Greco-romana - ERISICHTON

Em certa região da Grécia morava Erisíchton um homem que desprezava os deuses. Certo dia ele decidiu derrubar o enorme carvalho que se erguia em um bosque consagrado à deusa Ceres (Deméter), mas como os servos que o acompanhavam hesitavam em cumprir a ordem que seu senhor lhes dera, ele próprio pegou um machado e preparou-se para iniciar o corte. Porém, antes de desferir o primeiro golpe o homem fez questão de exclamar desafiante: “Não quero saber se esta árvore é ou não amada pela deusa. Fosse ela própria uma delas e eu a abateria se porventura se interpusesse em meu caminho”. E quando ergueu a ferramenta, pronto para iniciar sua ação destruidora, o imponente carvalho pareceu estremecer e dar um gemido.

 

Aquela árvore era tão grande que ofuscava com sua imponência toda a mataria ao redor. Em redor do seu tronco - com quase quinze côvados (correspondente, cada um, a três palmos ou 66 cm) de circunferência e muitas inscrições entalhadas manifestando gratidão à ninfa que nela habitava - as dríades costumavam dançar de mãos dadas, demonstrando toda a felicidade de que eram portadoras. Quando a primeira machada a atingiu e sangue começou a correr da ferida aberta, os servos que a tudo assistiam ficaram apavorados. Um deles, inclusive, chegou a tentar impedir que outros golpes fossem desferidos, mas Erisíchton o afastou com violência, derrubou-o, e dizendo “Recebe a recompensa de tua piedade”, crivou-lhe o corpo de ferimentos e cortou sua cabeça.

 

Foi quando uma voz vinda do tronco se fez ouvir: “Eu que moro nesta árvore sou uma ninfa amada de Ceres, e morrendo por tuas mãos, predigo que o castigo te aguarda”. Mas apesar da ameaça que lhe era feita, o lenhador não desistiu, até que o carvalho, atingido por seguidos golpes e puxado por duas cordas, deu-se por vencido, caindo com grande estrondo sobre suas companheiras de menor tamanho. As dríades ficaram muito tristes com a sua morte, considerada um ultraje para o orgulho da floresta, e por isso vestiram-se de luto e pediram a Ceres que castigasse o ofensor.


A deusa as ouviu, e imaginou um castigo tão cruel que despertaria piedade, caso o malvado fosse merecedor de tal sentimento: entregá-lo à Fome. Mas como não podia aproximar-se desta, porque as Parcas haviam ordenado que as duas deusas jamais se encontrassem, chamou uma ninfa da montanha e lhe disse: “Na parte mais longínqua da gelada Cítia existe uma região triste e estéril, onde as árvores não crescem e nem os campos são cultivados. Ali moram o Frio, o Medo, o Tremor e a Fome. Vai àquela região e dize à última para tomar posse das entranhas de Erisíchton. Que a abundância não a vença, nem o poder dos meus dons a afaste. Não te assustes com a distância (pois a Fome mora muito longe de Ceres), mas toma meu carro; os dragões estão atrelados, são obedientes e levar-te-ão através dos ares, em pouco tempo”.

 

A ninfa partiu, então, para cumprir a missão recebida. Chegando ao monte Cáucaso, na Cítia, ela encontrou a Fome em um campo pedregoso, arrancando com os dentes e as garras a pouca erva ali existente. Tinha os cabelos hirsutos, os olhos fundos, as faces pálidas, os lábios descorados, a boca coberta de poeira e a pele distendida mostrando todos os ossos. A mensageira a olhou de longe, já que não se atrevia a aproximar-se, e de onde se encontrava tratou de lhe transmitir o recado de Ceres. Mas mesmo tendo sido mínimo o tempo que gastou nisso, e grande quanto possível a distância que a separava da esquelética figura, ela começou a sentir uma fome imensa, razão pela qual, cumprida a tarefa de que fora incumbida, incitou os dragões do carro que a conduzia e se apressou em voltar imediatamente à Tessália.

 

Obedecendo às ordens de Ceres a Fome viajou pelos ares, chegou à morada de Erisíchton, entrou em seu quarto, onde o encontrou dormindo, envolveu-o com as suas asas, penetrou-lhe no corpo pela respiração, destilou veneno em suas veias, e depois viajou de volta para a região desolada e fria onde vivia, deixando para trás a terra da fartura. Enquanto isso, no quarto onde repousava, o criminoso passou a sonhar com alimentos, movendo a mandíbula como se estivesse comendo, e quando acordou, uma fome intensa o atormentava. Não se passava um segundo sem que ele quisesse ter diante de si iguarias de qualquer espécie, da terra, do mar ou do ar, queixando-se de que precisava comer mesmo quando estava fazendo isso. Nada o satisfazia, porque seu apetite era semelhante ao do mar, que recebe todos os rios sem jamais se encher, ou ao do fogo, que consome tudo o que é combustível que se encontre perto de si, e continua pronto a destruir os que achar pela frente.

 

Com isso seus bens foram diminuindo rapidamente, apesar da fome continuar insaciada. Até que gastou tudo o que tinha, e quando só lhe restava uma filha, ela acabou sendo vendida. Desesperada por se ter tornado uma escrava, esta aproveitou um momento em que, diante do mar, seu senhor desviou dela a atenção, e fez uma prece ao deus Netuno, que ouviu suas preces e a transformou em um pescador. No momento seguinte, o dono da caravana se aproximou e perguntou: “Bom pescador, aonde foi a donzela que vi agora mesmo, com os cabelos despenteados e pobremente vestida, de pé junto a este lugar onde estás? Dize-me a verdade e tua sorte será boa, e nenhum peixe morderá hoje a isca e fugirá”.

 

A moça exultou de contentamento ao perceber que seu pedido havia sido atendido, mas respondeu com a fisionomia séria: “Perdoa-me, estrangeiro, mas eu estava tão ocupado com meu caniço e minha linha, que não vi coisa nenhuma. Por isso vos digo que nada posso afirmar sobre se aqui esteve, ainda há pouco, alguma mulher ou outra pessoa qualquer”.

 

Sem desconfiar de nada o homem continuou seu caminho acreditando que a escrava conseguira escapar de suas mãos, e quando ele já sumira de vista na praia extensa, ela reassumiu sua forma e retornou à casa do pai. Satisfeitíssimo, Erisíchton tratou de vendê-la novamente, mas a jovem, contando com a ajuda prestimosa de Netuno, passou a se transformar toda vez que alguém a comprava, ora em cavalo, ora em ave, ora em boi, ora em cervo, livrando-se assim dos compradores e voltando em seguida para a casa paterna. Por esse meio infame o faminto conseguia obter os recursos de que precisava para adquirir alimentos, mas como isso não satisfazia as suas necessidades, porque a fome que o consumia permanecia insaciável, ele se viu obrigado a devorar os próprios membros, destruindo o seu corpo para alimentar a si mesmo. E foi assim até a morte finalmente o libertar da vingança de Ceres.

 

Fonte: Histórias de Deuses e Heróis, de Thomas Bulfinch.

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