Greco-romana - HÉRCULES 08 - ÉGUAS ANTROPÓFAGAS DE DIOMEDES, AS

Dois Diomedes são mencionados na mitologia grega. Um era o rei de Argos, que se distinguiu por vários feitos na guerra de Tróia e foi cultuado como herói na Grécia e nas costas do mar Adriático. O outro era filho de Ares (Marte), rei dos bístones, povo não-grego que vivia na antiga Trácia, entre o mar Egeu e o monte Ródope, ao norte da península balcânica. Ele possuía quatro éguas (ou cavalos, em algumas versões) animais selvagens, carnívoros e antropófagos, que soltavam fogo pela boca e eram alimentados com a carne dos estrangeiros que apareciam nos domínios do seu dono e acabavam sendo aprisionados por ele.

 

Sabedor do que ocorria no reino de Diomedes, Euristeu, soberano em Micenas, ordenou a Hércules, de quem não gostava, que fosse buscar os temidos animais e os trouxesse até ele. O herói grego não tinha como recusar o cumprimento de tal imposição porque ela se integrava à penitência que lhe fora imposta pelo oráculo de Delfos por ter matado a própria esposa, Mégara, e os três filhos nascidos dessa união, durante um acesso de fúria que o acometera, provocado pela deusa Juno (Hera).

 

Por isso partiu logo em seguida para a região da Trácia, a fim de cumprir o oitavo trabalho exigido por Euristeu. Entretanto, a certa altura do caminho o semideus decidiu desviar-se de sua rota para visitar Admeto, rei na Tessália, e sua esposa Alcestes. Este tinha sido um dos seus companheiros na época dos argonautas, e não fazia muito tempo tivera o privilégio extraordinário de dar ordens a um deus.  Isso aconteceu quando Esculápio, filho de Apolo, foi morto por um raio forjado pelos Ciclopes a mando de Plutão, senhor do reino das sombras, e seu pai, querendo vingá-lo, matou com suas setas alguns dos gigantes de um olho só no meio da testa. Irritado, Zeus (Júpiter) o condenou a tornar-se servo de um mortal durante um ano.  

 

Durante esse período Apolo e Admeto se tornaram tão bons amigos que quando este adoeceu gravemente o primeiro obteve das Moiras (Parcas), as três irmãs – Cloto, Láquesis e Átropos - que teciam o fio do destino humano e cortavam-no com suas tesouras quando bem entendiam, a promessa de que elas poupariam o adoentado caso alguém se dispusesse a morrer em seu lugar. Alegre com essa esperança de salvação, Admeto pensou que seria fácil encontrar alguém que se dispusesse a substituí-lo. Porém, tal não se deu.  Essa passagem é contada por Thomaz Bulfinch, em seu “Livro de Ouro da Mitologia”, da seguinte forma:

 

Guerreiros valentes, que de boa vontade arriscavam a vida por seu príncipe, recuavam ante a idéia de morrer por ele num leito de enfermo, e os servos que lhe deviam benefícios e que se encontravam a serviço de sua casa desde a infância, não se dispunham a sacrificar os dias que lhes restavam para mostrar sua gratidão. “Por que um de seus pais não se sacrifica?”, perguntavam. “De acordo com as leis da natureza eles não poderão viver muito mais, e quem estará mais indicado que eles para resgatar uma vida a que deram origem?”. Os pais, contudo, por mais pesarosos que estivessem ante a iminência de perder o filho, não atendiam ao apelo para salvá-lo. Então, com admirável abnegação Alcestes ofereceu-se como substituta. Admeto, por mais amor que tivesse à vida, não desejava mantê-la a tal custo. Mas não havia remédio. A condição imposta pelas Parcas foi satisfeita e o decreto era irrevogável. Admeto se restabelecia, ao passo que Alcestes adoeceu e se aproximava rapidamente da sepultura.

 

Justamente nessa ocasião Hércules chegou ao palácio de Admeto e encontrou todos os moradores muito pesarosos ante a iminência da morte da dedicada esposa e querida senhora. Hércules, para quem não havia trabalho bastante árduo, resolveu tentar salvar a rainha. Ficou na porta do seu quarto e, quando a Morte chegou à procura de sua presa, agarrou-a e obrigou-a a desistir de sua vítima. Alcestes restabeleceu-se e foi restituída ao marido.

 

Depois desse episódio Hércules reiniciou sua caminhada para a Trácia, em busca das éguas antropófagas. Chegando à Bistônia, procurou o palácio de Diomedes, dominou os serviçais, livrou-se da guarda real, aprisionou o rei e capturou uma a uma as quatro fêmeas mal afamadas, que não lhe deram maior trabalho nem o ameaçaram de alguma forma. E já estava pronto para partir com elas rumo a Micenas quando percebeu que estavam famintas.

 

Então, segundo a lenda, ele lhes serviu o próprio Diomedes como alimento, iniciando em seguida a viagem de retorno. Chegando a Micenas entregou as éguas a Euristeu, que amedrontado ao se ver diante delas, mandou soltá-las nas proximidades  do monte Olimpo, aos pés do qual acabaram sendo mortas e devoradas por lobos selvagens.

 

Na ilustração, Hércules capturando uma das éguas de Diomedes. Painel de azulejos do século 17, na varanda da fachada sul do Palácio de Belém, em Lisboa, foto de José Manuel.


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