Greco-romana - CALISTO

Calisto, filha de Licaon, rei da Arcádia, foi amada por Zeus (Júpiter), o que provocou o ciúme de Hera (Juno), sua esposa. Para proteger a jovem o deus maior a escondeu em uma floresta, mas a rainha do Olimpo procurou a rival com afinco, e quando finalmente a descobriu, tratou logo de vingar-se. Desejando acabar com “aquela beleza que cativou meu marido”, Hera valeu-se de seus poderes de deusa, e foi assim que em dado momento Calisto caiu ao chão, apoiando-se nas mãos e nos joelhos. Aflita, tentou estender os braços para diante e para cima, no gesto de quem suplica, em oração fervorosa, a ajuda divina, mas estes já estavam ficando cobertos de pêlos negros, enquanto as mãos iam se arredondando, armando-se de garras em forma de gancho, transformando-se em patas. A boca, cuja beleza Zeus costumava exaltar, transformou-se num horrível par de maxilas, e a voz tornou-se um rugido capaz de inspirar terror em quem a ouvisse (na ilustração, em quadro do pintor Rubens,1577/1640 , Júpiter usa o disfarce de mulher para seduzir a ninfa Calisto).

 

Contudo, como sua antiga disposição permaneceu, Calisto, suportando o terror que sentia, mantinha-se tão ereta o quanto podia, erguendo as patas para implorar mercê aos deuses. E caminhava sem destino pela mataria, desnorteada, sem saber o que fazer. Quantas e quantas vezes, com medo de ficar sozinha nos bosques, a noite inteira, ela procurara as vizinhanças de sua antiga moradia! Quantas vezes, amedrontada pelos cães, ela, a caçadora que até tão pouco tempo divertia-se perseguindo os animais, fugia aterrorizada dos caçadores! E quantas vezes, dominada pelo medo, corria das feras esquecendo-se de que, agora, ela mesmo não passava de uma fera! E, embora sendo ursa, tinha medo dos ursos.

 

Um dia, um jovem a viu quando estava caçando. Ela também o viu, e nele reconheceu o próprio filho, agora adulto. Parou surpresa, com o coração em disparada, e logo lhe veio a vontade de abraçá-lo e beijá-lo, mas ao se aproximar do rapaz, este, assustado, ergueu a lança de caça num gesto instintivo de defesa, e ia trespassá-la com a arma quando Zeus, vendo o que se passava, impediu a consumação do crime e afastou os dois, colocando-os no céu, transformados nas constelações que logo se tornariam conhecidas como Ursa Maior e Ursa Menor  Ao ver aquilo, Hera ficou mais que furiosa, pois não lhe passava pela cabeça a idéia de aceitar passivamente que sua rival fosse honrada daquela maneira. E por isso procurou Tetis e Oceano, as antigas potências do mar, e contou-lhes o que acontecera. E em resposta às perguntas que os dois lhe fizeram, ela lhes disse:

 

- Perguntais-me por que eu, rainha dos deuses, deixei as planícies celestes e vim em busca dessas profundidades. Sabei que estou suplantada no céu, meu lugar é dado a outra. Dificilmente acreditareis em mim; mas olhai quando a noite escurecer o mundo, e vereis os dois, de quem tenho tanta razão de queixa, exaltados no céu, naquela parte em que o círculo é menor, nas vizinhanças do pólo. Por que iria alguém, de agora em diante, tremer diante da idéia de ofender a mim, quando tais recompensas são as conseqüências do meu desprazer? Vede o que consegui fazer! Impedi-a de usar a forma humana, e ela é colocada entre as estrelas. Tal é o resultado do meu castigo, tal a extensão do meu poder. Seria melhor que ela tivesse recuperado a forma humana, como permiti que Io recuperasse. Talvez meu marido pretenda desposá-la e deixar-me de lado. Mas vós, meus pais de adoção, se estais comigo e encarais com desgosto este indigno tratamento que me foi imposto, mostrai-me, peço-vos, impedindo esse casal indigno de penetrar em vossas águas!

 

As potências do oceano concordaram e, conseqüentemente, as duas constelações - da Ursa Maior e da Ursa Menor - movem-se em círculo no céu, porém jamais descem, como as outras estrelas, por trás do oceano.

 

Em 1651, quando os teatros de ópera começaram a permitir a entrada de qualquer um que pudesse pagar o preço pedido pelo ingresso, o veneziano Francesco Cavalli (1602-1676) apresentou pela primeira vez sua obra La Calisto, mesclando o nobre e o trivial, a comédia e a tragédia, numa obra de arte que, curiosamente, diz muito ao público contemporâneo. Segundo os resumos, a ópera é uma comédia de erros meio amoral, com música altamente sugestiva e erótica. O enredo conta que em suas andadas entre os mortais, Júpiter se apaixona pela ninfa Calisto, mas esta repele os carinhos do deus dizendo que queria morrer virgem.

 

Aconselhado por Mercúrio, Júpiter toma a forma de deusa Diana para aproximar-se da moça. E o artifício funciona. Entre beijos e abraços, Calisto apaixona-se loucamente por Júpiter travestido de mulher, e quando ele se vai, a verdadeira Diana aparece, mas se ofende com as afeições que Calisto lhe oferece, repudiando com fúria dramática os carinhos de Calisto, que foge para a floresta a fim de chorar as suas mágoas. Nessa hora surge a ciumenta deusa Hera à procura do marido errante, mas ao saber do acontecido teve certeza de que ele estava por trás da história. Então ela se vinga do companheiro infiel transformando a pobre Calisto numa ursa. No final da história, comovido com a situação da ninfa, Zeus a faz subir ao firmamento, onde ela passa a brilhar como a constelação da Ursa Menor.

 

Calisto (por vezes indevidamente chamado de Calixto) é o nome dado a um dos satélites descobertos por Galileu Galilei quando observava Júpiter com o telescópio recém criado na sua época. Ao lado de Ganimedes, Europa e Io, eles são as quatro luas mais importantes do maior planeta do sistema solar. 

 

 

 

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