Greco-romana - ATALANTA

Dela se poderia dizer, com segurança, que tinha o rosto muito masculino para uma mulher, e ao mesmo tempo, muito feminino para um homem. Sobre seu destino, já lhe tinha sido revelado: “Não te cases, Atalanta, porque o casamento será tua ruína”. Essa predição a atemorizou de tal forma que ela decidiu, então, fugir da companhia dos homens, dedicando-se inteiramente aos exercícios corporais e à caça. Mas quando algum pretendente à sua mão tornava-se mais insistente, ela geralmente se livrava da perseguição impondo-lhe uma regra: “Eu serei o prêmio daquele que conseguir vencer-me numa corrida, mas a morte será o castigo de quem tentar e perder”.

 

Apesar do risco que acompanhava essa proposta, muitos candidatos já haviam tentado levá-la para casa, mas sem sucesso, obviamente, e em todas as oportunidades o jovem Hipômenes tinha sido o juiz da disputa. A princípio, este se perguntava indiferente: “Será possível que alguém seja tão louco a ponto de arriscar sua vida desse modo, só para conquistar uma esposa?”. Até que um dia, ao vê-la tirar as vestes para disputar uma das provas, ele entendeu a razão pela qual os interessados continuavam a chegar, e murmurou consigo mesmo: “Perdoai-me, jovens. Eu não sabia qual era o prêmio que iríeis disputar”.

 

A partir daí Hipômenes passou a desejar que todos os que aparecessem com aquela intenção fossem derrotados, e esse sentimento crescia e se tornava mais forte a cada vez que o rapaz via a virgem correr. Porque nesses momentos ela ficava ainda mais bela, mais desejável, com os cabelos soltos agitando-se sobre os ombros, e o rubor do esforço que fazia colorindo-lhe a alvura da cútis como se fosse a sombra de uma cortina carmesim sobre uma parede de mármore. Ao mesmo tempo, a brisa parecia dar-lhe asas aos pés, e sendo assim, os concorrentes ficavam para trás, distanciados, e eram mortos impiedosamente ao final da disputa.

 

Até que chegou o dia em que Hipômenes não mais se conteve, e então, fixando seus olhos nos de Atalanta, ele disse: “Por que te vanglorias de vencer esses lerdos? Eu me ofereço para a disputa”. E a moça, sem saber o que responder, apenas pensou: “Que deus pode tentar um homem tão jovem e tão belo a se arriscar dessa maneira? Tenho pena dele, não por causa de sua beleza, mas sim porque é tão moço. Bom seria que desistisse, ou caso seja tão louco para insistir, que me vencesse”. Diante da hesitação da moça, os espectadores reagiram impacientes, enquanto seu pai a alertava para que se preparasse. E foi o que ela fez. O rapaz, por sua vez, dirigiu uma prece a Afrodite (Vênus), a deusa do amor, pedindo-lhe: “Ajude-me, senhora, pois foste tu que me impeliste”.

 

Diz a lenda que no jardim do templo da deusa, na ilha de Chipre, existia uma árvore de folhas e ramos amarelos, e frutos de ouro. Foi ali que Afrodite colheu três desses frutos, e sem ser vista por ninguém os entregou a Hipômenes, já posicionado na linha de partida, ensinando-o como usá-los. No instante seguinte foi dado o sinal de largada, e o casal iniciou a disputa avançando com tamanha leveza que parecia não estar pisando em areia, mas sim sobre a superfície de um rio, sem se afundar. Os assistentes gritavam entusiasmados: “Avança, avança! Tu a vencerás! Não desanimes! Vamos, mais um esforço!”.

 

Mas logo Hipômenes começou a respirar com dificuldade, sentindo a garganta seca, as pernas se tornando pesadas, o ímpeto diminuindo, apesar da meta ainda se encontrar relativamente distante. Então ele deixou cair uma das maçãs de ouro, e a virgem, admirada com o fato, parou para pegá-la, o que permitiu ao rapaz ganhar a dianteira. Atalanta voltou a correr e logo alcançou o adversário, que ao percebê-la, largou a segunda maçã. A donzela parou novamente, mas como da primeira vez, logo reiniciou a perseguição, aproximando-se rapidamente do desafiante. E estava a ponto de ultrapassá-lo, já próximo da linha de chegada, quando Hipômenes, ciente de que lhe restava somente uma oportunidade, recorreu a Afrodite: “Faze frutificar tua dádiva, ó deusa!”, e jogou para o lado a terceira e última fruta.

 

Atalanta percebeu o que acontecera e ficou indecisa, mas a deusa a induziu a olhar para o lado. Ela assim o fez, mas com isso perdeu uma fração do tempo de que dispunha para chegar à frente, e por isso foi derrotada. Apesar disso, ou por causa disso, tanto ela como Hipômenes ficaram satisfeitos, e na comemoração de sua felicidade o casal se esqueceu de agradecer a Afrodite a ajuda prestada ao rapaz. Irritada com o que lhe parecia ser uma ingratidão imperdoável, esta levou o casal a ofender Réia (Cibele), a deusa poderosa que não deixa impunes os seus ofensores. Esta, então, tirou dos dois a forma humana e os transformou em animais: a caçadora transformada em leoa, e seu enamorado em leão, ambos atrelados ao carro da deusa, onde ainda podem ser vistos em todas as suas representações, na escultura e na pintura.

 

 Fonte: Histórias de Deus e Heróis, de Thomas Bulfinch


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