A a D - CACHORRA DA PALMEIRA - Nordeste brasileiro

Natural da cidade de Crato, no Ceará, o padre Cícero Romão Batista (1844-1934) chegou a Juazeiro do Norte, no mesmo estado, em 1872, exercendo ali, durante seis décadas, sua atividade sacerdotal. Ao longo desse tempo ele foi conquistando o respeito e a admiração da comunidade sertaneja, que alguns anos depois passou a lhe atribuir a qualidade de santo e profeta. Isso transformou a cidade em um centro de romarias de camponeses que ainda hoje buscam a cura para seus males, ampliando cada vez mais a fama de milagreiro de que desfruta o Padim Ciço.

 

Padre Cícero faleceu aos 90 anos de idade (no dia 20 de julho de 1934), em Juazeiro do Norte, acometido de renitente enfermidade renal e outras complicações orgânicas. Sua morte, como não era difícil prever, causou profunda e incontida consternação no seio da população local, assim como aos seus milhares de devotos espalhados por todo o Nordeste brasileiro, e foi esse sentimento de veneração que deu origem a inúmeras lendas consideradas como verdadeiras por quantos crêem nas invocações de toda ordem, feitas ao religioso desaparecido há dezenas de anos.

 

Uma delas diz respeito a uma moça que se referiu de forma desrespeitosa ao padre Cícero, pouco depois de sua morte. Segundo os relatos sobre o fato, ela residia em Palmeira dos Índios, Alagoas, era filha de uma pessoa importante na cidade, e tinha uma cachorrinha que criava desde pequena, à qual muito estimava. Aconteceu que no mesmo dia em que o sacerdote faleceu, a cadelinha também morreu, e a jovem, consternada, enterrou-a com toda a cerimônia. Dias depois, encontrava-se ela em uma loja comercial quando uma senhora entrou no estabelecimento à procura de um tecido preto. Ao se inteirar de que o pano destinava-se à feitura de um vestido de luto, porque a compradora era devota do padre Cícero, a moça deu algumas risadas e sugeriu que a senhora, ao invés de manifestar tristeza pelo desaparecimento do padre, lamentasse o de sua cachorrinha. O castigo veio rápido: minutos depois a moça foi dominada pelo desejo de morder, latir, uivar e correr como um cachorro, sendo por isso trancada por seu irmão em uma jaula, aonde padeceu sua maldição até o fim.

 

O afamado poeta popular Moisés Matias de Moura, que na década de 1950 vendia folhetos da literatura de cordel no mercado central de Fortaleza, capital cearense, relatou esse caso estranho em A moça que virou cachorra porque disse uma palavra contra o padre Cícero Romão Batista, cujos versos contam que:

 

Em um sitio que havia / por nome de Nova Olinda / por causa de uma palavra / perdeu-se uma moça linda. / Em bicho se transformou / não sei se é viva ainda / não declaro o nome dela / por não me cair o tino. / Seu pai era um coronel / homem de estudo fino / sua mãe lhe estimava / tinha ela em seu domínio. / Era rica e educada / falava por pabulagem / poucos lhe compreendiam / a sua fina linguagem / o melhor sábio do mundo / pedia a ela homenagem. / Porém a educação / não é só boas leituras / tem sábios ignorantes / de perdidas formosuras / porque não sabem tratar / delicado às criaturas. / Como essa linda moça / que caiu na perdição / por soltar uma palavra / em ponto de mangação / sorrindo, fazendo pouco / do padre Cícero Romão. / Essa moça, meus senhores / tinha uma cachorrinha / que recebeu de presente / de uma amiga vizinha / com a maior estimação / criava desde novinha. / No dia em que padre Cícero / faleceu em Juazeiro / morreu essa cachorrinha / da filha do fazendeiro / a hidrofobia atacou-lhe / no asseiro do terreiro. / Essa moça, essa noite / comprou um maço de vela / fez à dita cachorrinha / uma boa sentinela / mandou botar no sagrado / de véu, palma e capela. / Alguns dias ainda passou / muito tristonha e chorosa / pela falta da cachorra / que dela era carinhosa / porém depois consolou-se / por ser muito vaidosa.

 

Um dia ela foi à loja / engolfada no anseio / comprar vestidos e perfumes / para botar a passeio / porque ela não perdia / cinema, drama e recreio. / Na mesma loja entrou / uma senhora direita /  perguntando ao caixeiro / - Aí tem fazenda preta? / A moça, ouvindo aquilo / riu-se fazendo careta / perguntou para a mulher: / - Dona, a senhora é viúva? / Ou está adivinhando / que amanhã é de chuva / comprando fazenda preta / e eu encarnada-luva... / Morreu gente da senhora? Era a moça interrogando / e a pobre mulherzinha / com aquilo se acanhando / disse: - meu padrinho morreu / vou botar luto chorando. / - Quem é esse seu padrinho? / a moça lhe perguntou. / Disse ela: - O padre Cícero / que agora se acabou. / A moça fez quá, quá, quá / naquilo se transformou. / Transformada ainda disse / para a dita mulherzinha: / - não bote luto por ele / sim por minha cachorrinha / que morreu no mesmo dia / sepultou-se à tardezinha... / Ave-Maria, filhinha! / a mulher lhe respondeu / não fale do padre Cícero, / ele nunca lhe ofendeu. / A moça virou os olhos / abocanhou-lhe e mordeu.

 

Essa mulher deu um grito / que na loja estremeceu. / - Venha depressa, caixeiro / que a moça me mordeu!... / O caixeiro quis pegá-la, / porém a moça correu. / O caixeiro admirou-se / vendo aquele mistério / a moça com grande cauda / formou-se um exemplo sério / por causa de uma palavra / acabou-se tanto império. / A moça saiu correndo / mordendo quem encontrava / juntou-se um bloco de homens / para ver se a pegava / porém a moça corria / que só o vento alcançava. / Os homens que foram atrás / botaram um arrodeio / de emboscada esperaram / ela foi sair no meio / se agarraram com ela / que o barulho foi feio. / Depois dela dominada / um homem lhe perguntava / de quem ela era filha / e o lugar onde morava / porém a moça sisuda / nem uma resposta lhe dava.

 

E os versos prosseguem relatando o ocorrido, até que o último deles solicita a quem os esteja lendo: Peço pelo amor de Deus / que me façam esse favor, / de não me falar de padre / seja lá que padre for / não gosto de ouvir falar / de ministro do Senhor.      

 

Na literatura de cordel existem, ainda, vários folhetos sobre o episódio da moça que virou cachorra. Entre eles, A moça que bateu na mãe e virou cachorra, de Rodolfo Coelho Cavalcanti; A briga de Lampião com a moça que virou cachorra, de José Pacheco Rocha; A moça que virou cachorra porque deu banana ao padre frei Damião, de J.J. Andrade.

 

No dia 22 de março de 2001, padre Cícero foi eleito o Cearense do Século, em pesquisa organizada pela Rede Globo e TV Verdes Mares.

 

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