Greco-romana - CORNUCÓPIA
Certa vez o rio-deus Aquelau contou a história de Erisíchton a Teseu e seus companheiros, enquanto os retinha em sua margem hospitaleira, onde eles tiveram de aguardar que as águas baixassem. Ao terminar a narração, acrescentou:
Por que, porém, contar-vos as transformações de outras pessoas quando eu próprio sou um exemplo da posse de tal poder? Às vezes, transformo-me em serpente, e outras vezes em um touro com chifres na cabeça, ou seria melhor dizer que outrora eu podia fazer tal coisa. Agora só me resta um chifre, pois perdi o outro.
Nesse ponto ele deu um gemido e calou-se. Teseu indagou-lhe a causa de seu pesar e como perdera o chifre, ao que o rio-deus respondeu da seguinte forma:
- Quem se apraz em contar as próprias derrotas? Não hesitarei, contudo, em relatar a minha, consolando-me com a grandeza do meu vencedor, que foi Hércules. Talvez já tenhais ouvido falar em Dejanira, a mais linda das donzelas, a quem uma multidão de pretendentes procurava conquistar. Eu e Hércules estávamos entre eles, e os demais não se atreveram a competir conosco. Hércules apresentava a seu favor o fato de descender de Zeus (Júpiter) e seus trabalhos, com os quais fora além das exigências de sua madrasta Hera (Juno).
- Eu, por meu lado, disse ao pai da donzela: “Olha-me, sou o rei das águas que correm em suas terras. Não sou estrangeiro, vindo de um litoral distante, mas pertenço ao país, faço parte de seu reino. A real Juno não me tem inimizade nem me castiga com trabalhos pesados. Quanto a esse homem que se proclama filho de Jove, ou é um impostor, ou desgraçado dele se for verdade, por isso será a vergonha para sua mãe.
- Hércules encarou-me enfurecido e só com muita dificuldade se conteve. “Meu braço responderá melhor que minha língua”, disse ele. “Concedo-te a vitória verbal, mas confio minha causa à prova dos fatos”. Assim dizendo, investiu contra mim, e depois do que dissera, senti-me envergonhado de recuar. Despi minhas verdes vestes e apresentei-me para a luta.
- Hércules tratou de atirar-me ao chão, atacando ora minha cabeça, ora meu corpo. Eu tinha em meu tamanho a proteção e seus ataques foram vãos. Paramos durante algum tempo, depois voltamos à luta. Mantínhamos nossa posição, dispostos a não ceder, disputando passo a passo o terreno, eu curvado sobre ele, apertando sua mão nas minhas, com a testa quase encostada na sua. Por três vezes Hércules tentou atirar-me ao chão e, da quarta vez, conseguiu e cavalgou-me. Eu vos digo a verdade: era como se uma montanha tivesse caído sobre as minhas costas.
- Lutei para libertar os braços, respirando ofegante e coberto de suor. Hércules não me deu oportunidade de livrar-me e agarrou-me o pescoço. Meus joelhos estavam em terra, minha boca no pó. Compreendendo que não podia competir com ele na arte da guerra, recorri a outros meios e escapei, rastejando, sob a forma de uma serpente. Enrosquei o corpo e silvei, ameaçando o adversário com a língua bipartida. Ele, vendo isso, sorriu desdenhosamente e exclamou: “Vencer serpentes era trabalho de minha infância”. E assim dizendo, agarrou-me pelo pescoço.
- Vencido sob essa forma, tentei então a única saída que me restava e transformei-me em touro. Hércules mais uma vez segurou-me pelo pescoço e, encostando minha cabeça no chão, atirou-me à areia. E não se deu por satisfeito. Sua mão implacável arrancou-me o chifre da cabeça. As náíades o recolheram, consagram-no e encheram-no de flores olosas. A Fartura tomou-o como seu e chamou-o “Cornucópia”.
Os antigos se compraziam em encontrar um sentido oculto em suas lendas mitológicas. Explicam esse combate dizendo que Aquelau era um rio que na estação chuvosa transbordava em seu leito, e que quando a lenda diz que ele amava Dejanira e procurava a ela se unir, isso quer dizer que o rio, em seus meandros, corria através do reino dela. Dizia-se que tomava a forma de uma serpente por causa de seu curso sinuoso, e de um touro pela sua violência e fragor de suas águas. Nas cheias, o rio corria por outro canal. Assim, sua cabeça tinha chifres. Hércules impediu a ocorrência dessas inundações periódicas por meio de barragens e canais, e foi dito, assim, que vencera o rio-deus e lhe arrancara um chifre. Finalmente, as terras sujeitas a inundação tornaram-se, depois de protegidas, fertilíssimas, e isso é explicado pela cornucópia.
Há outra versão da origem da cornucópia. Quando nasceu, Zeus (Júpiter) foi entregue por sua mãe Cibele (Réia) aos cuidados das filhas de Melisseu, um rei creternse, que alimentaram o deus infante com o leite da cabra Amaltéia. Zeus quebrou um dos seus chifres e deu-o às suas amas, atribuindo-lhe o poder mágico de se encher com aquilo que o seu dono desejasse.
Fonte: História de Deus e Heróis, de Thomas Bulfinch





