Greco-romana - HÉRCULES 06 - AVES ANTROPÓFAGAS DA ESTINFALIA, AS

Estinfale é um lago situado na antiga Arcádia, hoje departamento de Argólida e Corinto, na península do Peloponeso, sul da Grécia. Segundo a Mitologia Grega, houve um tempo em que aves enormes, afugentadas do lugar onde viviam por predadores mais perigosos que elas, migraram para aquela região e passaram a esconder-se em um bosque lá existente, de onde saíam apenas para alimentar-se. Relatos antigos revelam que tais pássaros não tinham inimigos em seu novo território, o que lhes possibilitava reproduzirem-se com tamanha facilidade que já formavam um bando numeroso. Eles comiam todos os frutos e cereais que encontravam pela frente, destruíam as plantações existentes em larga área ao redor do lago, sendo descritos em outras versões como devoradores de homens. Por esse motivo provocavam um medo terrível entre os moradores das redondezas, e estes, sem alternativa, ou se mudavam para outros lugares tranqüilos e seguros, ou então se trancavam em suas casas, só as deixando nas horas de absoluta necessidade.

 

Sabedor do que se passava, Euristeu, rei de Micenas e de Tirinto, que odiava Hércules e por esse motivo recebera da deusa Hera (Juno) o poder de exigir do herói, como expiação para um crime que este cometera (o assassinato de Mégara, sua esposda, e dos três filhos do casal), a solução para doze problemas de sua livre escolha, o incumbiu de matar as aves antropófagas no menor espaço de tempo possível. Incumbido dessa missão, Hércules procurou informar-se a respeito, e ficou sabendo que seria difícil eliminá-las porque elas passavam a maior parte do dia ocultas em meio à densa vegetação do bosque, e quando o deixavam, só o faziam individualmente, ou em pequeno número.

 

Ele então recorreu a Atena (Minerva), perguntando-lhe o que fazer, e esta o orientou no sentido de que para matá-las, Hércules primeiramente precisaria fazê-las sair, todas e de uma só vez, do bosque onde se escondiam;. Mas como? Então a deusa e o semi-deus foram à procura de Hefesto (Vulcano), divindade que presidia o fogo e todas as matérias fundíveis, e entregaram a ele a tarefa de produzir um instrumento capaz de alcançar esse objetivo. O deus ferreiro entrou imediatamente em ação, e em pouco tempo tinha para mostrar duas castanholas de bronze. E quando as colocou nas mãos e fê-las soar levemente, só para demonstrar que funcionavam, as duas produziram um som tão forte e atordoante que Atena e Hércules tiveram que tampar os ouvidos, receando de que seus tímpanos não suportassem tamanha vibração sonora.  

 

Então, munido desses dois pequenos instrumentos de percussão, além das armas de caça de que precisaria, Hércules tomou o caminho do lago Estinfale. Dizia-se, a respeito das aves que pretendia matar, que suas penas pareciam ser feitas de ferro, e que as donas das mesmas, num simples movimento de asas, tinham a capacidade de atirá-las contra o que quisessem, como se fossem adagas afiadas capazes de mutilar e matar o ser humano ou animal que por elas fosse atingido. Todos os que cruzavam com o herói lhe diziam a mesma coisa, aconselhavam-no a tomar cuidado, e por isso, quando chegou ao local que considerou satisfatório, ele procurou abrigar-se em meio às pedras que se amontoavam à sua volta, disfarçou-se o melhor que pode com ramos da abundante vegetação ali existente, preparou o arco e as flechas, cujas pontas tinham sido embebidas no sangue venenoso da Hidra de Lerna, e depois tratou de deitar-se sob a copa de uma árvore frondosa, aguardando que o sol de meio-dia avançasse mais um pouco no firmamento, refrescando a tarde e tornando-a mais convidativa para os animais.

 

Chegada a hora, Hércules tampou os ouvidos com duas mechas de pano que havia tirado da camisa e encharcado na água guardada em uma espécie de cantil que levava, prendeu as castanholas nos dois polegares, e logo em seguida tratou de chacoalhá-las com o maior vigor possível, num ritmo alucinado. Instantes depois, uma pequena pausa, logo seguida pela mesma barulheira frenética de antes. O som avançava invencível diante do silêncio da mataria, subjugando-o e reverberando entre os troncos, ramos, galhos, folhas e cipós do bosque, de tal modo que ninguém, ou coisa alguma situada a relativa distância, poderia deixar de escutá-lo.

 

E realmente, foi o que aconteceu. Não demorou muito tempo para que a primeira estinfália se elevasse além das copas, assustada, olhando para todos os lados, sem conseguir descobrir o que estava acontecendo. Logo depois apareceu outra, e mais outra, e mais outra, até que em pouco tempo dezenas delas sobrevoavam a área em baixa altura, indecisas, desorientadas com a continuidade daquela barulheira que elas não sabiam de onde vinha, nem de que era feito, mas que o instinto lhes dizia representar algum perigo contra o qual precisavam se precaver.

 

Deixando as castanholas de lado, Hércules empunhou o arco, armou-o com uma seta envenenada e disparou-a contra uma das aves antropófogas, abatendo-a. Rapidamente ele repetiu o procedimento, e foi fazendo assim, duas, três, cinco, dez e mais vezes, e a cada flecha que zunia pelos ares um dos pássaros caía ferido mortalmente. E eles se tornando poucos, o  bando foi se tornando cada vez menor, até que em dado instante, sem que se saiba o por que, os sobreviventes se agruparam, tomaram o rumo do poente e desapareceram no horizonte, para nunca mais serem vistos na antiga Arcádia.


Dessa forma chegava ao fim, e com sucesso, mais um dos doze trabalhos impostos a Hércules.


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