A a D - BATER NA MADEIRA
“Isola!, falou, e foi batendo três vezes na madeira”. Eis um breve ritual de magia, muito difundido em todas as camadas da população brasileira. Rápido, lépido: três toques na madeira com os nós dos dedos da mão direita fechada, enquanto se pronuncia o signo lingüístico adequado 'isola!', fórmula mágica em tempo de interjeição".
É dessa forma que o sociólogo Flávio Pierucci, professor do Departamento de Sociologia da USP e editor da revista Novos Estudos Cebrap, inicia seu livro Magia, onde apresenta uma visão antropológica de como a magia é encarada. A obra trata de vários tipos de magia - da magia espontânea, como bater na madeira, às terapias da nova era, como, por exemplo, os florais de Bach - mostrando como esse tipo “de coisa”, normalmente associada a povos primitivos, está presente no nosso cotidiano.
Muitos hábitos desse tipo refletem apenas os costumes e as tradições antigas aceitos pelo grupo social do indivíduo, como o de não passar embaixo de escadas, evitar os gatos pretos, não pronunciar a palavra azar, ou de se bater três vezes na madeira para afugentar o azar, ato que os romanos antigos executavam dando com os nós dos dedos em uma mesa, peça de mobília também considerada sagrada. Todos esses procedimentos, e outros mais, têm raízes no passado, e são frutos da incompreensão dos nossos ancestrais quanto aos fenômenos da natureza ou origem das coisas. É o caso, por exemplo, das mencionadas pancadas que alguém dá na madeira, com a mão direita fechada, como forma de proteção contra as coisas que podem prejudicá-lo. Como foi que surgiu essa crendice?
A versão mais aceita é a de que ela é uma herança deixada pelos celtas (ilustração acima), antigo povo guerreiro que habitava as regiões central e ocidental da Europa, e da qual faziam parte os gauleses, bretões e inúmeros outros, todos resultantes da fusão com diferentes grupos tribais. A denominação pela qual eles são conhecidos é de origem obscura e o seu significado, segundo os estudiosos, é nobre, ou alto. Quanto à sua existência, embora ela seja conhecida desde a Idade da Pedra, conforme algumas opiniões, foi somente no período entre 500 antes de Cristo e 100 da era cristã que eles atingiram seu poderio máximo, expandindo-se de maneira surpreendente até serem subjugados pelos dois maiores inimigos que possuíam, os germanos e os romanos. Os celtas não desapareceram como raça, mas de um modo geral, perderam seu próprio idioma e adotaram o de seus conquistadores.
Adoradores de muitos deuses, eles acreditavam que os raios caíam freqüentemente sobre as árvores porque as entidades sobrenaturais as utilizavam como moradia aqui na Terra, e por isso as consideravam um templo de santidade, com o poder de consumir os demônios e mandá-los de volta para as regiões profundas. Daí a razão pela qual seus sacerdotes, os druidas, batiam nelas para afugentar os maus espíritos. Considerados sábios, esses guias espirituais não formavam propriamente uma classe sacerdotal, já que eram escolhidos entre pessoas de qualquer camada social e submetidos a duro noviciado de vinte anos antes de atingir a posição de líder religioso. Embora vivessem nos bosques, os sacrifícios, as implorações às divindades, ou as decisões sobre guerras, não se realizavam sem a sua presença, e o culto que impunham distinguia-se pelo seu caráter feroz, marcado pelo sacrifício de malfeitores e prisioneiros, e em certos casos, até mesmo de crianças. Com o domínio romano os druidas foram desaparecendo aos poucos, até que a expansão do cristianismo os extinguiu por completo.
Segundo a teóloga Maria Ângela de Almeida, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, “as árvores são sagradas em todas as culturas e religiões, um símbolo universal de elemento de ligação entre o céu e a terra”. Isso explica o por que dos povos antigos, desde os egípcios até os índios do continente americano, terem dado interpretação idêntica ao fenômeno das árvores serem atingidas por raios, considerando essa ocorrência como sinal de que nelas os deuses tinham a sua moradia terrestre.
No primeiro capítulo do livro que publicou, Flavio Pierucci afirma que “Na sociedade contemporânea, dos países mais pobres aos economicamente mais avançados, são inúmeras as pessoas que praticam atos supersticiosos mas declaram não crer que possa dar certo o emprego dessas fórmulas mágicas, orais e gestuais. Praticam-se compulsivamente atos de magia trivial, sem acreditar-se inteiramente neles. Práticas irracionais? Não necessariamente. O filósofo francês Henri Bergson chamou certa vez a atenção para a grande semelhança que há entre o gesto do homem que, de raiva, aperta os dedos como se estrangulasse de longe um inimigo e a prática da feitiçaria de ataque, a magia negra. Para Bergson, em ambos os atos está presente o sentimento verdadeiramente mágico de que, uma vez executados certos gestos simbólicos, as coisas ficam carregadas de uma força que obedece aos desejos do ser humano".






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