E a H - FECHAR O CORPO
Em 1937 o escritor João Guimarães Rosa (ilustração) escreveu Sagarana. Participando com esse seu trabalho do concurso Prêmio Graça Aranha, criado pela Editora José Olympo, ficou em segundo lugar. Sua obra, publicada em 1946, começa com uma epígrafe extraída de uma quadra de desafio - Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada, passa gente ruim e boa, passa a minha namorada - que sintetiza os elementos centrais do tema abordado (Minas Gerais, sertão, bois, vaqueiros e jagunços, o bem e o mal), e é composta por nove contos: O Burrinho Pedrês / A Volta do Marido Pródigo / Sarapalha / O Duelo / Minha gente / São Marcos / Conversa de bois / A hora e vez de Augusto Matraga / Corpo Fechado.
Neste último, um dos personagens é o narrador, médico em Laginha, vilarejo do interior, convidado por Manuel Fulô para ser seu padrinho de casamento. Como o noivo é dono de uma mula chamada Beija-Fulô, e o feiticeiro Antonico possui uma bela sela mexicana, cada um dos dois gostaria de adquirir o bem do outro. Em dado momento o valentão Targino aparece e anuncia que vai passar a noite da véspera do casamento com a noiva de Manuel Fulô. Este fica desesperado, ninguém se dispõe a ajudá-lo, mas aí aparece o feiticeiro e propõe um trato a Manuel Fulô: poderá fechar-lhe o corpo, mas exige a mula como pagamento. O trato é aceito. De corpo fechado, Manuel Fulô enfrenta o bandido, e para espanto geral, o mata com uma faca do tamanho de um canivete. Morto o bandido, o casamento se realiza sem problemas. Depois disso, de vez em quando o herói consegue emprestada sua antiga mula, e é montado nela que ele pretende se mostrar como o novo valentão do vilarejo de Laginha.
Essa narrativa mostra de forma clara o que significa para alguém ter o seu corpo fechado, ou seja, imunizar-se contra acidentes, perigos, moléstias e sortilégios, adquirindo proteção contra agressões maléficas representadas por instrumentos cortantes e perfurantes, veneno de cobra, feitiço, encosto, mau-olhado, arma de fogo, correntes, porretes e outros mais. Segundo se assevera, para obter esse privilégio sobrenatural, o interessado deverá se valer de simpatias e orações fortes escritas em forma de cruz, como nesse exemplo: “Em Roma foi nascido/ com leite de Nossa Senhora foi lavado/ Com a chave de Nosso Senhor Jesus Cristo/ o meu corpo está fechado”. Mas além dela, existem inúmeras outras destinadas a tornar invulnerável o corpo de quem assim o deseja, tais como as dirigidas a São Jorge, a São Silvestre e São Bartolomeu, a oração do Justo Juiz, as da cruz de São Bento, a da pedra cristalina e a oração do padre Cícero, o breve de Roma e a força do credo.
Em Minas Gerais, os que procuram fechar o corpo usam orações que pedem essa faculdade. Como a que diz: "Santa Catarina milagrosa, se tiver alguma coisa atada dentro de minha casa ou do meu corpo, sairá em nome de Santa Catarina; se eu tiver inimigo, ele não me enxergará; não serei ferido com armas de fogo, nem com faca; também não serei preso, em nome de Deus e de Santa Catarina (...). Não serei picado por cobras, nem por aranhas, em nome de Santa Catarina (...). Em nome de Deus e de Santa Catarina, não me botarão inveja, nem olho gordo, nem mau olhado...". Ou ainda essa outra: "Que Nossa Senhora de Fátima me cubra com o seu manto protetor, e que a corte dos anjos do céu me proteja e ampare, que eu seja feliz de hoje em diante e que a luz Divina penetre no meu lar. Em nome da puríssima e milagrosa Nossa Senhora de Fátima; que não entre doenças no meu corpo, em nome de Nossa Senhora de Fátima e do Poderoso Pai Celestial".
A crença em se poder fechar o corpo é antiga. Pesquisando no Instituto dos Arquivos Nacionais - Torre do Tombo (IANTT), na Alameda da Universidade, em Lisboa, Portugal, o antropólogo brasileiro Luiz Mott, encontrou documentos referentes à prisão do escravo João Mulato, em 1767, pelo Tribunal da Inquisição, que estava em visita pastoral a Sorocaba. A prisão do escravo fora motivada pelo fato do mesmo portar uma bolsa de mandinga, ou patuá, amuleto conhecido por sua fama em fechar o corpo de quem o carrega, protegendo-o de agressão física produzida por quaisquer instrumentos. Sobre tal passagem, o pesquisador esclarece: “As chamadas bolsas de mandinga ou patuás eram amuletos apreciadíssimos pelos colonos afro-luso-brasileiros tendo levado às barras do Tribunal da Fé mais de uma dezena de escravos e libertos não só do Brasil, como também de Portugal, sendo motivo da realização de um Sumário de Culpas na visita Pastoral de Sorocaba no ano do Senhor de 1767 (...). Famosa por sua Feira de Muares, em Sorocaba se concentrava buliçosa população de tropeiros, vaqueiros, tangedores e viandantes, os principais aficionados desta devoção a um tempo sincrética e sacrílega, à qual se atribuía o poder de fechar o corpo contra todo o tipo de perigos físicos ou malefícios diabólicos (...) (Mott, Luiz A Inquisição em São Paulo. In D.O. Leitura, São Paulo, 10 de maio de 1992, nº 120, p. 8)".
Entre outros procedimentos, há pessoas que cortam a pele no braço ou nas costas para costurar dentro da carne um minúsculo Santo Antônio de metal, a fim de obter sua proteção contra os inimigos e fechar o corpo para nenhum mal entrar. Dizem: "Fulano tem Santo Antônio enterrado no corpo". Uma oração contra arma de fogo diz: "Hoje faz noventa dias / Que eu rezei a Salve Rainha./ Entre o cão e a espoleta / está sentado Santo Antônio e a Virgem Maria”. Mas as orações contra os inimigos e para fechar o corpo não são exclusividade de Santo Antônio, porque há outras dirigidas a Maria, aos doze apóstolos, a São João Batista, São Jorge, Santa Catarina, São Manso e São Marco, São Sebastião e à Virgem Santa Clotilde.
A socióloga Peregrina Cavalcante, professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará e autora do livro Como se Fabrica um Pistoleiro, editora A Girafa, morou junto às comunidades onde existem pistoleiros para “sentir como as pessoas convivem com o fato e como se dão os crimes”. Durante esse tempo ela identificou um ponto em comum entre os pistoleiros: em geral, o matador de gente é religioso, usa uma medalha milagrosa, geralmente de São Francisco das Chagas do Canindé, para manter o corpo fechado. Um pistoleiro famoso dá, no livro de Peregrina, uma receita para conseguir isso: começa por enterrar um gato vivo, com certos ingredientes; dias depois, já apodrecido, seus pedaços serão comidos, acompanhados de uma oração.





