N a Q - PÉ DE COELHO

Os dicionários ensinam que crendice e superstição significam a mesma coisa, porque as duas palavras identificam opiniões ou versões sem fundamento e contrárias à razão. Na verdade, elas são usadas para definir as fábulas criadas pelo povo para explicar os mistérios esquecidos pela ciência, mas como as pessoas têm por hábito defender pontos de vista diferentes sobre tudo e sobre todos, a conclusão é a de que crendice é tudo aquilo em que o outro acredita, ou seja, para os adeptos do catolicismo, por exemplo, crendice é acreditar em orixás, enquanto os adeptos do candomblé pensam a mesma coisa sobre o ato de se colocar no braço uma fitinha do Senhor do Bonfim. Sorte nossa a de que o Brasil seja um país de extrema liberalidade religiosa, pois aqui as coisas se fundem permitindo que adeptos de crenças diferentes possam viver juntos e sem conflitos.  

 

Existem superstições positivas e negativas. Passar por baixo de uma escada é de mau agouro, mas bater três vezes na madeira com as juntas dos dedos da mão direita, quando se fala de algum acontecimento negativo, supostamente é o bastante para neutralizar possíveis malefícios. Diversas outras atitudes relacionadas com o comportamento humano também estão atreladas a esses sentimentos, como tomar cuidado para não cruzar com gato preto, não quebrar espelhos, levantar-se da cama sempre com o pé direito, manter em casa plantas que atraiam fortunas, carregar pé de coelho para chamar a sorte, ou entrar e sair de casa pela mesma porta, o que serve para comprovar que insegurança e medo do desconhecido são impressões sempre presentes no cotidiano da grande maioria das pessoas.

 

Existem registros de que em plena Idade Média (século XIII), durante os terríveis invernos europeus, as pessoas pobres se amontoavam no interior de suas casas com os animais domésticos, todos bem juntos, para aproveitar o calor corporal de cada um. Nessa época as casas dessa gente não tinham nem luz nem qualquer tipo de isolamento térmico, e como porcos, ovelhas, carneiros e outros animais ficavam juntos e agrupados, é perfeitamente aceitável a idéia de que uma jovem mãe, tremendo de frio, pudesse pegar uma pequena lebre que se aninhava a seu lado e deixá-la mamar em seu seio, só para aproveitar o calor que o pêlo do pequeno roedor lhe transmitia. Foi dessa forma, assegura a tradição, que as lebres passaram a ser vistas como ótimas companhias. Ao mesmo tempo surgiu na Grã-Bretanha a crença de que as lebres eram criaturas mágicas que traziam boa sorte, nascendo daí a certeza que o osso do pé desses animais, fácil de carregar, curava doenças caso fosse mantido junto ao corpo de quem estivesse sofrendo de algum problema físico.

 

Em todo o mundo o coelho é considerado como símbolo de fertilidade, vindo daí a convicção de que quem tiver em seu poder um pé de coelho como amuleto, estará afastando as más energias que impedem a fecundidade em qualquer campo da vida, seja na família, no amor, ou mesmo nos negócios. Embora esse amuleto tenha chegado ao Brasil através dos norte-americanos, sabe-se que em outros povos o coelho representa a astúcia e a esperteza, e como sua pata é responsável pelo equilíbrio e firmeza de movimentos, acredita-se que a posse de uma delas poderá propiciar agilidade, presteza e solução conveniente para problemas complexos.

 

A superstição sempre esteve presente na vida dos povos, constituindo traço marcante da cultura popular.  As simpatias que se mantiveram ocultas durante séculos, porém guardadas vivas na memória de homens e mulheres porque transmitidas de geração para geração, representam a cultura das populações rurais de antigamente, e não obstante sejam consideradas agora como crendice ou superstição, convivem perfeitamente com os valores e conceitos modernos até mesmo nos grandes centros urbanos. Mas para que possam dar certo e surtir os efeitos desejados, é necessário que se acredite na força que possuem, porque como bem diz o ditado popular, a fé remove montanhas.

 

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