujo tamanho pode chegar a mais de metro, enquanto seus parentes próximos, encontrados no continente, ficam entre vinte e trinta centímetros. Uma outra, a Dendrosicyos socotrana, embora seja chamada de pepineiro, produz um fruto que é verdadeiro prodígio botânico: seu tamanho ultrapassa os quatro metros e o tronco chega a pouco mais de um metro de diâmetro. Essa foi uma das espécies identificadas na primeira expedição científica enviada à ilha pela Associação Britânica para o Avanço da Ciência, em 1880.

 

Os que a conhecem dizem que a ilha contraria qualquer noção do que é considerado “normal” para uma paisagem terrestre. O arquipélago da qual ela faz parte isolou-se geograficamente da África há milhões de anos. Seu clima é árido, com poucas chuvas concentradas no inverno e mais abundantes em suas partes altas que nas zonas costeiras, mas mesmo assim lá estão exemplares de espécies de plantas endêmicas que conservaram suas características ao longo dos últimos 20 milhões de anos. Relato de botânicos do Royal Botanic Garden, de Edimburgo, na Escócia, publicado na revista inglesa New Scientist, revela que das oitocentas e tantas espécies de vegetais encontrados no arquipélago, 305 são próprias do lugar, mas que certamente existem outras a serem descobertas. E citou o achado recente de uma minúscula planta carnívora que cresce em troncos úmidos de árvores nas partes mais altas das montanhas Haggier, localizadas no centro da ilha e com picos que alcançam 1.500 metros de altitude, quase sempre cobertos por nuvens. Por isso Socotorá é conhecida como a “ilhas das névoas”.

 

Recentemente, depois da recomendação feita pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), oito maravilhas naturais foram incluídas pela Unesco em sua Lista do Patrimônio Mundial, Os novos locais são o arquipélago de Socotorá, no Iêmen, as Colinas Fossilizadas de Joggins, no Canadá, as Lagoas de Nova Caledônia, na França, Saryarka - estepes e lagos no norte do Cazaquistão, o Parque Nacional do Monte Sanqingshan, na China, Surtsey, na Islândia, o Sítio tectônico suíço de Sardona e a Reserva de biosfera da borboleta monarca, no México. "Esses locais estão entre os melhores que a natureza tem a oferecer", disse David Sheppard, chefe do programa de áreas protegidas da IUCN.

 

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