R a U - SAL GROSSO

O uso do sal na alimentação humana só se tornou prática comum há cinco mil anos, mais ou menos. Antes disso, o homem primitivo, que vivia basicamente da caça ou da pesca, não necessitava suplementar sua dieta com essa substância, já que recebia sua dose diária ao ingerir a carne dos animais que abatia. Isso mudou quando ele, ao abandonar o nomadismo, desenvolveu a agricultura e adicionou os grãos e vegetais (pobres em cloreto de sódio) às suas refeições.

 

A partir de então surgiu a atividade salineira, ou seja, a procura pelo sal. No início ele era extraído do solo (o sal gema), retirado de minas subterrâneas resultantes de mares e lagos antigos que secaram. Só bem mais tarde, por volta do século 19 antes de Cristo, passou a ser retirado da água do mar (o sal marinho), quando os chineses começaram a fervê-la em vasilhas de barro.

 

Altas concentrações salinas inibem a proliferação de microorganismos na comida, mantendo-a em boas condições de consumo por tempo bem maior. Foi graças a essa capacidade de conservar alimentos que o sal teve grande influência na história da humanidade, pois ao eliminar o problema de armazenamento dos produtos de caça e pesca que constituíam a base da alimentação do homem primitivo, facilitou a sobrevivência e os movimentos migratórios das populações. Mas a dificuldade para obtê-lo o tornou precioso e causador de pirataria, discórdia e guerras. A conseqüência dessa escassez de dimensão crescente devido a procura cada vez maior pelo produto, transformou-o em alvo da cobiça de governantes que não só transformaram sua extração em monopólio estatal, mas também oneraram sua venda com pesados impostos, tal como aconteceu no Brasil em 1711, quando eclodiu na Bahia o movimento conhecido como Motim do Maneta.

 

O sal foi introduzido no Brasil pelos colonizadores portugueses, e seu emprego como conservante de alimentos influiu decisivamente na ocupação do território brasileiro. O charque - ou carne-seca - foi a base da alimentação dos boiadeiros do Nordeste, que avançaram pelo interior em direção ao Sul, em busca de terras para a pecuária, e também dos bandeirantes paulistas, que tomaram o rumo noroeste à procura de novas riquezas.

 

Mas a modernização das salinas derrubou o seu preço, permitindo, dessa forma, que ele, ou derivados, sejam agora utilizados com múltiplas finalidades, como na preparação de alimentos, no complemento na alimentação do gado e curtume de couro; ou ainda como matéria-prima para obtenção de cloro, ácido clorídrico, soda cáustica e bicarbonato de sódio. Além disso, também é aproveitado em indústrias de vidro, papel e celulose; em artigos de higiene que incluem os sabões, detergentes, pasta dental e cosméticos; na indústria de porcelana, têxtil e bélica; no tratamento de águas e purificação de gases; na industrialização de produtos como borracha sintética, tratamento de óleos vegetais, celulose, papel, alumínio e produtos farmacêuticos, tintas, inseticidas, cola, fertilizantes, corretivos de solos, etc.


O filósofo grego Platão (42-/347 a.C.) afirmava que o sal era “uma graça especial dos deuses”. No Novo Testamento, Jesus diz aos seus discípulos: “Vós sois o sal da terra”. Em meados da Idade Média tinha-se como comum o pensamento de que ele afastava o demônio porque “era a marca da eternidade e da pureza, uma vez que jamais apodrecia ou se corrompia”. Povos antigos atribuíam ao sal poderes afrodisíacos e acreditavam que sua carência diminuía a potência sexual dos homens. Presente em rituais religiosos de diversas épocas e civilizações, citado em livros sagrados de credos e seitas, o sal foi adquirindo fama de ingrediente poderoso na luta contra entidades do mal e interesses mesquinhos, passando a alimentar inúmeras crendices e superstições que o imaginário popular veio mantendo vivas através dos anos. Entre as muitas que existem estão as seguintes:

 

- tomar banho com sal grosso protege contra o mau-olhado.

 

- para afastar os maus espíritos deve-se jogar sal por cima do ombro esquerdo.

 

- derrubar sal traz má sorte; para evitá-la, jogue sal por cima do ombro direito.

 

- o uso de um sachê de sal pendurado no pescoço afasta os maus espíritos.

 

- em muitos países espalha-se sal no umbral da porta de uma casa nova para impedir a entrada de maus espíritos.

 

- a mistura de sal com água ou álcool além de absorver tudo de ruim que está no ar, ajuda a purificar a casa e impede a entrada da inveja, do mau-olhado e de outros sentimentos inferiores.

 

- depois de uma festa é sempre conveniente lavar com sal grosso os pratos e copos usados, para neutralizar a energia negativa de qualquer dos convidados.

 

- banho de sal grosso e o antigo escalda-pés (mergulhar os pés em salmoura bem quente), neutralizam a eletricidade do corpo e renova as energias.

 

- uma pitada de sal jogada sobre os ombros afasta a inveja.

 

- sal marinho seco colocado atrás da porta, em um pires branco, puxa a energia negativa de quem entra em sua casa.

 

- Em alguns lugares ainda se conserva o costume do noivo ir para a igreja com sal no bolso esquerdo, porque essa simpatia protege contra a impotência.

 

- se você colocar sal grosso em um ambiente, ele deverá ser trocado a cada quinze dias, pois decorrido esse prazo ele ficará saturado.

 

- traz má sorte o saleiro passado da mão de uma pessoa para outra.

 

- emprestar, ou pedir sal emprestado, destrói a amizade. O melhor é oferecê-lo ou aceitá-lo com presente.


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