Greco-romana - HÉRCULES 01 - LEÃO DE NEMÉIA, O

Houve um tempo, na Grécia antiga, em que um leão de tamanho descomunal aterrorizava as pessoas que moravam nos arredores de Neméia, vale da região da Argólida, no Peloponeso, perto de Micenas e Corinto. Segundo a lenda, ele era filho de Cérbero com Quimera, irmão da Esfinge e sobrinho da Hidra de Lerna, quatro outras criaturas fantásticas da mitologia grega. O rugido apavorante dessa fera era ouvido à grande distância, e como ela não podia ser ferida por nenhuma das armas usadas pelos homens da época, porque tinha a pele invulnerável, continuava matando e devorando rebanhos ou qualquer infeliz que encontrasse durante suas caminhadas em busca de comida, sem que nada pudesse ser feito para acabar com isso.

 

Foi quando Euristeu, rei de Micenas, instigado pela deusa Hera (Juno), esposa de Zeus (Júpiter), impôs a Hércules, a quem ele odiava, doze trabalhos (veja o texto Hércules - Os Doze Trabalhos) como expiação pelo crime que o herói grego havia cometido (num acesso de fúria também provocado pela deusa, ele tinha assassinado sua esposa Mégara e os três filhos que tivera com ela). A primeira dessas tarefas conferidas ao semideus foi justamente a de matar e levar ao rei a pele do animal que todos temiam e tinham como invencível.

 

Hércules partiu, então, para o vale de Neméia. Chegando lá, passou a noite na casa do pastor Malorco, e no dia seguinte iniciou a caçada à fera, procurando suas pegadas na floresta. Pouco a pouco ele foi se embrenhando na mata a passos lentos e cuidadosos, vigilante, olhos atentos em busca de qualquer sinal que lhe pudesse orientar sobre que direção tomar, até que de repente seus instintos o alertaram de que o perigo estava próximo. E realmente, não demorou muito para que o leão surgisse entre as moitas alguns metros à frente, pisando macio, o focinho buscando no ar o cheiro da presa que não era outra senão o seu próprio caçador.

 

A reação de Hércules foi imediata. Em poucos segundos ele retesou o arco e disparou, uma atrás da outra, cerca de seis flechas contra a fera que já o havia avistado. Em vão... As setas atingiram o dorso do animal mas não lhe penetraram no corpo - graças à sua pele invulnerável -, e caíram inúteis no chão. Diante disso o caçador sacou a espada da bainha e investiu contra o leão, golpeando-o com força extraordinária, mas também não conseguiu nenhum resultado prático: a lâmina envergou como se fosse um galho do arbusto que tombara sob o peso dos dois contendores, sem causar nenhum dano à criatura. Esta reagiu com dois golpes das patas de garras afiadas, mas Hércules esquivou-se deles, retrocedeu, recuperou a clava que havia deixado alguns metros atrás, e desferiu com ela uma cacetada tão violenta contra o focinho do bicho, que com a força do choque o instrumento partiu-se em dois pedaços.

 

O leão sentiu a pancada, tonteou, e então, pela primeira vez na vida, achou melhor abandonar a luta e refugiar-se em sua toca, para recuperar-se. Mas Hércules não lhe deu descanso. Partiu em seu encalço, e ao chegar ao covil onde ele se escondia, fechou uma das entradas com a rede que levava, entrou rapidamente pela outra, e sem dar tempo à fera saltou sobre ela, levantou-a pelas patas da frente, enlaçou-a com seus braços poderosos e passou a apertá-la com toda a força que tinha. O leão fez de tudo para livrar-se daquele abraço sufocante, mas seus rugidos e suas patadas de nada adiantaram porque o herói grego continuou apertando, apertando, apertando, até que a fera parou de se debater e tombou a cabeça para o lado. Estava morta.

 

Satisfeito, Hércules carregou seu corpo até a casa do pastor Malorco, onde sacrificou um carneiro em agradecimento a Zeus, e depois seguiu para a cidade de Micenas levando consigo o leão morto, para mostrá-lo a Euristeu.  Mas ao entrar no palácio o rei assustou-se ao ver o caçador carregando aquela presa amedrontadora, mesmo estando sem vida, e por isso o expulsou da cidade. Já no campo o herói quis esfolar a fera, mas apesar de todas as tentativas que fez, não conseguiu cortar-lhe a pele. Nessa hora os deuses que o protegiam vieram em seu auxílio e o aconselharam e retirar uma das garras do animal, que eram afiadas e cortantes, e usá-la como se fosse uma espada. Foi o que Hércules fez, e com essa ferramenta ele não só conseguiu tirar o couro do leão, mas depois de curti-lo passou a usá-lo como se fosse uma couraça protetora, muito mais resistente que qualquer metal conhecido.

 

A luta de Hércules com o leão de Neméia é um dos mais antigos trabalhos representados em obras artísticas. Mais de 700 vasos de figuras negras, e cerca de 100 vasos de figuras vermelhas, todos eles mostrando esse tema, chegaram até nós. A cena mais comum apresenta o herói desarmado, com ou sem barba, atracado com o leão pela frente, de pé ou no chão. De acordo com algumas versões tardias, Hera colocou o leão nos céus (Léo, a constelação de Leão, entre Câncer, a oeste, e Virgo, ou Virgem, a leste). 


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