Greco-romana - DEJANIRA
Personagem da mitologia grega, Dejanira era filha de Eneu, lendário rei de Calidão, cidade descrita por Homero como uma das cinco principais da Etólia. Seu pai, que se tornara solitário e acabrunhado em virtude do suicídio da esposa (ela se sentia culpada pela morte de Meleagro, o outro filho do casal), prometera entregar a bela jovem em casamento a quem provasse ser o mais forte entre todos os que competissem por sua mão. Nessa época, Hércules retornava de uma vitoriosa expedição punitiva realizada contra o rei Laomedonte e seus filhos, de Tróia, e quando tomou conhecimento da proposta real, também se candidatou a recebê-la como esposa, principalmente porque desejava esquecer a traição que lhe fizera Mégara, sua ex-mulher (ele a havia surpreendido nos braços de outro homem, a quem matou no momento em que descobriu o adultério, e em seguida a levou de volta para a casa de seu pai, o rei Creonte, de Tebas, onde a devolveu à família dando como findo o seu mal-sucedido matrimônio).
Na disputa pela mão da princesa, Hércules lutou com vários outros concorrentes, venceu a todos eles, e depois se uniu a Dejanira, com quem viveu em grande felicidade durante muitos anos. Porém, a deusa Hera (Juno), mulher de Zeus (Júpiter), que odiava o herói porque ele era filho de seu marido com Alcmena, casada com Anfitrião, não havia desistido da idéia de vingar-se dele, e por isso continuava engendrando planos para feri-lo de alguma forma. Foi assim que em uma das viagens feitas por Hércules e sua companheira, o casal chegou à beira de um rio cujas águas haviam subido muito em virtude das chuvas continuadas que caíam na região. A correnteza era muito forte, tanto que nem mesmo Hércules se dispunha a enfrentá-la a nado carregando consigo a esposa, e lá estavam os dois, sem outro recurso a não ser esperar que a situação melhorasse para seguirem em frente, quando o centauro Nesso chegou ao local onde eles se encontravam e se ofereceu para levar Dejanira até a outra margem.
Hércules aceitou o oferecimento, colocou sua mulher sobre o dorso do recém-chegado, e este iniciou imediatamente a perigosa travessia. Porém, assim que chegou em terra firme o centauro tentou fugir com Dejanira, mas esta gritou, o seu marido que a tudo observava da outra margem imediatamente disparou contra Nesso uma seta envenenada com o sangue da Hidra de Lerna, atingindo-o no braço. Ferido, o centauro só conseguiu avançar mais alguns metros antes de cair ao chão dominado por dores atrozes que lhe davam a sensação exata de que todo o interior do seu corpo estava sendo devorado por uma enorme fogueira. Agonizante, Nesso pediu então que Dejanira se aproximasse e lhe disse entre suspiros e gemidos:
- Tire a minha túnica e guarde-a com cuidado. Se algum dia o seu marido se interessar por outra mulher, peça-lhe que a vista, pois se ele fizer isso na mesma hora esquecerá o novo amor e voltara aos seus braços.
E expirou assim que acabou de pronunciar tais palavras.
Enquanto isso, Hércules atravessou nadando o rio de águas espumantes, e quando chegou ao lado de Dejanira, esta, que já havia guardado entre seus pertences a túnica do centauro morto, nada lhe disse sobre o conselho que recebera dele. Então, marido e mulher seguiram em frente, rumo ao destino que procuravam.
Algum tempo depois Hércules lembrou-se de que no passado fora preterido por uma princesa chamada Iole, filha do rei Euritos, da Ecália, também na Etiópia, que segundo a lenda prometera a mão da donzela àquele que o vencesse em destreza no atirar com o arco. Hércules o derrotou com facilidade, mas como foi recusado por Iole como marido, retirou-se para suas terras levando consigo o amargor da decepção sofrida. Foi o que o levou a retornar a Euritos disposto a vingar-se, o que fez matando o rei e raptando a jovem que o desprezara, fazendo com que se casasse posteriormente com seu filho Ilo.
O rapto de Iole foi um erro de funestas conseqüências. Porque Dejanira imaginou que o marido pretendia substituí-la pela jovem seqüestrada, e então, lembrando-se da vestimenta do centauro Nesso, aproveitou a oportunidade surgida e a entregou a Hércules quando este lhe pediu uma túnica limpa para ofertar um sacrifício aos deuses, no monte Eta. Esta passagem é descrita da seguinte forma por George Baker em seu livro “Deuses e Heróis”, transcrição e adaptação de texto original feita por Moacir Índio da Costa Junior:
“Revelou-se então a perfídia do centauro agonizante. O veneno da seta que o tinha matado contaminara o seu sangue, passando deste para a túnica, e dela para o corpo de Hércules. Este compreendeu que ia morrer. Deu o grande arco que pertencera ao rei Euritos, ao seu amigo Filoctete, que o ajudara a construir a pira, e também as setas envenenadas, revelando-lhe o seu poder mortal. Filoctete, que fora companheiro de Hércules na expedição do Argo, verteu lágrimas ao ver às portas da morte aquele herói de coração tão magnânimo. Deitou-se Hércules sobre a pira. Filoctete pôs fogo às achas embebidas de azeite e escutou, atencioso, a poderosa voz de Hércules pedindo ao pai, Zeus, que o recebesse no convívio dos deuses. Por fim, sua voz emudeceu. Quando o fogo baixou e a fumaça não formava mais que um tênue véu, Filoctete soltou um grito de espanto. Nada sobrara de Hércules. Nem ossos nem cinzas remanesciam, e Filoctete ficou convencido, então, de que Zeus ouvira as preces do seu filho, na hora da morte, tirando-o do meio das chamas e da fumaça para ir viver eternamente entre os deuses imortais. Assim deixou a Terra um grande e poderoso herói, e quando Dejanira veio a saber do que tinha feito, tão profundo foi o seu pesar que ela pôs termo à própria existência”.





