E a H - FERRADURA
Sorte é o destino, o fado, a força invencível à qual são atribuídos os diversos acontecimentos da vida de cada pessoa, e por isso o costume de se recorrer a ele é um hábito que vem desde os tempos primitivos.
Mas a sorte também era invocada por nossos ancestrais mais antigos para resolver qualquer questão controversa, como na escolha de quem deveria ocupar os cargos públicos, por exemplo, porque para eles, quem decidia em tais casos era a divindade, que indicava o indivíduo mais apto para exercer as funções. O filósofo grego Platão (427-347 a.C) recomendava que seus patrícios buscassem nela a solução para casos semelhantes, o mesmo fazendo Heródoto (484-425 a.C), historiador grego conhecido como o pai da História, que afirmava ser a nomeação de magistrados por meio da sorte, uma das características mais evidentes dos regimes populares.
Daí a razão pela qual a busca da sorte tornou-se um procedimento corriqueiro em todas as culturas, originando a criação de amuletos como o pé-de-coelho, o trevo de quatro folhas e outros mais. Na Grécia antiga acreditava-se que a ferradura estava entre esses talismãs porque era de ferro, e os gregos daquela época supunham que tal elemento dava proteção contra qualquer mal. Além do mais, seu formato era o da lua crescente, símbolo de fertilidade e prosperidade. Entretanto, embora tal superstição venha realmente de época remota, os cristãos europeus garantem que ela surgiu graças a São Dunstan de Canterbury (924-988), arcebispo inglês que teria colocado ferraduras no demônio, só as retirando depois do próprio capeta prometer que nunca mais se aproximaria desses objetos.
Esse prelado era um moralista tão rigoroso que chegou a ponto de afastar a concubina do rei Edwy (938-959), provocando um conflito que o obrigou a refugiar-se por algum tempo no continente, mas que terminou com seu triunfo. Após o destronamento do rei que o perseguia (957), quem subiu ao trono inglês (959) foi Edgar (944-975), irmão do afastado, que por sua vez se viu forçado pelo arcebispo a cumprir uma penitência pública por ter desrespeitado uma virgem. A data desse santo é comemorada no dia 12 de maio.
Os textos relacionados à ferradura referem-se a ela como um dos mais populares objetos dos quais se vale a crença supersticiosa, sendo poucas as pessoas que negam a opinião geral de que seja um talismã de boa sorte. Daí a crença de que achar uma ferradura na rua e levá-la para casa, pregando-a sobre a porta, com as extremidades para cima, pode atrair fortuna e felicidade. Da mesma maneira como acontece se ela for colocada com as pontas voltadas para um dos lados, de modo a formar a letra C, que é a inicial de Cristo. Para muitos, o formato da ferradura simboliza o céu e o telhado da casa, representando, dessa forma, a vida material e espiritual do homem, e seu poder misterioso deriva do fato dela ser ter sido criada no fogo sagrado, e feita com ferro, que é um metal igualmente sagrado. Tanto que uma tradição afirma que o brilho do ferro novo consegue cegar os espíritos do mal e afastá-los para longe, ressalvando, porém, que o ferro velho e enferrujado não tem poder sobre os mesmos, razão por que eles poderão instalar-se na casa da pessoa que o possui.
Essa é a razão pela qual recomenda-se que qualquer peça de antiguidade destinada à decoração deve ser limpa cuidadosamente antes de ser colocada dentro de casa. Entretanto, embora exista essa crença de que o ferro tem poder de afastar feiticeiros e maus espíritos, levar um pedaço de ferro para casa também pode acarretar infelicidades.
Um lembrete importante: segundo os entendidos no assunto, para que as coisas possam ser feitas corretamente a tradição aconselha a colocação da ferradura no alto da porta e com as pontas viradas para cima, porque senão a sorte vai embora.





